Marcos de Ros: Erudito com referências brasileiras

Resenha - Peças de Bravura - Marcos De Ros

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Por Paulo Finatto Jr.
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Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Por mais que a música instrumental agrade somente a poucos, o nosso país possui verdadeiros expoentes do gênero. O gaúcho MARCOS DE ROS, considerado um dos melhores guitarristas nacionais, construiu uma sólida carreira solo (inclusive no exterior) e com a sua ex-banda, a AKASHIC. Os anos se passaram e o músico preparou um novo disco, dessa vez com um conceito diferenciado. “Peças de Bravura” mistura o erudito com referências extremamente brasileiras.
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O repertório de “Peças de Bravura” não conta com nenhuma grandiosidade sonora. Embora seja muito recorrente em trabalhos do estilo, sobretudo nos discos de YNGWIE MALMSTEEN, MARCOS DE ROS não usufruiu de nenhum recurso orquestral em seu disco. As músicas inéditas, escritas especialmente para esse concerto, contam somente com as guitarras do artista gaúcho, o piano de Éder Bergozza (ex-AKASHIC) e a percussão de Marcelinho Silva. O resultado final é muito interessante, ainda mais porque não se baseia demasiadamente em solos e virtuosismos à exaustão. Pelo contrário, “Peças de Bravura” possui arranjos complexos que exigem muita técnica dos músicos, sem permitir exageros intrínsecos. As influências da milonga e do baião (além de outras referências brasileiras) dão um quê de personalidade ao disco assinado pelo trio.

Com o financiamento da Prefeitura de Caxias do Sul e da Secretaria Municipal da Cultura, “Peças de Bravura” é mais do que apenas um CD. O disco conta com um DVD bônus, que traz o mesmo repertório do registro fonográfico ao vivo. O show, realizado em setembro de 2009, conta com apenas as performances de MARCOS DE DOS e de Éder Bergozza. Por mais que não cometa nenhum pecado grave, a apresentação conta com uma edição pouco eficiente, que abusa ao extremo dos (toscos) efeitos de transição, muitas vezes desnecessários. No entanto, a captação do áudio é excelente. O que se vê (e se ouve) é realmente a atuação da dupla sobre o palco. Embora não possa ser considerado como o grande ápice de “Peças de Bravura”, o DVD é um interessante complemento para a obra. Nos extras há cerca de trinta minutos de uma entrevista com Marcos e com Éder sobre o projeto.

De qualquer modo, as músicas são excelentes. A abertura com “A Vingança do Seu Madruga” conta com uma percussão tipicamente brasileira (quase do samba) com melodias ricas e variadas de piano e de guitarra. O interessante na obra é que nenhum dos dois instrumentos sobrepõe o outro. Por mais que MARCOS DE ROS comande o espetáculo, Éder Bergozza enriquece ao máximo o repertório, gravado e mixado em Caxias do Sul (RS). As músicas, que não ultrapassam a marca de cinco minutos de duração, mostram certas referências da música clássica em “Que Venga El Toro” (com solos mais velozes) e em “Corrida de Calango”, mesmo que essa aproveite as influências dos ritmos nordestinos em maior quantidade. Com certeza, são as músicas com um quê brasileiro que se destacam em “Peças de Bravura”.

Em quase uma hora de música instrumental, a mistura entre cuíca e guitarra fazem de “Dança da Lagartixa” outro destaque do disco. O trabalho de De Ros & Bergozza claramente atinge os seus melhores momentos quando emplaca músicas mais animadas. Não que as faixas mais cadenciadas e contemplativas coloquem o álbum por água abaixo, mas o esforço qualificado em unir referências, a princípio díspares (como a música erudita e a música popular brasileira) precisa ser reconhecido. Na sequência, “O Vento Encanado” e “Dona Rú (Chorinho de Máira)” reproduzem as mesmas características sonoras com um acento de nacionalidade, mas sem tornar o repertório repetitivo e cansativo.

Embora sofra com o preconceito da maioria dos fãs, a música instrumental brasileira precisa ser reconhecida como uma das mais ricas do mundo. A prova é justamente “Peças de Bravura”. De certo modo, as faixas “Marcha Turca Brasileira” e “Paganiniana” mostrma toda a versatilidade intrínseca ao trabalho da dupla gaúcha, que evidencia um conhecimento amplo sobre a música clássica. A extensa (com quase dez minutos) “Ponteio Marciano” – outro interessante destaque– finaliza o trabalho de MARCOS DE ROS em alto nível. Não só as referências da música brasileira soam incrivelmente bem, mas as linhas intensas de piano deram uma áurea bastante própria à faixa.

A carreira de MARCOS DE ROS possui uma série de obras interessantes, como o instrumental “Masterpieces” (1999) e os dois discos gravados com a AKASHIC, “Timeless Realm” (2000) e “A Brand New Day” (2005). O guitarrista, que chegou a produzir dois vídeos interativos para o mercado norte-americano, aposta agora todas as suas fichas no que a música brasileira pode proporcionar de melhor à sua proposta. A dobradinha “Peças de Bravura” (CD/DVD) constitui uma interessante novidade, sobretudo para os apreciadores da música instrumental. Os melhores elogios são permitidos para caracterizar a obra.

Site: www.deros.com.br

Track-list (CD/DVD):

01. A Vingança do Seu Madruga
02. Que Venga el Toro
03. Corrida de Calango
04. Inverno de 2009
05. Capricho Infernal
06. Dança da Lagartixa
07. O Vento Encanado
08. The Little Tramp
09. Milonga de Fúria
10. Dona Rú (Chorinho de Máira)
11. Os Caçadores de Saci
12. Marcha Turca Brasileira
13. Paganiniana
14. Portobello
15. Senta a Pua
16. Palhaçada Tem Hora (E a Hora é Essa)
17. Ponteio Marciano

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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