Andre Matos: a obra-prima do Angra e o seu testamento musical
Resenha - Holy Land - Angra
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 17 de junho de 2019
A morte de Andre Matos teve um impacto gigantesco no heavy metal nacional. Repentina e inesperada, sua perda ainda não foi dimensionada, apesar da enorme dor que causou em fãs, amigos, colegas e todos que tiveram contato com a sua obra em mais de trinta anos de carreira. E a maior obra-prima de toda essa trajetória, aclamada em consenso tanto pelo público como pela crítica, é Holy Land.
Angra - Mais Novidades
Segundo álbum do Angra, Holy Land foi lançado em 23 de março de 1996 e sucedeu Angels Cry (1993), a igualmente ótima estreia da banda. Os dois discos são bastante distintos entre si. Enquanto o debut apresentou um metal melódico alinhado à escola alemã e influenciado tanto pelo Helloween quanto pelo Iron Maiden, em Holy Land o Angra entrou de cabeça na música brasileira, trabalhando um álbum conceitual que discorre sobre o Brasil de 1500, ano em que o país foi descoberto pelos portugueses. Tanto as letras como as músicas seguem essa abordagem, trazendo para o heavy metal elementos da rica musicalidade brasileira. E o Angra faz isso de uma maneira mais profunda e erudita que outra banda contemporânea e conterrânea, o Sepultura, fez naquele mesmo ano no igualmente clássico Roots. Os discos tiveram um intervalo de um mês entre seus lançamentos, mostrando que ambas os grupos estavam alinhados, mesmo que inconscientemente.
A principal diferença entre Holy Land e Roots vem do background dos músicos. Enquanto os irmãos Cavalera construíram sua carreira dentro de gêneros mais extremos como death e thrash metal, os músicos do Angra vieram de conservatórios e escolas de música e eram influenciados pelo lado mais erudito do metal, além de trazerem também aspectos de gêneros mais complexos como o prog e o jazz. Mas havia um fator determinante nessa mistura toda, e ele era Andre Matos. Desde cedo, o vocalista sempre dividiu a paixão pelo heavy metal em pé de igualdade com o amor pela música clássica. Os álbuns com o Viper – Soldiers of Sunrise (1987) e Theatre of Fate (1989) – já mostravam isso, mas foi no Angra que Andre intensificou essa união entre os dois gêneros.
Para compor o álbum, o Angra se mudou durante quatro meses para um sítio no interior de São Paulo, onde o clima bucólico e calmo, em contraste com a correria predominante em uma metrópole como a capital paulista, cidade natal do quinteto, proporcionou um contato mais intenso não apenas com a natureza do local, mas com as próprias raízes histórias que todos nós, brasileiros, compartilhamos. A abertura de Holy Land é um exemplo dessa atmosfera e do encontro entre o erudito e o popular, apresentando em "Crossing" uma missa concebida pelo compositor renascentista italiano Giovanni Pierluigi da Palestrina, que viveu entre 1525 e 1594 e exerceu enorme ascendência sobre como a música sacra foi desenvolvida pela Igreja Católica.
Esse início com "Crossing" revela as intenções do Angra em Holy Land. "Nothing to Say", que vem a seguir, é ao lado de "Z.I.T.O." a única faixa a conversar de maneira mais harmônica com Angels Cry. Ambas são power metal com doses elevadas de melodia, sendo que "Nothing to Say" traz ainda batidas de samba em seu trecho inicial. Um dos maiores clássicos do Angra, presença obrigatória em shows tanto da banda quanto dos projetos futuros de Andre. Aqui já se percebem as melodias inspiradas na música brasileira, que ficam claras no trecho central, cujo andamento quebrado e os elementos eruditos mostram o nível técnico absurdo que a banda vivia na época.
Uma característica forte em Holy Land é a alternância de climas. São frequentes as introduções, as passagens e as composições mais calmas, todas elas tendo como protagonista Andre Matos e seu piano. O trecho inicial de "Silence and Distance" revela uma melodia que vai se desdobrando de maneira ascendente até desembocar em uma composição mid-tempo e que traz o Angra explorando um caminho até então inédito em sua carreira. A ponte antes do refrão, com uma melodia vocal inspiradíssima, e os solos entregues por Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt são um dos um dos grandes momentos do disco.
A principal tour de force de Holy Land vem a seguir, nos mais de dez minutos de "Carolina IV". Desde a primeira vez que ouvi, ela se tornou uma das minhas favoritas do universo musical da banda. "Carolina IV" talvez seja o principal exemplo da musicalidade da formação clássica do Angra, transitando de maneira absolutamente brilhante pelo metal, música clássica, latina, brasileira e africana, além de conter lindos coros que saúdam a deusa Iemanjá em sua parte inicial e arrepiantes arranjos vocais em todo o seu desenvolvimento. Outro ponto lindo é a citação à "Bebê", composição do genial Hermeto Pascoal, aqui reinterpretada pelo quinteto. O longo trecho instrumental na parte central é não menos que sensacional, unindo diversos gêneros musicais e soando como uma espécie de metáfora sonora das múltiplas raízes que construíram não apenas a música brasileira, mas também a cultura do nosso país e a nossa identidade como seres humanos.
A canção que batiza o disco é outro dos pontos altos. Iniciando com uma melodia tradicional das rodas de capoeira interpretada por Andre no piano, evolui calmamente sobre uma base farta de instrumentos característicos da música brasileira como percussão, berimbau, flauta e outros. A parte inicial conta com uma das interpretações vocais mais incríveis de Andre Matos, com um timbre ligeiramente diferente do tradicional. As linhas vocais conduzem a melodia, que explode com o peso das guitarras, mas jamais deixa de lado a sonoridade fortemente inspirada pela música brasileira. Uma aula de composição, onde novamente se percebem citações à clássicos nacionais e que é uma das maiores criações do Angra e de Matos.
O disco segue com "The Shaman", música de onde Andre, Luis Mariutti e Ricardo Confessori tiraram o nome da banda que montariam após deixar o Angra, em 2000. As harmonias são destaque, junto com a percussão e o piano, que conduzem a faixa. O trecho central conta com uma espécie de interlúdio que caminha pela world music e traz falas em dialetos indígenas, além de um arranjo que intensifica o clima tribal.
A balada "Make Believe" foi um dos maiores hits do disco, e se transformou, com o passar dos anos, em um dos grandes clássicos do Angra. Não à toa, foi tocada por Rafael Bittencourt em frente aos fãs no dia da morte de Andre Matos, em uma elegia arrepiante para o vocalista. Belíssima, a música é um dos exemplos da marcante musicalidade da banda e da capacidade dos músicos em transitar por sonoridades variadas, seja o mais puro e acelerado power metal ou a mais doce canção de amor.
E é justamente o power metal na mais clássica acepção do termo que o Angra apresenta a seguir com "Z.I.T.O.". Música feita sob medida para os fãs do primeiro disco – cujo título é inclusive citado na letra -, trata-se de uma composição repleta de energia e melodia, além de linhas vocais pra lá de inspiradas e um refrão grudento. Mesmo com o pé no fundo o Angra conseguiu entregar doses incríveis de emoção, aspecto esse que ficou ainda mais evidente após a partida de Andre. Os solos são outro ponto alto, com Kiko e Rafael mostrando o entrosamento quase celestial que sempre tiveram.
A atmosfera luz e sombra de Holy Land é reafirmada em "Deep Blue", uma música extremamente contemplativa e onde Andre Matos mostra o quanto era um compositor acima da média. Aliás, vale citar que quatro das onze faixas do disco são músicas compostas exclusivamente pelo vocalista – além de "Deep Blue", mais "Silence and Distance", "Holy Land" e "The Shaman". Na verdade, a única a não contar com a sua participação é a acústica "Lullaby for Lucifer", criação da dupla Loureiro e Bittencourt.
Holy Land é um dos melhores trabalhos do Angra, uma banda que possui uma discografia repleta de ótimos discos. A estreia com Angels Cry (1993) alterou parâmetros no metal brasileiro e mostrou ao mundo uma banda acima da média. Rebirth (2001) deixou claro que havia vida após a partida do vocalista, baixista e baterista e é um exemplo inspirador de reconstrução. Temple of Shadows (2004) é um dos melhores álbuns de power metal de todos os tempos, e Omni (2018) demonstrou que a banda ainda tem muito a dizer. No entanto, Holy Land é o disco mais corajoso, inovador e, porque não, criativo do Angra. Um marco na história da música brasileira e um álbum sem igual no heavy metal mundial, com uma dedicação e inspiração nas composições traduzida em músicas atemporais e com uma dose enorme de originalidade. Passados mais de vinte anos de seu lançamento, continua soando atual e não envelheceu nem um pouquinho.
Aqui está a obra-prima da carreira de Andre Matos, seja com o Angra ou com todas as outras bandas com quem trabalhou. Um testamento musical impressionante e que merece ser revisitado por quem já o conhece, ou apresentado a quem nunca o ouviu.
Outras resenhas de Holy Land - Angra
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



K.K. Downing se manifesta sobre aposentadoria de Ian Hill (Judas Priest)
O maior guitarrista de todos os tempos, de acordo com a Guitar World
Led Zeppelin licencia "Stairway to Heaven" pela primeira vez na história
O hino não oficial da libertação do rock and roll para Tom Morello
"Um babaca que nem sabe tocar direito": Roger Waters fala sobre James Hetfield
O desrespeito que fez Bruce Dickinson cantar show recente do Iron Maiden do backstage
Iron Maiden adia pausa e estende turnê "Run for Your Lives" até 2027
A curiosa alfinetada de Anette Olzon no Nightwish após saída de Floor Jansen
A melhor banda de metal progressivo dos EUA e Inglaterra, segundo a Loudwire
Silas Fernandes critica fala de James Hetfield: "Era melhor ele ter ficado quieto"
Qual banda de rock e metal melhor representa cada técnico dos 20 times do Brasileirão?
As 5 melhores músicas que começam com bateria, segundo Gastão
Fãs esculacham o Metallica após discurso feito por James Hetfield em show
A única característica que Dave Mustaine não suportava em Cliff Burton
Smashing Pumpkins lança "Black Stars", primeira parceria com Butch Vig em 33 anos


A melhor banda brasileira de prog metal segundo o Loudwire
Angra realizará primeiro show da carreira na Finlândia
Fabio Lione debocha de fala de Felipe Andreoli: "Inventaram hiato para eu sair do Angra?"
A opinião de Marcelo Barbosa sobre o Angra que chocou Andre Matos: "No Brasil, só você"
Por que hiato do Angra não foi pretexto para tirar Fabio Lione, segundo Felipe Andreoli
Os bastidores da saída de Fabio Lione do Angra, segundo Marcelo Barbosa
Os 4 pilares do Angra que IA precisaria entender pra compor igual, segundo Marcelo Barbosa
A lenda nordestina que é o Van Halen brasileiro, segundo Rafael Bittencourt
Kiko Loureiro respeita muito Tony Iommi, mas acha que guitarrista do Black Sabbath é "quadrado"
De Black Sabbath a Elis Regina, os 10 discos que mudaram a vida de Kiko Loureiro
Alice In Chains: Sete músicas, que podem mudar a vida de uma pessoa


