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Angra: com Holy Land, uma mudança de paradigma para o metal nacional

Resenha - Holy Land - Angra

Por Ricardo Pagliaro Thomaz
Postado em 11 de julho de 2019

Nota: 10

O segundo álbum do Angra, Holy Land, representou uma verdadeira mudança de paradigma para todo o universo do metal nacional. Na verdade, o disco ficou sendo tão único, que ninguém até hoje ousou fazer algo que chegasse próximo de sua proposta, e por essa razão ele é uma verdadeira obra-prima do metal nacional.

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Estamos falando de uma banda pungente de ideias, cheia de criatividade na época, e com a claríssima intenção de impressionar, de ousar, de ir além do esperado. O Angra tinha obtido grande êxito no lançamento de sua estreia, Angels Cry, e pretendiam pavimentar caminho para conseguirem o respeito que a banda detém ainda hoje.

Então, sim, existem álbuns maravilhosos que o grupo escreveu após a saída de Matos da banda, mas toda fundação que foi estabelecida para que esses futuros trabalhos acontecessem foi construída aqui, nesta primera fase. Justamente por esta razão que eu considero este o melhor disco do Angra nesta fase inicial, muito embora ele não tenha o hino máximo do grupo.

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Eu descobri este disco mais tarde, uns dois anos depois do lançamento dele, através de um amigo que eu conhecia, e foi ele que me apresentou ao Angra. Na época, o foco era o Fireworks, mas eu fui retroagindo na discografia do grupo e descobrindo os outros trabalhos que eu não conhecia, e o que sempre me chamou mais a atenção foi este aqui, porque eu lia as revistas da Cover Guitarra e estava aprendendo a tocar, e constantemente eu via umas notas do Kiko Loureiro na revista ensinando a tocar "Nothing to Say", e queria aprender.

Eu estava naquela fase meio 'shredder', queria aprender a tocar guitarra rápido, e admirava muito guitarristas como Steve Vai e Joe Satriani, sem nem saber que aqui no Brasil haviam nomes como Marcos De Ros, Frank Solari, Edu Ardanuy e Kiko Loureiro se destacando. Naqueles dias não havia internet ou redes sociais, e demorava mais pra gente sacar essas coisas, mas não demorou muito para eu ir me apegando ao som do Angra através do disco Fireworks, e deste aqui, o Holy Land.

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O disco é uma obra conceitual, só pra começo de conversa. Eu tenho o disquinho original na minha estante, e quando você abre a caixinha do CD, você retira a capa da frente dele, e ela se abre em um grande mapa-mundi antigo do séc. XIV. É uma coisa linda, muito bem produzida, mas se você for atrás de Spotify ou YouTube, não vai ver nada disso amigo, o que pra mim tira um pouco a beleza da coisa. A história é sobre o descobrimento do Brasil, e as grandes navegações portuguesas que levaram a esse feito. Ela ainda narra a vida no Brasil antes e depois dos portugueses chegarem em nossas terras e se estabelecerem.

Vamos falar dessa sonoridade que impressiona imensamente: estou me referindo às misturas musicais que o disco tem. Em nenhuma outra ocasião você conseguirá ver uma mistura tão coerente e bem arranjada de metal, música brasileira dos gêneros afoxé, baião e berimbau, e ainda música clássica. É um verdadeiro prodígio e uma jóia!

A faixa de abertura "Crossing" inicia a jornada com um belíssimo número de coral erudito simbolizando a Europa, que já emenda com a sensacional "Nothing to Say", que eu sempre entendo como um barco português iniciando a sua navegação em busca de novas terras. Depois vem uma das minhas grandes favoritas do disco, que é a sublime "Silence and Distance", e sua letra magnífica refletindo sobre a solidão do mar e a expectativa do desconhecido. Você é tragado para dentro daquilo, e então o show de metal com música brasileira começa, envolvendo até mesmo viradas de ritmo de Rock Progressivo.

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Aqui está então outra jóia do disco, "Carolina IV"; ela inicia com uma batida tribal estilo olodum, passa para Rock, Metal, tem um trecho que referencia claramente Hermeto Paschoal, quem já ouviu "Bebe", vai reconhecer; enfim, ainda navega pela música erudita, tem variações progressivas, e termina de forma épica, enquanto narra em sua letra a história de um grupo em uma embarcação que não chegou a seu destino. A letra do backing vocal em português é curiosa também, uma vez que referencia a cultura indígena da época.

As referências à música brasileira continuam na sequência em faixas como "The Shaman" e os ritmos de berimbau de "Holy Land", acompanhados pelo lindo acompanhamento de flauta transversal; quem quiser uma referência desses gêneros brasileiros de "Holy Land", eu recomendo a obra de Baden Powell e Vinícius de Morais no disco Os Afro Sambas, e lá você poderá ouvir a composição "Berimbau", escute-a, porque ela é minha primeira referência quando ouço essa faixa do Angra.

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Saindo um pouco das referências brasileiras, temos a linda balada "Make Believe", que virou single e vídeo clipe na época, e é uma das músicas mais conhecidas e representativas dessa fase do Angra, e outro grande destaque deste maravilhoso disco é a porrada "Z.I.T.O.", que por muitos anos o guitarrista Rafael Bittencourt ocultou de todos o significado do nome, vindo a revelá-lo recentemente numa entrevista para o site Heavy Talk, onde ele conta uns 'causos' bem curiosos e divertidos. A letra em si tem a ver com essas descrições, uma vez que fala sobre descobertas. O final do disco termina com o devido destaque a André Matos, que nos surpreende com suas performances intimistas em "Deep Blue" e na acústica "Lullaby for Lucifer", fechando uma obra sensacional.

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É um disco absolutamente obrigatório que você escute, tenha a certeza, você não vai achar nada parecido em toda discografia de metal seja aqui no Brasil, ou lá fora. É uma obra única. Eu sei que tem outras obras de metal que misturam estilos, inclusive misturam música brasileira, mas não da mesma forma que este disco aqui se apresenta! É um disco totalmente recomendado que você escute para testemunhar como que, uma vez na história, cabeças iluminadas se reuniram para criar uma das maiores gemas musicais que nosso país pode se orgulhar. Com certeza, esta é uma obra que André Matos gostaria que as pessoas usassem para se lembrarem dele.

Holy Land (1996)
(Angra)

Tracklist:
01. Crossing
02. Nothing to Say
03. Silence and Distance
04. Carolina IV
05. Holy Land
06. The Shaman
07. Make Believe
08. Z.I.T.O.
09. Deep Blue
10. Lullaby for Lucifer

Japanese bonus track:
11. Queen of the Night

Selos: JVC / Paradox Music

Angra é:
André Matos: voz, piano, orquestrações, órgão e teclados
Kiko Loureiro: guitarra, back vocal, percussão (05)
Rafael Bittencourt: guitarra, back vocal, percussão (05)
Luís Mariutti: baixo
Ricardo Confessori: bateria, percussão (05)

Participações especiais:
Mônica Thiele: voz alto
Celeste Gattai: voz soprano
Reginaldo Gomes: voz baixo
Naomi Munakata: condutora
Grupo vocal Farrambamba: coral
Sascha Paeth: programação e arranjos orquestrais
Paulo Bento: flauta
Pixu Flores: berimbau
Ricardo Kubala: viola
Castora: apito, tamborim e percussão
Holger Stonjek: baixo duplo

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Discografia anterior:
- Angels Cry (1993)

Site oficial:
http://www.angra.net

Para mais informações sobre música, filmes, HQs, livros, games e um monte de tralhas, acesse também meu blog.

http://acienciadaopiniao.blogspot.com.br

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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.
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