Sepultura: a síntese perfeita entre o velho e o novo
Resenha - Quadra - Sepultura
Por Ramon Cardinali de Fernandes
Postado em 10 de fevereiro de 2020
Nota: 9 ![]()
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Para aqueles que acompanham a carreira do SEPULTURA pós-Max Cavalera, era nítida a trajetória ascendente da banda desde 2011, com o lançamento de "Kairos". O último álbum, "Machine Messiah" (2017) foi considerado por muitos o melhor disco da fase Derrick. E com razão, ao meu ver. O lançamento de "Quadra" (2020) só reforça a sensação de que o processo de evolução da banda ainda não chegou ao fim. "Quadra" chega para roubar o posto de "o melhor disco da fase Derrick". E se deixarmos de lado as amarras da nostalgia, "Quadra" pode figurar ao lado de clássicos da banda, como "Arise" (1991) e "Chaos A.D." (1993).
O novo disco é uma espécie de síntese entre a sonoridade moderna da banda (consolidada no "Machine Messiah"), e o que havia de melhor na fase clássica da banda (1987–1993). Em "Quadra" estão presentes tanto o thrash/death de "Schizophrenia" (1987), "Beneath the Remains" (1989) e "Arise" quanto o groove de "Chaos A.D.". Mas aqui, todas influências clássicas são ressignificadas e apresentadas numa estética mais moderna, com mais dinâmica e complexidade do que nunca.
Talvez a música que melhor represente esse encontro entre o velho e o novo é a abertura do disco: "Isolation". Não por acaso foi ela a escolhida para ser o primeiro single (e videoclipe) de "Quadra". "Isolation" é uma faixa de absoluto destaque, capaz de captar a atenção do ouvinte logo de cara — mesmo do ouvinte mais cético sobre a capacidade da atual formação do Sepultura.
O álbum segue com diversos destaques. Em termos de riffs, "Quadra" está extremamente bem servido. Para mim, "Means to an End" é um destaque nesse sentido. A faixa é uma sequência brilhante de riffs brutais. Outros destaques nesse quesito são faixas como "Ali", "Capital Enslavement" e a instrumental "The Pentagram" (o título dessa última sendo, provavelmente, um trocadilho com o fato da música ser toda em 5/4). Há grande diversidade estilística nos riffs: ora mais groovados, num estilo "Chaos A.D." e "Roots" (1996), ora mais thashs, ora mais deaths e ora mais progs (me vem à mente possíveis influências de bandas modernas do prog metal como GOJIRA, MASTODON e OPETH). Mas é claro que nem só de riffs se vive a humanidade: "Quadra" também está repleto de solos de guitarra — os melhores, pelo menos, desde "Arise". Reproduzir todos esses riffs e solos de guitarra nos shows será um delicioso problema.
No departamento de vocais, estamos diante da melhor performance de Derrick Green até hoje. Isso deve, em grande medida, ao produtor sueco Jens Bogren. Nos bastidores da gravação do disco, em cenas divulgadas pela banda em seu canal oficial do YouTube, é notável o quanto o produtor exigiu do vocalista, em termos de ousadia e superação técnica. No refrão da música "Raging Void" há, por exemplo, o uso de belíssimas harmonizações nos vocais — algo raríssimo na discografia do SEPULTURA até então. Os vocais mais limpos de Derrick, que já apareceram em trabalhos anteriores, estão melhores do que nunca em músicas como "Guardians of Earth" e "Agony of Defeat" (essas duas, inclusive, entram para meu rol pessoal de melhores músicas do SEPULTURA). Há inclusive um dueto entre Derrick e Emmily Barreto, vocalista da banda FAR FROM ALASKA, na última faixa, "Fear, Pain, Chaos, Suffering". Todas as novidades dos vocais acrescentam ainda tempero melódico e dinâmico às composições.
Na bateria, é desnecessário elogiar a criatividade e técnica de Eloy Casagrande. Mas como baterista amador que sou, faço questão de chover nesse molhado. Todas as músicas (com exceção da instrumental acústica, "Quadra") são um show à parte de Eloy. Sua entrada no Sepultura foi fundamental para a consolidação dessa nova fase de ouro da banda. Parece que a chegada de um músico tão técnico como Eloy forçou os antigos integrantes da banda a "correrem atrás" do jovem baterista. Já ouvi e li várias vezes comentários como "Eloy merecia uma banda mais técnica que o SEPULTURA…". Pois bem! A chegada de Eloy, em 2012, colocou em marcha um processo à parte de evolução técnica de Derrick e Andreas que culmina agora no "Quadra" — o disco mais complexo (tecnicamente falando) na história do SEPULTURA. "Machine Messiah", o álbum anterior, já sinalizava isso. Mas agora a evolução é definitiva.
Ainda nesse sentido, uma segunda contribuição de Eloy ao SEPULTURA é que, aliada a sua técnica apurada, o baterista entrega também bastante criatividade e versatilidade. Eloy assumiu uma tarefa que, desde a saída de Max, cabia quase que exclusivamente à Andreas: a tarefa de compor. Desde o álbum anterior já ficava claro um flerte com gêneros até então pouco familiares à banda, como o já mencionado prog metal, por exemplo. Isso é sem dúvidas um sinal da influência de Eloy nas composições. Sua participação ativa no processo criativo expandiu, e muito, os horizontes artísticos da banda — ainda que com um respeito à identidade musical que foi construída pelo SEPULTURA ao longo dos anos.
Pela primeira vez, portanto, as performances de Andreas e Derrick estão tecnicamente à altura da bateria de Eloy. Nesse contexto, talvez o único ponto fraco do disco seja as linhas de baixo de Paulo Xisto, que continuam tão discretas como sempre. É uma pena pois a sensação é de que, em vários momentos do disco, a complexidade das composições pedissem mais do baixo. Mas Paulo não entrega. De qualquer modo, o baixista terá que suar bastante a camisa para acompanhar o ritmo de seus companheiros executando as novas músicas nos palcos.
Por fim, "Quadra" é um disco que força até o maior dos saudosistas da era Max Cavalera à reconhecer sua qualidade. Mesmo após o excelente "Machine Messiah", a banda segue sua evolução e consegue entregar um álbum ainda melhor e mais maduro. Repleto de riffs de qualidade, solos, criatividade rítmica, belos momentos acústicos e bastante dinâmica, considero que estamos diante de uns melhores álbuns da história da banda. É a síntese perfeita entre o velho e o novo.
1. Isolation - 00:04:56
2. Means To An End - 00:04:39
3. Last Time - 00:04:27
4. Capital Enslavement - 00:03:40
5. Ali - 00:04:12
6. Raging Void - 00:03:57
7. Guardians Of Earth - 00:05:11
8. The Pentagram - 00:05:20
9. Autem - 00:04:06
10. Quadra - 00:00:46
11. Agony Of Defeat - 00:05:51
12. Fear; Pain; Chaos; Suffering - 00:04:09
Meus destaques pessoais: "Isolation", "Guardians of Earth" e "Agony of Defeat"
Rogerio Antonio dos Anjos | Luis Alberto Braga Rodrigues | Efrem Maranhao Filho | Geraldo Fonseca | Gustavo Anunciação Lenza | Richard Malheiros | Vinicius Maciel | Adriano Lourenço Barbosa | Airton Lopes | Alexandre Faria Abelleira | Alexandre Sampaio | André Frederico | Ary César Coelho Luz Silva | Assuires Vieira da Silva Junior | Bergrock Ferreira | Bruno Franca Passamani | Caio Livio de Lacerda Augusto | Carlos Alexandre da Silva Neto | Carlos Gomes Cabral | Cesar Tadeu Lopes | Cláudia Falci | Danilo Melo | Dymm Productions and Management | Eudes Limeira | Fabiano Forte Martins Cordeiro | Fabio Henrique Lopes Collet e Silva | Filipe Matzembacher | Flávio dos Santos Cardoso | Frederico Holanda | Gabriel Fenili | George Morcerf | Henrique Haag Ribacki | Jorge Alexandre Nogueira Santos | Jose Patrick de Souza | João Alexandre Dantas | João Orlando Arantes Santana | Leonardo Felipe Amorim | Marcello da Silva Azevedo | Marcelo Franklin da Silva | Marcio Augusto Von Kriiger Santos | Marcos Donizeti Dos Santos | Marcus Vieira | Mauricio Nuno Santos | Maurício Gioachini | Odair de Abreu Lima | Pedro Fortunato | Rafael Wambier Dos Santos | Regina Laura Pinheiro | Ricardo Cunha | Sergio Luis Anaga | Silvia Gomes de Lima | Thiago Cardim | Tiago Andrade | Victor Adriel | Victor Jose Camara | Vinicius Valter de Lemos | Walter Armellei Junior | Williams Ricardo Almeida de Oliveira | Yria Freitas Tandel |
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