The Wall: o filme que complementa o álbum
Por Alexandre Caetano
Fonte: Artigos sobre filmes
Postado em 24 de abril de 2012
Don't be surprised, when a crack in the ice
Appears under your feet
You slip out of your depth and out of your mind
With your fear flowing out behind you
As you claw the thin ice
The Wall, da banda Pink Floyd, poderia ser apenas um álbum bastante intimista, já que Roger Waters, seu idealizador e principal compositor, expõem ao longo da obra muitos de seus traumas e medos acumulados desde a infância, que culminam em um músico que, apesar de bem sucedido, continuava enclausurado pelo muro que construiu pouco a pouco na tentativa de se afastar do sentimento de inadequação frente à sociedade. Entretanto a genialidade do quarteto britânico permitiu a produção de um dos discos mais vendidos da história, dando base para concretizar a ideia da produção de um longa-metragem, que mais parece uma aula de história e vai dos aspectos mais gerais aos sentimentos mais particulares.
Várias histórias permeiam a produção do filme, desde desistências até brigas e desapontamentos. O fato é que o resultado final traz o roteiro de Roger Waters dirigido por Alan Parker, com o protagonista Pink vivido por Bob Gedolf. O próprio Waters gostaria de atuar no papel principal, mas, sem querer questionar seu potencial artístico, dificilmente sua atuação seria tão primorosa, com as expressões de desespero e a cara de demência de Gedolf em "Nobody home". O resultado de todos esses talentos é um filme que há trinta anos reúne fãs, não apenas pela qualidade técnica ou pela presença das músicas mais que consagradas, mas principalmente pelo sentimento bastante atual que a obra ainda transmite.
Os pais de Pink formam os primeiros tijolos de seu muro. A ausência da figura paterna devido à morte do pai na Segunda Guerra soma-se ao amor incondicional e egoísta da mãe que, mesmo com a melhor das intenções, acaba não preparando o filho para os percalços da vida. Ainda que com agentes diferentes, este cenário familiar é bastante comum, principalmente a ideia de pais superprotetores que não percebem os problemas do excesso.
Com os alicerces do muro já preparados, Pink vê na escola mais uma instituição castradora, inibindo sonhos e projetos. O professor imerso em problemas pessoais parece encontrar em suas aulas sádicas a redenção de seus próprios sentimentos. Sob um ponto de vista mais abrangente, a escola é uma das principais formas de massificar os alunos, padronizando comportamentos e hostilizando diferenças. Estes talvez sejam os tijolos mais imutáveis desde a época retratada no filme. A frustração do personagem encontra cúmplices em qualquer escola, em qualquer período histórico que seja analisado, em qualquer série da formação escolar.
A despeito das dificuldades, Pink chega à vida adulta e se torna um astro do rock. Resta a dúvida se ele realmente superou os traumas ou o gelo fino da normalidade pode quebrar a qualquer momento. O que parecia ser o início de uma superação é para o protagonista a confirmação do isolamento. A tentativa de um romance esbarra na complexa relação inconsciente com a mãe superprotetora e a famosa metáfora sexual das animações com flores indica como o complexado protagonista encontra mais material para seu muro com a rejeição da esposa.
Permeando a família, a escola e a fama, temos o estado totalitário impondo políticas e sufocando os indivíduos de diversas formas. Não é necessária uma guerra propriamente dita para tais absurdos. A águia alemã que rasga a terra em "Goodbye blue sky" não é outra senão o imperialismo, não necessariamente nazista, que constrói muros para destruir crenças e sonhos individuais, massificando desde os judeus rumo ao campo de concentração, até crianças na escola conforme a sequência de "Happiest days of our lives".
Sem o refúgio da família, sem muitas referências externas e bombardeado pelo ritmo frenético de trabalhar ininterruptamente para poder consumir, Pink se vê sufocado e tenta encontrar seu lugar na sociedade. Em meio à juventude que, sem dinheiro para o consumo, mas seduzida pelo estilo de vida consumista, saqueia lojas, ou que resolve se entregar à luxúria Pink só consegue reviver os traumas do passado, o isolamento e a rejeição.
Aqui cabe o grande ponto da depressão, retratada com maestria no filme. Nesta fase de sua vida Pink não tinha grandes problemas aparentes. Vivia em um apartamento gigante, com uma linda garota, uma banda de sucesso e todas as condições para desfrutar a vida. Se os problemas fossem evidentes e notórios ele estaria simplesmente triste, porém as cicatrizes invisíveis de ferimentos profundos são as responsáveis pela apatia tão incompreendida, seja no personagem ou em tantas pessoas reais, que por uma conjunção de fatores não conseguem se livrar de seus traumas. Haja tijolos para tantos muros.
Cada vez mais enclausurado e introspectivo, as memórias de Pink não são nada animadoras, culminando em um estado que beira a demência. Seria impossível romper o muro sem ajuda, mas em meio a novas rejeições o artista é resgatado pelos 'vermes' para viver o outro lado da moeda e passa a impor as mesmas hostilidades sofridas ao longo de sua vida. A mesma dureza apresentada em "What shall we do now", o mesmo sufoco é mostrado em "Waiting for the worms", mas ao invés do consumo é a ideologia imposta que massacra, que impede a vida. Tanto o consumismo quanto o autoritarismo levam a exaustão e esgotam suas forças escassas.
Com os principais pilares de sua vida minados ao longo do filme resta a dúvida: vale a pena destruir o muro construído ao longo da vida, ou encarar a sociedade que forneceu cada tijolo seria uma condenação? Evidentemente o mundo atual é diferente do pós-guerra que inspirou diretamente o filme, mas ainda tem fortes raízes neste período da história e as semelhanças continuam a gerar traumas pessoais muito condizentes com os retratados por Roger Waters. Em uma sociedade que cobra o hedonismo ilimitado sem oferecer muitos elementos para isso, The Wall se mantém imprescindível. A obra ensina, perturba e instiga a mobilização contra tantos absurdos aos quais somos submetidos.
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