Resenha - Incesticide - Nirvana
Por Maurício de Almeida (Maquinário)
Postado em 03 de fevereiro de 2005
O Nirvana já estava em todas as paradas, capas de revistas e canais de televisão possíveis quando foi lançada a coletânea "Incesticide", em dezembro de 1992. Após o estrondoso sucesso de "Nevermind", a idéia de manter a banda sob os holofotes era perseguida obsessivamente pelos executivos da Geffen, gravadora do grupo. A lógica comercial era bem simples: até sair um novo álbum de inéditas, era necessário que o Nirvana continuasse com as paradas, revistas e televisão. Ou seja, nada de novo se pensarmos através das cartolas das grandes gravadoras, que dificilmente trazem ao mundo idéias que não escondem alguns cifrões por trás. De certa maneira, nada errado, mas o problema é que poucas vezes estas idéias trazem algo realmente interessante ao público. Talvez "Incesticide" seja uma das exceções a está regra, mas ela não foi sem querer.

A primeira investida neste sentido foi um EP com seis faixas chamado "Hormoaning", lançado apenas na Austrália e Japão em Janeiro de 1992. Com a desculpa de promover a turnê australiana da banda (e, posteriormente, a turnê japonesa), "Hormoaning" foi item de briga entre colecionadores, pois além de trazer o lado b do single de "Smells Like Teen Spirit", "Even in his youth", havia ainda a inédita "Aneurysm" e quatro covers: "Turnaround" da banda Devo, "D-7", do Wipers, além de "Son of a gun" e "Molly's lips", do Vaselines, todas gravadas no lendário programa de John Peel, na emissora britânica BBC. Ou seja, a fórmula para manter a banda em evidência funcionava, principalmente se envolvesse sobras de estúdio e covers inusitadas, acontece que a Geffen se deparou com um problema: não havia material suficiente para preencher um álbum inteiro.
Então, num acordo com a Sub Pop, primeira gravadora do Nirvana e possuidora de fitas demos de 1988 a 1990, "Incesticide" foi lançado para alegria de fãs e colecionadores e cartolas. Admirador de música como qualquer um de seus fãs, Cobain fez questão de fazer parte deste projeto, não apenas selecionando algumas músicas, como também pintando a capa do disco e emprestando seu patinho de borracha para a fotografia da contracapa. "Incesticide", além de algumas canções de "Hormoaning", possui muita coisa das demos de 1988, como "Downer" - a primeira e única música da banda de cunho diretamente político, que fez parte apenas da versão em CD do disco "Bleach" -, "Mexican Seafood", "Hairspray Queen", "Aero Zeppelin" e "Big Long Now", sendo algumas destas sobras do que se tornou "Bleach", primeiro disco da banda. Reza a lenda que estas sobras seriam o próprio "Bleach", mas semanas antes de gravá-lo, a banda se empolgou tanto que fizeram muitas novas músicas, acabando por descartar as que já estavam prontas.
As covers do Devo, Wipers e Vaselines que constavam em "Hormoaning" voltaram a aparecer neste disco, sendo as únicas covers que compõe a tracklist de "Incesticide". Uma pena, afinal, há ótimas músicas de outras bandas tocadas pelo Nirvana nos mais variados bootlegs perdidos mundo à fora. Por exemplo, "Do you love?", do Kiss, ou mesmo a ótima "The Priest they Called Him", um conto de Willian S. Burroughs (isso mesmo, aquele beatnik), lido pelo próprio, com fundo musical altamente distorcido feito pelo Nirvana. Aí está duas dicas para que gostar de desencavar raridades. Mas não pense que se as covers pararam por ali o disco também acaba. Na verdade, logo na primeira faixa encontramos "Dive", que além de fazer parte de uma coletânea lançada pela Sub Pop em 1990 com a bobinha "Sliver" (também presente neste disco), é uma das canções mais cruas da banda. Para Cobain, "Dive" só não entrou em Nevermind pois já havia saído na tal coletânea. Difícil acreditar, pois a rispidez desta música passa longe das músicas do maior sucesso da banda.
"Incesticide" mostra, a exemplo de "Dive", um Nirvana que ainda experimentava bastante, variando entre momentos ora cru e pesado, ora estranho e dado a experimentações que passam longe da imagem construída pela banda até o fim de sua carreira. Estas características ficam explícitas pelo fato de muitas das músicas que constam neste disco serem sobras de estúdio tanto do primeiro quanto do segundo disco da banda, e não por acaso encontramos certas proximidades entre algumas composições. "Stain" é uma destas. Além de ser percebido nela uma crueza que passa longe de Nevermind, é possível ainda encontrar uma banda que ainda tateava os rumos que seguiria, usando riffs de guitarras com um pé no metal de Black Sabbath, mas já se utilizando não só de uma estrutura musical diferente, mas, principalmente, com temáticas diferentes. Além disso, "Stain" pode ser considerada parente próxima de "Negative Creep", pois cria uma imagem pessimista no desenrolar do que é cantado. Seguindo este rumo há "Beeswax" ou mesmo a estranhíssima "Hairspray Queen" - nesta encontramos as tais experimentações que nunca mais foram vistas no som da banda de Seatlle.
Um fato é verdadeiro no que diz respeito a este disco: para quem é fã, vale tê-lo ali na estante, ao lado dos demais discos da banda. Agora, caso o Nirvana se resuma a algumas canções como "Polly" ou "Come as you are", talvez este trabalho não seja a melhor maneira de conhecer a banda. Entretanto, existem músicas que agradarão a qualquer quase-fã: "(New Wave) Polly" - versão aceleradíssima, com guitarras e bateria -, "Son of a gun" - que além de ser uma cover, é uma singela canção de amor a base de distorções e microfonias -, e "Aneurysm" - uma das melhores composição do Nirvana, que abusa de vocais gritados e andamentos variados, registrando uma das baterias mais inspiradas de Dave Grohl (a versão que aparece no single de "Smells like..." e no EP "Hormoaning" é outra, gravada no começo de 1991. A que consta em "Incesticide" foi gravada no final de 1991, para o programa do também (famoso) radialista Mark Goodier).
Ou seja, é um disco que vale e não vale a pena. Depende de você.
Outras resenhas de Incesticide - Nirvana
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O subgênero essencial do rock que Phil Collins rejeita: "nunca gostei dessa música"
A banda grunge de quem Kurt Cobain queria distância, e que acabou superando o Nirvana
O álbum que Regis Tadeu considera forte candidato a um dos melhores de 2026
O álbum do U2 que para Bono não tem nenhuma música fraca, mas também é difícil de ouvir
Andreas Kisser participa de novo álbum do Bruce Dickinson - sem tocar guitarra
As bandas "pesadas" dos anos 80 que James Hetfield não suportava ouvir
"Não soa como Megadeth", diz David Ellefson sobre novo álbum de sua antiga banda
Novo disco do Megadeth alcança o topo das paradas da Billboard
A história de incesto entre mãe e filho que deu origem ao maior sucesso de banda grunge
O dia que Kiko Loureiro respondeu a quem o acusou de tocar errado clássico do Megadeth
O exato momento em que Mike Portnoy soube que voltaria ao Dream Theater
A respeitosa opinião de Dave Mustaine sobre Ritchie Blackmore
O guitarrista americano que sozinho ofuscou todos os britânicos, segundo Carlos Santana
Polêmica banda alemã compara seu membro com Eloy Casagrande
A música surpreendente que "peitou" o sucesso do grunge no início dos anos 90
A lenda do Rock que cometeu um assassinato e teve os advogados pagos por Mick Jagger
A música que era "segundo plano" para o Metallica e acabou virando um clássico imortal
Lars Ulrich comenta desabafo que James Hetfield fez durante show no Brasil
Incesticide: o disco mais Punk do Nirvana
Banda de black metal Uada lança cover para "Something in the Way", do Nirvana
A introdução de rock que Dave Grohl chama de "a maior de todas"
Nirvana - o desejo de Kurt de voltar para sua infância feliz
"Cara, liga na CNN"; o dia em que Dave Grohl viu que o Nirvana estava no fim
Os 5 melhores álbuns de grunge dos anos 1980, segundo a Loudwire
A curiosa relação entre Led Zeppelin e Nirvana feita por Malcolm Young
Como uma brincadeira entre Michael Stipe e Kurt Cobain foi parar em sucesso do R.E.M.
Clássicos imortais: os 30 anos de Rust In Peace, uma das poucas unanimidades do metal



