Alice Cooper: Descendo ao inferno com o "Goes To Hell"

Resenha - Goes To Hell - Alice Cooper

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Por Neimar Secco
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Depois do mega sucesso do projeto WELCOME TO MY NIGHTMARE, Alice Cooper lança a segunda parte da saga de Steven que, involuntariamente, marca o início de uma literal descida ao seu inferno particular.
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Aparentemente tudo estava indo muito bem para Alice Cooper em 1976. Seu multiplatinado primeiro álbum solo lançado no início de 1975 foi sua maior vendagem até então. A tour que o promovia, com o show mais produzido e coreografado de Alice Cooper ate então, foi muito bem sucedida com várias arenas lotadas. Alice Cooper estava literalmente no auge profissional.

Mas que ninguém perguntasse a seu fígado e seu estado de saúde geral como era ser a parte invisível (mas nem tão imperceptível assim) de Alice Cooper, que literalmente vomitava sangue devido a seus excessos alcoólicos.

Alice Cooper Goes To Hell foi lançado em junho de 1976. Em princípio foi programada uma tour com um show tão ou mais produzido que o do álbum anterior em que o palco seria caracterizado como uma discoteque “ambientada” no inferno. Alice demonstraria sua repulsa ao gênero musical dominante na época, principalmente nos EUA.

O projeto foi abortado devido ao estado de saúde de Alice. Porém ele fez ainda algumas aparições em shows de TV e em premiações como “host” e assim, manteve sua imagem em grande evidência. I Never Cry, que não é uma balada romântica, mas sim uma confissão do alcoolismo que o deprimia e dominava foi um enorme hit, que chegou a ser o single de maior vendagem da Warner Bros. Mas não deixava de ser paradoxal que essa balada fosse o grande sucesso do vilão do rock na época.

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Alice Cooper Goes To Hell abre com “Go To Hell”, a faixa título em que um “júri” proclama a pena de Alice por todos os seus atos criminosos, seus abusos alcoólicos e sua conduta nada “politicamente correta”. Uma das músicas autobiográficas de Alice, que marcaram esse período de sua vida e carreira. Destaque para o arranjo “progressivo” com a guitarra soturna de Dick Wagner, alguns efeitos sonoros de quebras de objetos e uma percussão muito climática.


A seguir vem “You Gotta Dance“, a faixa disco do álbum em que Alice interpreta um frequentador de discoteque entregue às sensações dos embalos trazidos pelo ritmo e pelo clima envolvente do ambiente da discoteque. Para mim uma faixa que deixa muito a desejar, pois nem é um rock “padrão”, nem uma música disco muito semelhante ao que se fazia na época.

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“I’m The Coolest” é uma faixa bem “lounge”, cujo clima é ditado pelo contrabaixo de Tony Levin (músico de estúdio renomado e muito solicitado nos anos 70 e 80) e pelas guitarras de Steve Hunter e Dick Wagner.

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Em “Didn’t We Meet” Alice narra seus encontros com outras “almas” em sonhos. Certamente referências ao álbum anterior, situações vivenciadas por Steven, seu personagem-guia por esses tempos de sonhos/pesadelos pessoais.

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O lado 1 fecha com a já citada balada (também autorreferente) “I Never Cry”

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Na primeira faixa do Lado 2, Alice Cooper é recebido pelo Demônio em pessoa, com quem ele se lamenta e questiona os motivos de estar lá. A faixa, ao contrário do que se poderia esperar ou desejar, é quase cômica, com Steven tentando negociar sua saída do inferno (como se isso fosse possível) “Sure thing, kid, when hell freezes over”, (Certamente, garoto, quando o inferno congelar, diz o diabo). Alice faz os dois vocais, o do condenado e o do diabo.

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Em “Guilty”, outra música explicitamente autorreferente e biográfica, Alice assume todas as suas culpas e contrapõe sua condição de vilão do rock à sua origem de filho de pastor.

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John Lennon, Anne Murray, Harry Nilsson, Alice Cooper e Micky Dolenz (The Hollywood Vampires)
John Lennon, Anne Murray, Harry Nilsson, Alice Cooper e Micky Dolenz (The Hollywood Vampires)

Em seguida vem “Wake Me Gently”, uma balada em que o sonhador se vê com medo de sair do sonho e encarar uma realidade de abandono e solidão.

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“Wish You Were Here” juntamente com “Go To Hell” e “Guilty” forma o grupo de músicas mais “hard rock” do álbum e é baseada em uma música de Dick Wagner, criada para sua banda, Ursa Major e que pode ser ouvida no autointitulado álbum da banda.

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A parte instrumental do final da música foi muitas vezes executada nos shows e inclusive está registrada no medley do álbum ao vivo “The Alice Cooper Show”.

A parte final da ida ao inferno de Alice começa com a regravação de uma canção de 1918, “I’m Always Chasing Rainbows” em que o narrador fala da sua busca incessante e aparentemente interminável pela sorte e pela felicidade.

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Acima, a gravação original de “Chasing Rainbows” – 1918

O final arrebatador dessa sequencia de “Welcome To My Nightmare” chega com “Going Home”. Sim, apesar dos fantasmas da doença e da fragilidade física, Alice Cooper ainda chegaria seguro e em bom estado em casa, onde seus fãs “de essência” saberiam como encontrá-lo e como entender essa grande guinada do garoto que não sabia o que queria aos 18 anos (I’m Eighteen), que queria tirar férias eternas da escola (School’s Out) e que não queria mais ser visto como um cara legal (No More Mr. Nice Guy).
Aos 28 anos Alice fazia um balanço de sua carreira e de sua vida e inaugurava, assim, um novo período – não tão glorioso ou “paparicado”, mas de resistência e luta como só os grandes sabem.


NOTAS

-- Lançamento: 25/06/1976

FAIXAS
01 Go To Hell (Cooper, Wagner, Ezrin) [5:02]
02 You Gotta Dance (Cooper, Wagner, Ezrin) [2:44]
03 I'm The Coolest (Cooper, Wagner, Ezrin) [3:57]
04 Didn't We Meet (Cooper, Wagner, Ezrin) [4:15]
05 I Never Cry (Cooper, Wagner) [3:43]
06 Give The Kid A Break (Cooper, Wagner, Ezrin) [4:13]
07 Guilty (Cooper, Wagner, Ezrin) [3:21]
08 Wake Me Gently (Cooper, Wagner, Ezrin) [5:03]
09 Wish You Were Here (Cooper, Wagner, Ezrin) [4:35]
10 I'm Always Chasing Rainbows (McCarthy, Carroll) [2:13]
11 Going Home (Cooper, Wagner, Ezrin) [3:47]

MÚSICOS (THE HOLLYWOOD VAMPIRES)
Dick Wagner - Guitars and Vocals (1,2,3,4,6,7,8,9,10)
Steve Hunter - Guitars (all)
John Tropea - Guitars (1,2,6,8,9)
Tony Levin - Bass (2,3,4,5,6,7,8,9,10,11)
Babbitt - Bass (1)
Allan Schwartzberg - Drums (1,2,4,5,6,7,8,9)
Jim Gordon - Drums (3,10,11)
Jim Maelan - Percussion and Soft Shoes (all) Bob Ezrin - Keyboards, Vocals (2,3,4,5,6,8,10,11)
Al Macmillan – Piano
Dick Berg - French Horn (5)
Backing Vocals - Michael Sherman, Shawn Jackson, Colina Phillips, Joe Gannon, Shep Gordon, Denny Vosburgh, Bill Misener, Laurel Ward, Sharon-Lee Williams

-- O primeiro título pensado para o álbum foi apenas HELL

Produção: Bob Ezrin
Gravado em:
Soundstage Toronto
Record Plant East
RCA Studios Los Angeles
Arranjos: Bob Ezrin, Al Macmillan, John Tropeae The Hollywood Vampires.
Design: Rod Dyer/Brian Hagiwara.
Fotografia: Bret Lopez.
A foto de Alice na capa do álbum foi feita nas sessões de fotos para Billion Dollar Babies, três anos antes. Houve (e ainda há) rumores de que se preferiu utilizar uma foto dessa época porque Alice não estava bem e sua aparência na época da gravação e lançamento do álbum refletia sua saúde debilitada.

A TURNÊ “ABORTADA”

Em 25 de junho de 1976 foi lançado “Go To Hell”. Uma turnê com 30 datas foi planejada, mas cancelada. Dois dias antes da data marcada para o início dos ensaios Alice foi internado no hospital da Universidade da California com o diagnóstico de anemia

1976 (20/03/76) também foi o ano do casamento de Alice Cooper com sua dançarina e coreógrafa da tour anterior: Sheryl Gail Goddar (Sheryl Cooper). Estão casados até hoje.

Em 1976, Alice lançou também sua primeira biografia oficial, Me, Alice, "como relatada a" Steven Gaines.

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Sobre Neimar Secco

Welcome to my nightmare. Sou professor de inglês e de português e também tradutor eventual. Rock sempre foi e continua sendo a minha trilha sonora de todas as horas. Minhas preferências são hard rock, progressivo e classic rock em geral (anos 60, 70 e 80). Bandas favoritas: Alice Cooper, Led Zeppelin, Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Pink Floyd, Beatles, Creedence, The Doors, Dire Straits, entre muitas outras.

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