Rock and Roll: brigas internas que serviram como inspiração para clássicos (Parte I)
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 02 de outubro de 2016
"Inspiração" é um dos temas mais evasivos quando do questionamento de artistas: da banalidade diuturna à Guerra da Criméia, criadores (de um modo geral), gostam de manter as coisas no campo "místico", "etéreo", "surrealista"- enquanto nós, os fãs, queremos cada vez mais chafurdar em suas mentes e tentar entender de onde isso tudo vem.
Um dos itens mais controversos do ponto de vista da inspiração, são as rusgas intermináveis entre artistas: gente que convive séculos com as mesmas pessoas, rotinas de trabalho intermináveis e meses fora de casa. Mas, para além do bem e do mal, esses entreveros também serviram como mote de inspiração para composições acertadas e que deixaram sua marca no rock n´roll:
1) "Mixed Emotions"
STEEL WHEELS – ROLLING STONES (1989)
"Não é mais engraçado/É maior do que o dinheiro/Você não me comove mais". Lançada em 1988, no álbum debut de KEITH RICHARDS ("Talk is Cheap"), "You Don´t Move Me", é o retrato cru da mais que desgastada relação com JAGGER em meados daquela década. No ano seguinte, "STEEL WHEELS", o último registro em estúdio dos STONES naquela década, trouxe a faixa em epígrafe (música de RICHARDS e letra de JAGGER), que trouxe versos conciliadores como: "Vamos fazer as pazes/Apagar o passado/Fazer amor juntos/Permanecer no caminho" ou "Você não é a única/Com emoções misturadas/Você não é o único navio/À deriva neste oceano". Apesar de aparentemente se dirigir a uma mulher (o que JAGGER jura ser sua inspiração), pra bom entendedor meio verso basta....
2) "We Are The Clash"
CUT THE CRAP – THE CLASH (1985)
Mesmo com noventa por cento da crítica descendo o cacete, "Cut The Crap"é um registro mediano de uma banda de quem sempre se esperou muito. Mas após intermináveis crises, as demissões de TOPPER HEADON e do genial e falastrão MICK JONES, brigas com gravadoras, e todo enredo que se seguiu, STRUMMER aproveitou para extravasar a raiva contra JONES (em shows após a saída do guitarrista, STRUMMER bradava ao microfone: "vai se fuder herói da guitarra" durante a execução de "Complete Control" do primeiro disco), em frases tentando mostrar uma pálida (mas ainda honesta) tentativa de unicidade: "Nós não vamos ser tratados como lixo/Temos uma coisa/Nós somos o confronto/Está certo/Nós somos o CLASH".
3) "Bad Attitude"
HOUSE OF THE BLUE LIGHT – DEEP PURPLE (1987)
Quando vejo essas briguinhas midiáticas entre "estrelas" atuais, fico pensando no inferno que deveria ser a convivência (sobretudo após a volta em 1984), entre IAN GILLAN e RITCHIE BLACKMORE. Nem os irmãos FOGERTY ou os DAVIES (do KINKS) conseguiram encrencar mais do que esses dois (GILLAN foi despedido duas vezes em oito anos), até BLACKMORE puxar o carro. "Se é possível sentir raiva e tristeza ao mesmo tempo é assim que me sinto", disse JON LORD após o show de despedida de um irascível BLACKMORE. Em "Bad Attitude" (creditada com uma composição conjunta, mas cuja letra foi totalmente redigida por GILlAN- que sairia da banda logo depois), dispara: "Você me trancou numa gaiola de papel/ Você pensa que estou acorrentado mas estou apenas amarrado/Afaste-se e saia do meu caminho/Não vou te machucar, já tenho sido pressionada o suficiente/Você se deparou a muitos problemas/Você se deparou a um mal negócio/Você diz "Eu tenho uma má atitude"/Como você acha que me sinto?"
4)"Broken Arrow"
BUFFALO SPRINGFIELD AGAIN - BUFFALO SPRINGFIELD (1967)
Duas coisas sobre NEIL YOUNG são axiomáticas: ele é tão genial quanto difícil. Antes do segundo registro do BUFFALO SPRINGFIELD, YOUNG surtou e abandonou o barco: "Eu estava ficando louco: amávamos e nos odiávamos o tempo inteiro. Comecei a me sentir como se não tivesse que responder ou obedecer a ninguém. Eu precisava de mais espaço". Entretanto, antes das gravações, o canadense voltou a banda (de onde sairia no ano seguinte), e efetuou o registro, repleto de metáforas sobre confusão e abandono. Mas como STEPHEN STILLS diria, com ar confessional, tempos depois: "Estávamos da idade em que você pode facilmente adquirir a `síndrome de diva´ antes de ser efetivamente algo- e foi isso que aconteceu naquela época."
5) "Carouselambra"
IN THROUGH THE OUT DOOR - LED ZEPPELIN (1979)
ROBERT PLANT escreveu essa letra a respeito do estado da banda na época: Jimmy PAGE (afundado em heroína) e JOHN BONHAM (em estado severo de alcoolismo) estavam mais interessados na vida de rock star, enquanto ele e JONES "carregavam o piano" na gravação. A letra (que quase acabou quase soterrada na mixagem, principalmente pelas camadas de guitarra) , deixa seu recado ( e por que não dizer, um prenúncio): "Irmãs do caminho toleram ao lado do seu tempo no silêncio da paz/ Aguardem o seu lugar dentro do anel da calma/Ainda estamos a transformar em segundos de libertação/Aguardem o convite que poderá não chegar."
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