O megahit do rock nacional dos anos 1980 cuja letra não quer dizer nada
Por Gustavo Maiato
Postado em 13 de maio de 2025
"Já imaginou ganhar muito dinheiro só bebendo com seus amigos?" A pergunta, feita pelo youtuber Julio Ettore em um de seus vídeos, resume bem a origem inusitada de um dos maiores sucessos do rock nacional nos anos 1980: "Sonífera Ilha", dos Titãs. A canção, que abriu portas para a banda nas rádios e TVs do País, nasceu de uma tarde regada a cerveja, piadas internas, e um teclado de brinquedo.
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O megahit que colocou os Titãs no mapa tem apenas dez versos. A letra — que não quer dizer nada, segundo os próprios integrantes — foi escrita por cinco pessoas diferentes, algumas contribuindo com duas ou até uma palavra. "A música nasceu desse jeito, despretensioso, numa bebedeira de amigos, e acabou sendo um grande sucesso", conta Ettore.
A história de "Sonífera Ilha"
A ideia inicial da música veio de Ciro Pessoa, um dos fundadores do grupo. Na época, Ciro morava no Rio, trabalhava numa agência de publicidade e observava de perto o nascimento do rock carioca dos anos 80. Ligou para Tony Bellotto, em São Paulo, e propôs retomar um projeto antigo: montar uma banda com pegada teatral e estética new wave.
Em junho de 1982, Ciro estava de volta a São Paulo. Ele, Tony, Marcelo Fromer, Branco Mello e o amigo Carlos Barmack se encontraram em um mezanino, com latas de cerveja e um gravador. O grupo começou a improvisar frases soltas e testar melodias. A letra ainda era cheia de lacunas. "Tinha ‘Ilha’, mas não tinha 'Sonífera'", narra Ettore.
Segundo Ciro, Barmack — que mais tarde se tornaria um artista plástico reconhecido — foi responsável por dar nome à canção. O próprio Julio Ettore confirma: "Foi da cabeça dele que saiu a palavra ‘Sonífera’. Depois, cada um foi colocando uma palavra ou frase. E pronto: música feita."
Curiosamente, "Sonífera Ilha" foi inspirada por uma faixa do Rei Roberto Carlos. A referência? "Quero que vá tudo pro inferno", clássico de 1965. "Talvez não exista tanta semelhança entre as músicas", reconhece Ettore, "mas o espírito de misturar irreverência e melodia pop estava ali."
O plano original dos Titãs era oferecer a canção para o cantor Jessé, vencedor do festival MPB Shell de 1980 com Porto Solidão. "Claro que a ideia não sobreviveu à ressaca", brinca Ettore. Jessé nunca chegou a ouvir a música.
As dificuldades no caminho
Em 1983, os Titãs começaram a gravar demos para tentar contrato com uma gravadora. A primeira a ouvir Sonífera Ilha foi a EMI, que rejeitou a música com frieza: "Não tem gancho, não tem como fazer sucesso", teria dito um executivo.
O nome da banda ainda era Titãs do Iê, em referência ao iê-iê-iê dos anos 60. "Mas ninguém falava o nome certo, aí eles resolveram cortar o 'do Iê' de vez", relata Julio. Ciro Pessoa deixou o grupo pouco antes da gravação do disco. Ele queria uma sonoridade mais pós-punk e não se dava bem com o baterista André Jung. "Ou André ou eu", chegou a dizer. Acabou derrotado e saiu para montar o Cabine C.
O produtor Pena Schmidt, figura-chave na descoberta da banda, conseguiu convencer a gravadora WEA a gravar um LP, não um compacto, como era comum na época. Havia uma condição: achar o estúdio mais barato de São Paulo.
Encontraram o Áudio Patrulha, com apenas 15 metros quadrados. "Era um estúdio de jingles, onde se gravavam comerciais da Ortopé e do Nescau. Não tinha nem amplificador — as guitarras foram ligadas direto na mesa", conta Ettore.
A bateria foi outro problema. O arranjo de André Jung não agradou, e os colegas criaram uma batida no teclado e pediram que ele só a repetisse. "Era tudo muito amador. Mas mesmo assim, Sonífera ficou com um molho, um algo a mais", avalia o youtuber.
O sucesso de "Sonífera Ilha"
A escolha do primeiro single ficou a cargo da gravadora, que lançou Sonífera Ilha e Toda Cor juntas, em um disco promocional para as rádios. O locutor Beto Rivera, da Jovem Pan, se encantou por Sonífera Ilha, mas precisava da autorização do diretor da rádio, Tutinha, que estava viajando. Tocou mesmo assim.
"Ele anunciou como uma música com guitarra estilo Mark Knopfler, do Dire Straits", relata Ettore. Por coincidência, Fromer e Bellotto ouviram a estreia da música no rádio enquanto tomavam chope no Bar Muntain. Correram para o orelhão e espalharam a notícia: "Estamos no rádio!" O sucesso foi imediato. Ouvintes pediam a música do "radinho de pilha", e outras rádios passaram a tocá-la. Em agosto de 1984, o LP chegou às lojas com a música estourada.
Com a fama repentina, os Titãs passaram a ser convidados para os principais programas de TV. Estiveram no Raul Gil, Bolinha, Hebe, e no Chacrinha, onde fizeram a primeira apresentação com uma coreografia ensaiada por quatro semanas. A ideia veio da esposa de Paulo Miklos, Raquel, que trouxe uma coreógrafa amiga para ajudar. "Aparecer na Globo com roupas coloridas e uma coreografia ousada foi o que os transformou em sensação", diz Ettore.
Apesar do sucesso nas rádios, o LP Titãs não vendeu muito. O segundo álbum, Televisão, também teve desempenho modesto. A consagração definitiva viria com Cabeça Dinossauro, em 1986.
Ciro Pessoa, coautor de Sonífera Ilha, lançou um disco com o Cabine C em 1987, mas o projeto não vingou. Ele seguiu compondo, mas faleceu em 2020, vítima da Covid-19, enquanto tratava um câncer.
O que é a "Sonífera Ilha"?
Há quem diga que a "ilha sonífera" seria a Ilha de Urubuqueçaba, em Santos, acessível a pé na maré baixa. Ciro teria passado férias na região, mas não há confirmação oficial. "No fim, a ilha pode ser imaginária — o que combina bem com uma música feita num porre coletivo e que não faz sentido nenhum", conclui Ettore.
Mesmo com o passar dos anos, Sonífera Ilha permaneceu no repertório da banda, ganhou versões, entrou em coletâneas e sobreviveu à saída de diversos integrantes. Uma música feita "sem querer", mas que rendeu — e continua rendendo — muita grana.
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