Dream Theater: ainda com lenha para queimar
Resenha - Systematic Chaos - Dream Theater
Por Ricardo Seelig
Postado em 08 de junho de 2007
Nota: 9 ![]()
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Analisar um álbum do Dream Theater é sempre complicado. Seus discos são complexos, repletos de nuances, e "Systematic Chaos", nono trabalho do grupo, não foge à regra. Primeiro lançamento pela Roadrunner, a nova gravadora do quinteto, "Systematic Chaos" prova que o maior nome do prog metal ainda tem muita lenha para queimar.
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Novamente produzido por Mike Portnoy e John Petrucci, o disco traz novos ares à carreira da banda, e com certeza irá motivar discussões acaloradas entre os fãs. O que se percebe de imediato, assim como ocorreu com "Octavarium", é uma maior presença de características progressivas. A boa notícia para quem curte o grupo é que a banda demonstra muito mais inspiração neste novo trabalho do que no seu último lançamento.
Prova disso é a bela abertura com "In The Presence Of Enemies Pt 1", que soa como se tivesse sido gravada na época do clássico "Images And Words". Com a guitarra de John Petrucci em primeiro plano, a banda evolui sobre uma elaborada estrutura melódica, digna de seus melhores momentos. Em algumas passagens, essa música me levou de volta aos tempos de "A Change Of Seasons", uma das mais emblemáticas composições do Dream Theater.
Com nove minutos de duração, "In The Presence Of Enemies Pt 1" tem uma longa e inspirada introdução instrumental, que dura mais da metade da faixa. James LaBrie só aparece lá pelos cinco minutos, e seus vocais seguem a mesma linha do que havia feito no último disco. Ou seja: muito mais ênfase na interpretação das composições do que naquela gritaria repleta de agudos de quando entrou na banda. "In The Presence Of Enemies Pt 1" abre "Systematic Chaos" de maneira bem progressiva, com muita classe e estilo, e deixa água na boca.
Ainda bem que o restante do trabalho não decepciona. "The Forsaken" é introduzida por uma bela frase de piano de Jordan Rudess, e, assim como "I Walk Beside You", de "Octavarium", possui um imenso potencial comercial. Seu refrão não sai da cabeça tão cedo. É daquelas músicas que o grupo volta e meia faz e que quem nunca ouviu falar da banda pára para ouvir.
O peso volta com "Constant Motion". Essa canção traz linhas vocais influenciadas claramente pelo Metallica da fase "… And Justice For All", lembrando de imediato a faixa "Blackened". Além disso, James canta de forma mais agressiva, alcançando um ótimo resultado. Aqui faço um parênteses: é extremamente agradável perceber que LaBrie está, como já ocorreu em "Octavarium", usando todas as nuances de sua voz, explorando-a muito além dos já manjados agudos. Isso gera uma maior qualidade para a música do Dream Theater, e mostra que o "patinho feio" do grupo está, sim, no mesmo nível de Portnoy, Petrucci, Rudess e Myung, ao contrário do que (ainda) pensam muitos fãs da banda.
Não sei o que o grupo pensou ao compor "The Dark Eternal Night", mas o fato é que essa é, provavelmente, a canção mais pesada de sua carreira. Um riff de guitarra influenciado pelo new metal dá início à faixa, que é seguida por uma levada rápida de Portnoy e vocais repletos de efeito. Pode soar meio diferente no início, mas é muito legal. "The Dark Eternal Night" possui diversas e surpreendentes mudanças de andamento, com destaque para o teclado de Rudess. Muito peso (mesmo), indo além do mostrado em "Train Of Thought". Destaque imediato.
A balada "Repentance" vem a seguir, e é a quarta canção gravada pela banda a respeito do alcoolismo do baterista Mike Portnoy (aos curiosos, as outras são "The Glass Prison", "This Dying Soul" e "The Root Of All Evil"). LaBrie canta a letra de forma bem calma, realçando a bela melodia. O lindo solo de Petrucci é o ponto alto da canção.
E daí chegou a hora da discussão. "Prophets Of War" é uma prova cabal da ousadia e da criatividade dos músicos do Dream Theater. Sobre um excelente riff de Petrucci, o grupo coloca uma batida pop, influenciada pela disco dos anos setenta. E, acreditem, não ficou estranho, pelo contrário: a música soa enérgica, possui uma melodia contagiante, e dá vontade de ouvir de novo quando acaba. Aos fãs mais ortodoxos, que provavelmente irão chiar, apenas um lembrete: a principal característica do rock progressivo é a ausência de regras, permitindo ao músico desenvolver a sua criatividade livre de rótulos. "Prophets Of War" é uma prova disso.
"Systematic Chaos" encerra-se com duas longas faixas progressivas. A primeira, "The Ministry Of Souls", possui uma abertura grandiosa e passagens instrumentais absolutamente brilhantes. Não consigo colocar em palavras, mas indico uma audição atenciosa. A segunda, "In The Presence Of Enemies Pt 2", funciona com perfeição com a faixa que abre o disco, e as duas juntas formam uma suíte com mais de 25 minutos. De novo a inspiração fala mais alto, e complexas camadas sonoras vão se unindo umas às outras, sem cansar o ouvinte.
É fácil concluir que "Systematic Chaos" apresenta um Dream Theater olhando com carinho para o seu passado, e resgatando elementos que marcaram a sua carreira. É um trabalho mais consistente que "Octavarium", sem dúvida alguma. A quantidade de faixas que chamam a atenção e possuem potencial para se transformarem em clássicos é grande. Mas, acho que mais importante que isso, é a inspiração que transborda em cada detalhe, mostrando que o grupo ainda tem muito tesão pela música que faz.
Um grande álbum, e que não deve nada aos clássicos que o grupo gravou no passado.
Faixas:
1. In The Presence Of Enemies Pt 1
2. The Forsaken
3. Constant Motion
4. The Dark Eternal Night
5. Repentance
6. Prophets Of War
7. The Ministry Of Lost Souls
8. In The Presence Of Enemies Pt 2
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