Soulfly: passo importante na trajetória de Max rumo a identidade
Resenha - Savages - Soulfly
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 04 de janeiro de 2014
Nos últimos meses, todas as vezes em que menciono o lendário músico Max Cavalera, eu faço questão de rezar um mantra que, espero, ele ouça e incorpore em algum momento de sua vida: Max, meu querido, siga em frente. Não precisa mais reclamar do Sepultura. Não precisa nem mais falar do Sepultura, aliás. Dedique-se aos seus inúmeros projetos e, essencialmente, à sua banda principal, o Soulfly. Dada a quantidade de entrevistas em que ele ainda insiste em destilar um desnecessário veneno sobre os ex-companheiros de grupo, parece que ele ainda não conseguiu cortar este cordão. O que é uma pena. Porque, musicalmente, pelo menos com o Soulfly, Max parece ter encontrado a paz que precisava entre seu passado e seu futuro. Depois do incrível "Enslaved" (2012), um dos melhores discos do ano de seu lançamento e um dos pontos altos da carreira do vocalista/guitarrista, eis que o Soulfly coloca no mercado o igualmente furioso e saboroso "Savages", que carrega o mesmo DNA do anterior.
Aliás, DNA é mesmo a expressão que melhor define "Savages". Com a saída de David Kinkade, quem assumiu de uma vez por todas as baquetas da banda foi o filho de Max, Zyon, mantendo mais uma vez tudo em família e mostrando que herdou parte do talento do tio. Para completar, a poderosa e sincopada faixa de abertura, o single "Bloodshed", traz a participação nos vocais de Igor Cavalera Jr., outro filho de Max e que mantém a banda Lody Kong ao lado de Zyon. "Savages" acabou sendo mais "Cavalera Conspiracy" do que a própria banda/projeto que Max mantém ao lado do irmão Iggor, no fim das contas.
O interessante de "Savages", no entanto, é que a exemplo de "Enslaved", Max soube conversar com a porradaria de seu passado com o Sepultura, apresentando um espetáculo de fúria e força bruta como os que é possível ouvir em"Cannibal Holocaust" e "Master of Savagery", por exemplo. Ambas as faixas são exemplos de que é possível incorporar o seu tempo ao lado do Sepultura de maneira orgânica e natural. Em "K.C.S.", a gritaria chega em dose dupla, com uma participação especialíssima de Mitch Harris, quebrando tudo e ajudando o Soulfly a fazer o que ele vem fazendo de melhor nos últimos anos: aproximar Max de suas raízes mais pesadas, mais extremas, mais thrash/death.
Apesar do título quase, digamos, infantil, "Ayatollah of Rock ‘n’ Rolla" é um dos melhores momentos de "Savages". Além do excelente trabalho de guitarras de Marc Rizzo, que dispara riffs numa vibração que é impossível não acompanhar batendo cabeça, a faixa conta com a participação do excelente Neil Fallon, a voz do Clutch. Enquanto Max parte para a gritaria usual, Fallon opta por uma interpretação quase System of a Down, dando um tempero étnico/oriental diferente para a música e ampliando ainda mais o tema "guerra", presente ao longo das letras de todo o disco. Outro momento crucial da bolacha, talvez o seu ápice, é "El Comegente". A exemplo do que fez na igualmente interessante "Plata O Plomo", do álbum anterior, Max mistura uma letra em inglês, português e espanhol, caminhando pelo lado mais étnico mas sem perder o peso. E tudo isso cantando lado a lado com o baixista Tony Campos, músico mexicano conhecido pelo trabalho com o Prong e com o Asesino (supergrupo formado por Dino Cazares, do Fear Factory, e que, em dado momento, contou com a participação de Andreas Kisser).
"Savages" é mais um passo importante na trajetória de Max rumo a uma identidade própria, definitivamente desconectada do Sepultura, sem a necessidade de ter que falar o tempo todo a respeito de uma possível reunião do seu antigo grupo. Isso, acreditem, é possível. Basta apenas que o próprio Max – e algumas das pessoas ao seu redor – se convença disso.
Line-up:
Max Cavalera – Vocal/Guitarra
Marc Rizzo – Guitarra
Tony Campos – Baixo
Zyon Cavalera – Bateria
Tracklist:
1. Bloodshed (com Igor Cavalera Jr.)
2. Cannibal Holocaust
3. Fallen (com Jamie Hanks)
4. Ayatollah of Rock ‘n’ Rolla (com Neil Fallon)
5. Master of Savagery
6. Spiral
7. This Is Violence
8. K.C.S. (com Mitch Harris)
9. El Comegente
10. Soulfliktion
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