Rush: "Tentamos progredir em todos os álbuns"
Por Felipe Ferraz
Fonte: Blabbermouth
Postado em 20 de maio de 2008
Keith Spera, do The Time-Picayune, realizou uma entrevista com o guitarrista do RUSH, Alex Lifeson, onde foram abordados diversos tópicos, incluindo o processo de composição do grupo.
The Times-Picayune: Antigamente vocês cultivavam certa mística. Atualmente vocês parecem estar muito mais em evidência. Existe um esforço deliberado para não permanecer tão obscuros?
Lifeson: "Eu não tenho certeza se é um esforço deliberado. Eu acho que é um desenvolvimento natural. Nós estamos um pouco mais confiantes e confortáveis em nossas peles conforme envelhecemos e amadurecemos. Por muito tempo nós realmente desejamos manter os assuntos da banda separados dos assuntos privados, de nossas vidas pessoais. E nós realmente tivemos sucesso nisso por muito tempo. Você não vê muitas coisas sobre a banda; nós certamente não estamos na revista People e nada do tipo".
"Existe muito mais atenção sobre nós atualmente do que em todo o passado, e isso é tudo meio que interessante. Mas nós ainda somos meio que uma banda pequena, cult – esse é o modo que vemos isso. Nós não temos uns seguranças grandões e valentões, nada dessas porcarias. Nós simplesmente vamos lá e fazemos nosso trabalho, nos divertimos fazendo isso, e depois vamos embora para casa".
The Times-Picayune: Neil, especialmente, tenta manter um pouco de distância de toda essa atenção.
Lifeson: "Esse é o tipo de cara que ele é e o tipo de cara que ele sempre foi. Apesar de todas as coisas horríveis que aconteceram com ele, ele sempre foi desse modo. Ele não fica à vontade com multidões, o que é um empecilho para um cara que tem que se sentar diante de 15000 pessoas toda noite. O cara é um músico fantástico. As pessoas começam a elogiá-lo e ele fica envergonhado".
"Então ele construiu essa parede ao redor de si – provavelmente cerca é um termo melhor. Ele pode se comunicar, ele é um grande cara, mas simplesmente fica desconfortável com toda essa atenção e com todas essas multidões. É difícil para ele abrir mão de sua privacidade".
The Times-Picayune: Falando da revista People, eu fiquei chocado com o seu infortúnio na Flórida.
Lifeson: "Essa foi uma experiência horrível que ainda permanece após quatro anos e meio. Eu estava jantando no mais elegante hotel resort do país, e a maneira como fomos tratados... eu fui nocauteado, tive meu rosto socado por três policiais, tomei seis eletro choques (NT: com phasers utilizados pela policia norte americana) e meu filho dois. E nós não fizemos nada! Eu tive que esperar por quinze meses pela definição criminal do caso. Eu fui acusado de cinco crimes capitais, e nenhuma acusação se concretizou. O que isso diz?"
"Então eu impetrei ações legais. Tem sido uma verdadeira batalha. O Ritzen-Carlton (o hotel em que tudo ocorreu) é uma grande corporação, e eles têm um grande e poderoso apoio jurídico. Tudo o que eu peço é um dia meu no tribunal... Tem sido uma batalha difícil em todos os momentos. Eu não dei muita importância a isso, apesar de isso me incomodar todos os dias. Eu queria isso resolvido e uma chance de ir ao tribunal para expressar os fatos sob o meu ponto de vista, assim como o ponto de vista de outras 12 testemunhas que nós levaríamos".
"Eu tentei não pensar muito nisso esses dias e deixar as coisas acontecerem do modo que devem ser. Nós estamos esperando uma decisão na apelação e então veremos o que fazer".
The Times-Picayune: Isso me faz pensar como caras, por exemplo do MÖTLEY CRÜE, lidam com essas coisas o tempo todo.
Lifeson: "Eu nunca estive em uma batalha na minha vida! Eu sou avô. Tenho muito orgulho do trabalho que faço. Eu defino altos padrões para mim e para minha família. Eu amo minha família e a protegerei com minha vida. Por isso eu gastei centenas de milhares de dólares para me defender, e cheguei a meu limite".
"Eu tinha um ótimo advogado, e os fatos relevantes são o que são. Mas eu te digo que no condado de Collier, que é um dos mais conservadores da Flórida, o departamento policial... são pessoas malvadas. É uma grande força e eles a exercem em demasia. Eu os vi parar um carro com senhoras, aquelas com casaquinhos de lã, e o policial fizeram com que saíssem do carro com as mãos encostadas no veiculo, tal como no seriado 'Cops'".
The Times-Picayune: Voltando à banda... Alguma vez você discordou com o ponto de vista expresso nas letras de Neil?
Lifeson: "Eu não sei se já discordei. Pode ter havido ocasiões nas quais eu provavelmente não era tão interessado em algo sobre o que ele falava. Mas o que importa é a expressão que ele tem desses conceitos. Eles são geralmente um conceito da banda. Nós nos envolvemos na idéia e no seu significado e a forma como isso será expresso em suas letras".
"O entrosamento entre ele e Geddy para escrever letras é muito bom. Neil reescreve a letra três, quatro, cinco, 10 vezes se precisar, no caso de Geddy ter problemas em entender as idéias contidas ou simplesmente não se sentir confortável com o número de palavras que tem para cantar. Eles trabalham muito bem juntos. Eu já vi Ged tirar uma palavra de uma obra poética e dizer, 'Essa é a palavra que completa essa obra. Você pode reescrever tudo em torno dessa palavra?' Neil sempre o faz. É muito profissional, essa experiência em comum".
The Times-Picayune: Neil trabalhou com temas religiosos e agnósticos no passado. Porque esse foco em "Snakes & Arrows"?
Lifeson: "Bom, olhe em volta. O mundo é um lugar louco atualmente e é guiado pela religião. Sempre foi guiado pela religião. Mas atualmente a divisão entre oriente e ocidente, e a enorme bagunça criada por militantes de todos esses grupos... é um assunto que deve ser falado e pensado".
The Times-Picayune: Desde "Vapor Trails", você tem definitivamente retornado ao básico e retomando o seu som.
Lifeson: "(O produtor) Nick Raskulinecz realmente nos abriu os olhos. Ele é um fã nosso desde os onze anos de idade. Eu acho que o RUSH foi a primeira banda que ele foi ver ao vivo com sua mãe em Knoxville. Então, para ele, realmente foi o sonho de uma vida trabalhar conosco".
"Nós sempre tentamos olhar para frente, nós sempre tentamos progredir em todos os álbuns que fazemos, e nós podemos enlouquecer fazendo isso. Ele disse, 'Isso é ótimo, mas não abandonem aquilo que os fazem ser o que são hoje. Pensem sobre o modo que compõem o modo que criam os arranjos, pensem em alguns sons que vocês usam tradicionalmente. Nunca deixem estas coisas de lado".
"Isso abriu nossos olhos, porque nós realmente tendíamos a fazer assim. Uma das razões de 'Snakes & Arrows' soar do modo que soa é devido a existências de elementos do velho RUSH, o antigo RUSH, mas nós tentamos juntar isso de um modo inovador e contemporâneo.
A entrevista completa (em inglês) pode ser lida aqui; e o áudio em MP3 pode ser baixado neste link.
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