Dream Theater: Distance over Time é o melhor da era Mangini
Resenha - Distance Over Time - Dream Theater
Por Victor de Andrade Lopes
Fonte: Sinfonia de Ideias
Postado em 02 de março de 2019
Nota: 9 ![]()
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Tão logo o quinteto estadunidense de metal progressivo Dream Theater divulgou a lista de faixas de seu décimo quarto álbum, os fã-niquitos logo deram chilique pela ausência de alguma que tivesse mais de 10 minutos de duração. É mole? Isso sem falar no fato de que a troca de bateristas pela qual a banda passou há quase dez anos deu origem à maior proliferação de especialistas on-line em bateria da história.
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Mas vamos falar da música, que é o que importa. Conforme eu previ em minha resenha para o simpático The Astonishing (publicada aqui no Whiplash), Distance over Time continua de onde Dream Theater (o álbum; resenha também disponível no Whiplash) parou, fortalecendo ainda mais o jeitão de projeto paralelo da metal opera deles.
Este disco foi concebido num processo análogo ao do Train of Thought (2003), ou seja, foi escrito e gravado num espaço relativamente curto de tempo, com o detalhe ainda de que os membros se isolaram num casarão no interior do estado de Nova York para criá-lo. Isso resultou num trabalho focado e coeso a ponto de eu me arriscar a dizer que se você não gostou da primeira faixa, talvez nem deva prosseguir com a audição.
Isso é um tanto raro na discografia do quinteto; seus lançamentos sempre primaram pela diversidade, grande ou pequena, mas sempre presente. Mas, como acontece na maior parte do catálogo deles, não é seguro tirar conclusões precipitadamente; com efeito, após muitas e muitas audições, você começa a descobrir o charme de cada peça, independentemente do grau de coesão que a obra possui.
A abertura "Untethered Angel", por exemplo, resgata sons que começaram a ser usados no A Dramatic Turn of Events (resenha também disponível no Whiplash), especificamente nos teclados de Jordan Rudess e nos ritmos do baixista John Myung e do baterista Mike Mangini. O grupo também prestará homenagem a si mesmo em "Barstool Warrior", que evoca aquele clima Rush que tanto marcou Dream Theater (o álbum).
Os riffs de guitarra de "Paralyzed" mostram um John Petrucci como há muito não se ouvia. Parece até algo que poderia ter sido escrito na era Mike Portnoy (ex-baterista). Já a ótima "Fall into the Light" mostra algumas facetas menos recorrentes do guitarrista e brinca com compassos ternários e quaternários na melhor escola "Killing in the Name", do Rage Against the Machine.
"Room 137", que faz uso do charmosérrimo compasso setenário, marca a estreia de Mangini como letrista e traz alguns dos momentos mais agressivos do disco, a exemplo de "Paralyzed". Ela é seguida pela estupenda "S2N", que mantém o peso e traz alguns empolgantes solos de Petrucci e Jordan.
"At Wit's End" é teoricamente a mais longa, mas ela foi na verdade esticada por meio de um outro de guitarra seguido por um encerramento acústico com jeitão de faixa escondida. Não desmerecendo essas passagens, mas suas companheiras de 6, 7 e 8 minutos é que são verdadeiramente longas. Não deixa de ser interessante, de qualquer forma, conferir a evolução da canção, que começa técnica, emenda em um momento à la "Ministry of Lost Souls" e se encerra de forma orgânica e serena. Combinar climas tão distintos de maneira que o conjunto da obra faça sentido musicalmente é algo em que muitas bandas do gênero patinam.
"Out of Reach" é o mais próximo que teremos aqui de uma balada, e não necessariamente por isso acabou sendo a mais sem graça. Mesmo assim, o posto de faixa bônus acabou ficando para "Viper King", cuja levada me causou a impressão de ser um cover, inicialmente. Antes dela, contudo, temos o encerramento real do álbum, a técnica e pesada "Pale Blue Dot", um dos destaques. Aliás, tem algum momento neste disco que não seja um destaque, tirando aquele que menciono ao abrir este parágrafo?
Alguns membros merecem comentários à parte. Jordan Rudess, ainda que retendo seus timbres característicos, adota novas variações de órgãos em seu som e deixa o seu continuum para momentos mais reservados, como os solos de "At Wit's End" e "S2N". A constante busca por novos equipamentos e sons é parte do porquê dele ser possivelmente o maior tecladista vivo, talvez superado apenas por Rick Wakeman. Além disso, conforme Petrucci explicou em vídeo de divulgação do trabalho, o tecladista foi orientado a manter seu instrumento soando em apenas um canal, ou seja, nada de camadas intermináveis de sons diversos. O resultado é um som focado e direto que encaixou como uma luva na proposta musical apresentada aqui.
John Petrucci segue um caminho parecido. Com a saída de Portnoy, ele evidentemente tomou a frente do grupo, e isso tem se traduzido em um foco sensivelmente maior nas suas guitarras e na riffagem.
Ao estrear como letrista, Mike Mangini prossegue com sua evolução, indo de um mero executor de linhas previamente escritas em A Dramatic Turn of Events para um membro devidamente integrado na linha de produção musical do Dream Theater, ainda que, como nunca me cansarei de repetir, a ausência de Portnoy seja sentida 90% devido às composições e 10% devido à bateria em si.
Se considerarmos A Dramatic Turn of Events como um trabalho de transição e The Astonishing como uma aventura, e se reiterarmos que Distance over Time é a evolução de Dream Theater, podemos concluir seguramente que este é o melhor disco da era Mangini.
Abaixo, o vídeo de "Untethered Angel":
Track-list:
1. "Untethered Angel"
2. "Paralyzed"
3. "Fall into the Light"
4. "Barstool Warrior"
5. "Room 137"
6. "S2N"
7. "At Wit's End"
8. "Out or Reach"
9. "Pale Blue Dot"
10. "Viper King" (faixa bônus)
Fonte: Sinfonia de Ideias
http://bit.ly/distanceovertime
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