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Resenha - Angel of Retribution - Judas Priest

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Por Caio de Mello Martins
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Desde a volta de Rob Halford aos vocais do Judas Priest em 2004, reeditando a imbatível formação do último clássico da banda, Painkiller (1990) – um álbum do qual não há o que tirar nem pôr – os fãs desse monstro sagrado do heavy metal têm fantasiado e aguardado ansiosamente o novo CD da banda, e aguardar era tudo o que podiam fazer mesmo, já que as gravações das novas faixas eram mantidas a sete chaves, os caras se recusaram a dar "uma palhinha" na mini-turnê que antecedeu o lançamento e literalmente nada vazou na internet. Finalmente, no dia 1º de março, era oficial: o novo álbum, intitulado "Angel of Retribution", fazia sua estréia internacional.

Mas vamos logo aos fatos. Eu estou em vias de me consolidar como um crítico de música. Agora, penso que você, leitor, deve saber bem por que eu escolhi ser um crítico. Sim, sou um músico frustrado. Eu sou vocalista de uma banda de Thrash Metal que não tem um baixista já faz uns dois anos, mais ou menos o mesmo tempo que me separa do último show que fiz com minha banda. Já faz uns seis meses que eu não componho música nem letra. Então, se alardear sobre a mediocridade do trabalho de outrem me faz esquecer de minha própria, digo-lhes, francamente, que malhar esse álbum já é um bom exercício...

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Mas o leitor não me entenda mal. Eu AMO o Judas Priest. Nunca mais fui o mesmo desde que os escutei pela primeira vez, aos 11 anos. Ouso dizer que é a primeira banda que bateu no peito e disse ao mundo, "nós somos uma banda de Heavy Metal e nós tocamos alto e rápido"; sem as jams tediosas do blues, sem aqueles mesmos jargões sexistas dos anos 50 que o Hard Rock setentista teimava em conservar, sem toda aquela imagem hipócrita de contracultura e de misticismo. Esses caras fizeram a cabeça das três gerações metaleiras subseqüentes (a saber: NWOBHM, Thrash e Power Metal), e todas as características mais primais que se pode citar sobre o Heavy Metal – duetos de guitarra, solos virtuosi, grande teatralidade vocal, as roupas de couro, a atitude agressiva e provocativa, a vontade inexplicável de balançar a cabeça até ter torcicolo – deriva desse grande Pai Judas.

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De qualquer jeito, uma banda vive do presente. Ora, eles são nossos heróis, mas também precisam de dinheiro para sobreviver, não é mesmo? E o presente é "Angel of Retribution". Um álbum pobre e banal. Não está às alturas do padrão do Judas. Eu imagino que, se o ouvíssemos como mais um álbum solo de Halford, talvez ele seria passável. Porém, todos conhecem a genialidade da dupla de guitarra K.K. Downing/Glenn Tipton que, mais uma vez, grava solos de cair o queixo. Agora, como é que esses caras passam horas escrevendo seus solos de precisão milimétrica em partituras e, na hora de compor os riffs (que, muito mais que os solos, são a alma da música), ouvimos variações previsíveis de pentatônica menor? A base de guitarra, por momentos, só produz acompanhamento para a harmonia vocal, deixando soar o powerchord. Decepcionante.

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A voz de Rob Halford é algo digno de nota aqui. As harmonias vocais do nosso "metal god" estão bem menos aventureiras, e não é com tanta freqüência que Halford utiliza seu arsenal de agudos; seu tom se mantém na maior parte do tempo num campo médio de alcance, e é evidente que sua voz se torna mais esganiçada quando recorre a tons mais altos. Não chega a desafinar em nenhum momento, no entanto.

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Há várias razões pelas quais esse álbum irrita um fã exigente. Uma delas é o número exagerado de citações de antigos clássicos da banda, inseridas dentro do contexto das novas músicas ("Stained Class", "Take on the World", "Sentinel", "Painkiller"), o que, mais do que uma tentativa barata de agradar os fãs da maneira mais fácil, ao passar a imagem da jovialidade nunca perdida, revela uma total falta de criatividade na hora de conceber as letras. Aliás, quanto às letras... ignore-as se puder, meu caro!! Mais uma vez, Rob Halford nos conta histórias sobre um guerreiro sobrenatural que, atendendo aos clamores de justiça da humanidade, vem à terra duelar contra todos os "pecadores" e "infiéis" que permanecem em seu caminho, dedetizando o mundo à maneira de um messias no dia do juízo final (esse tema é recorrente especialmente em músicas como "Judas Rising" e "Angel"). Meu Deus, será que esse cara virou evangélico?! Não, ele somente evita qualquer tema mais ambicioso e substancial para povoar a imaginação de seus fãs com asneiras maniqueístas. Bom, mas se o figura vem fazendo isso há mais ou menos vinte anos, é porque está tendo algum retorno de sua audiência, certo? E, já que estamos interpretando suas letras às luzes da moral cristã, quem é esse sodomita para me dizer o que é pecado ou não (para quem não sabe, Halford é gay assumido)? Por volta do resto do álbum, a banda reduz-se a meros personagens de cartoon, cujas personalidades dependem unicamente da roupa que usam e da motoca muito maneira que eles mostram por aí quando vão dar um rolê – preste atenção nesses versos da faixa "Deal With the Devil" (por outro lado, uma das menos comprometedoras, musicalmente falando): "Quando vestimos nosso couro/ E os chicotes e algemas/ Nada mais importa agora/ Nós não podemos ser domados".

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Nossa, as letras do Judas Priest estão completamente inócuas, que novidade!, pensará você. O problema é que a música não compensa a mediocridade lírica; na verdade ela a acentua. Faixas como "Judas Rising", "Worth Fighting For" e "Wheels of Fire" têm riffs tão óbvios e tão conservadores que passam desapercebidas, tamanha personalidade genérica e descartável. "Demonizer", por sua vez, merece uma consideração à parte: trata-se de mais um arquétipo sub-Painkiller que costumamos presenciar em todos os álbuns desde 1997; assim como "Jugulator" ou "Machine Man", essa música mostra a banda tentando engatar uma quinta, tocando um Thrash Metal levemente sugestivo - ou seja: é um pastiche do gênero. O Scott Travis tá debulhando tudo lá atrás? Sim! A base da música está em mi frígio? SIM! O Rob dá um pusta dum agudo na hora do refrão? SIM!!! Hum, por acaso isso é minimamente interessante, surpreendente ou criativo? NÃO!!! Para piorar, o tal do "demonizador" da música não é nada mais do que o próprio personagem "Painkiller" sendo reciclado para mais quatro minutos de Heavy Metal redundante.

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Há no álbum, porém, momentos em que a banda se desvencilha de seus clichês e se torna irreconhecível. E isso eu digo num sentido negativo. "Revolution", o primeiro single a sair do álbum, é assustadoramente comercial; com seu refrão grudento, um groove ligeiramente sexy e letras que tratam de temas como confronto e subversão da forma mais banal possível, ela soa como uma "Whole Lotta Love" mais cínica e moderninha – agradeça à produção exageradamente polida. "Angel", a power ballad designada para ser a faixa-título, traz à mente comparações inevitáveis com... "Beyond the Realms of Death"? Não, Audioslave mesmo! Nessa faixa, Halford está surpreendentemente bem comportado, estéril, até. Sua linha de canto é mais ou menos regular, não dá tantos espaços às teatralidades de outrora; me parece esta ser uma estratégia mais eficiente para manter a harmonia presa na memória dos ouvintes. Pena que isso tenha custado toda a espontaneidade de sua performance.

A coisa só fica boa mesmo nas três últimas faixas do álbum. "Hellrider", a antipenúltima, tem o grande mérito de ser a única música realmente memorável dentre a produção musical do Judas nos últimos 15 anos. Que puta música! Duetos de babar, harmonias divinas de guitarras, riffs convincentes, estrutura dinâmica, senso de entrosamento da banda, refrão convidativo e lindo de morrer; enfim, "Hellrider" faz tudo aquilo que o álbum inteiro não faz. A faixa seguinte, "Eulogy", apesar de sua nostalgia meio piegas contida nas referências aos antigos clássicos da banda, é uma bonita e curta balada de piano (não chega a três minutos), que se vale de sua progressão dramática. Para a última faixa, "Lochness", duas surpresas: em primeiro lugar sua duração – trata-se de um épico de 13 minutos, e nem precisa falar que a música não precisa ter 13 minutos, apesar de ouvirmos um bom riff aqui, outro ali, sem contar a belíssima harmonia vocal; em segundo lugar, o fato de tanta pompa e seriedade ser empregada para relatar a horripilante (ui) e misteriosa (para não falar desgastada) lenda do monstro do Lago Ness, o que não deixa de ser bizarro.

Em suma: "Angel of Retribution" é o que se espera de bandas veteranas que, reunidas por interesses alheios à paixão pela música, vão continuar a desapontar aqueles que querem de seus ídolos álbuns de sincera devoção ao seu trabalho e a seu legado. É uma pena que o Judas Priest se contente em ser apenas a sombra de quem eles foram.

Faixas:
1) Judas Rising (4:13)
2) Deal With The Devil (3:54)
3) Revolution (4:42)
4) Worth Fighting For (4:18)
5) Demonizer (4:37)
6) Wheels of Fire (3:46)
7) Angel (4:24)
8) Hellrider (6:23)
9) Eulogy (2:53)
10) Lochness (13:29)


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