Heavy Metal e História

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Por Ivison Poleto dos Santos
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Dentre os estilos musicais denominados populares, mais notadamente do rock e suas vertentes, o heavy metal se destaca pela utilização da História como fonte de inspiração para a composição de músicas e, muitas vezes, de álbuns inteiros com a temática histórica, nos chamados álbuns conceituais. Porém, não somente esta dimensão é ultrapassada, como é ampliada, pois algumas bandas utilizam os temas históricos como conceito expandido-a para suas vestimentas e temas de palco nas suas apresentações.

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O objetivo deste artigo não é analisar o porquê da utilização de temas históricos nas canções, o que ultrapassaria o alcance deste trabalho e também deste ramo das ciências humanas, mas sim como o objeto História é tratado pelos compositores deste gênero musical na construção de suas obras.

Em pesquisa em vários álbuns de bandas de heavy metal foi observado que esta utilização se dá de três formas diferentes: i) citação de grandes heróis ou personagens, geralmente grandes chefes guerreiros, sendo feita uma pequena biografia do personagem homenageado; ii) temas históricos como fonte as grandes épocas que a História se divide, como a Idade Média, por exemplo, utilizando a cavalaria como meio para expressar sua capacidade artística e, ou acontecimentos significativos como a II Grande Guerra e também iii) povos da Antigüidade como fonte de inspiração para canções, álbuns e nomes das bandas.

A intenção de muitos autores é a de contar uma história com personagens ou fatos históricos como pano de fundo. O tema escolhido pode ser muito conhecido ou quase desconhecido, mas tem que ter componentes de força, grandes feitos heróicos e poder compartilhando as características sonoras do estilo musical onde são priorizados a força e o poder sonoro.

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Como método de trabalho somente álbuns gravados por gravadoras oficiais ou independentes serão analisados por serem, neste caso específico, as provas documentais. Canções contidas em gravações não oficiais, como, por exemplo, em fitas ou cds de demonstração não poderão ser citadas, pois não há como comprovar o respectivo registro de lançamento e outras informações como ano da obra. As fontes, ou seja, as músicas, são muito numerosas e, por isso, a citação de todas as músicas que têm temas históricos com fonte ou que utilizam apenas partes, ou citações, se torna impossível.

Contudo, mesmo se considerar o desinteresse ou mera curiosidade sobre um determinado assunto, o autor da letra fez uma pesquisa ou um estudo sobre o tema, não são historiadores profissionais, portanto não fazem história, apenas utilizam o que já foi pesquisado pelos profissionais seja na escola, ou seja, em alguma pesquisa para produzir o texto. A curiosidade pode mover alguém a pesquisar ou estudar sobre algum assunto, mas é preciso questionar o que a motivou. Sempre há um porquê e, é possível que seja realmente um interesse meramente ilustrativo. O que está também em questão é que ao realizar este esforço, o autor deseja mostrar a um público este tema histórico e, nesta intenção não há somente curiosidade, há mais alguma intenção, que pode ser desinteressada, pode ser o desejo de somente contar uma história sobre um assunto que o autor gosta ou tem interesse pessoal, ou seja, o que o move é o seu desejo de compartilhar o conhecimento que tem com todo o seu público. Juízos de valor podem ser utilizados, mas não é o comum. O autor guarda a sua opinião deixando para o ouvinte as suas próprias conclusões. É o que chega mais próximo do método científico, mas o que não é a intenção do autor.

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A segunda intenção é a de utilizar a História como ensinamento ou aviso para as gerações futuras, para isso o autor demonstra que ela pode se repetir e que é, ou não, seu desejo que isto aconteça. Nestes casos é comum encontrar juízos de valor, o autor coloca explicitamente sua opinião sobre o assunto ou sobre o personagem enfocado. Sendo assim, distancia-se do método científico, mas que também não é de seu interesse. Neste caso o autor procura usar o conhecimento histórico com propósitos ideológicos, quaisquer que sejam eles. É uma História pessoal, com objetividade.

Uma personagem pode ser criada para dar voz a opinião do autor em um contexto histórico. É o que faz o At War na música Ilsa (She-wolf of the S.S.), em que a fictícia oficial da S.S. é utilizada para contar as atrocidades que o regime nazista fez durante seu período de governo. O texto da música é dedicado principalmente às experimentações de Joseph Mengele, o que mostra a intenção do autor de mostrar o que, na sua opinião, havia de pior no nazismo personificado pelas experimentações de Mengele que realizava seus experimentos em cobaias humanos. A opinião da banda é colocada no trecho onde fala das cirurgias no cérebro somente para estudar as reações das pessoas não se importando com as dores que elas venham a sentir e colocando suas vidas por um fio.

Mengele é personagem de uma outra música, desta vez da banda brasileira Dorsal Atlântica, que impõe, também, certo juízo de valor. Esta é uma das características da abordagem aos temas históricos. Muitas vezes o autor não se contenta em relatar os acontecimentos ou fatos que considera importantes, mas também impõe a sua opinião, revelando juízos de valor, Mengele é assim chamado de "tal qual um diabo onipotente das profundezas da noite surgido". Não há somente o juízo de valor imputado, mas também a utilização do recurso de colocar o personagem como narrador da história que está sendo contada ao declarar que "Sou um médico onisciente, capaz de aumentar os óbitos até o infinito". A música relata também a fuga e seu esconderijo no Brasil, tendo passado pela Argentina e Paraguai e sua morte tranqüila na cidade de Embu, em São Paulo tendo como lugar de descanso final a cova 321. Segundo o autor, Mengele fugiu de inferno para cair em outro. Sua frieza ao escolher quem seria queimado e quem seria escravizado é mostrada pelo autor, da mesma forma quanto a sua fuga para o Brasil e o insucesso de Simon Wiesenthal que não conseguiu capturá-lo até sua morte tranqüila.

Como é um gênero de música popular e tem que lidar com as limitações que o tempo das canções impelem aos compositores, não é possível um aprofundamento nos temas abordados e, por isso também não pode ser verificada uma abordagem científica aos temas, mas sim, uma aproximação às canções épicas medievais ou às operas, gêneros musicais que também utilizam feitos ou fatos históricos como temas para suas canções. Um outro gênero musical que também faz este tipo de apropriação são os sambas-enredo de escolas de samba. De certa forma, ressalvadas as diferenças musicais, esta apropriação se dá de forma muito parecida, pois os temas são escolhidos por uma sensação de proximidade com o fato ou com o personagem, ou ainda, uma forma de homenagem. A citação histórica se torna, então, uma característica do gênero musical, o qual não se observa ter fronteiras, pois o tema pode ser encontrado tanto em bandas americanas, alemãs ou brasileiras, cada qual servindo-se da citação que acha mais apropriada. Não pôde ser observada uma limitação geográfica à utilização dos temas históricos, ou seja, bandas brasileiras não se ocupam somente de fontes brasileiras como poderia ser esperado. Poderia também ser um fenômeno ligado à época de auge do movimento, que são os anos 80 do século XX, mas há exemplos em bandas posteriores a esta época. Pode-se concluir aqui sem sombra de dúvida que a História é extremamente importante para o gênero musical e que a sua utilização é uma característica deste gênero.

Não são todas as bandas que utilizam a História como fonte de inspiração para suas músicas, nem todas as bandas que o fazem podem ser consideradas especializadas neste tipo de letra, mas algumas bandas podem ser encaixadas neste tópico. Para caracterizar uma banda especializada em temas históricos consideremos as que têm duas ou mais músicas por repetidos álbuns dedicadas a este tema. Não importa se escolheram apenas um tema ou temas variados, mas sim que optaram por utilizar a História como fonte principal de inspiração para suas letras.

O Saxon, banda inglesa ainda em atividade, é uma das que podem ser encaixadas nas três características mencionadas: primeiro pelo seu nome que é um dos povos que formaram a Inglaterra. Esta banda busca com isso uma aproximação ao passado guerreiro e conquistador que este povo inspira. Ela pode não ser a primeira a utilizar, mas é a que traz para o grande público, desde o seu primeiro álbum auto-intitulado Saxon de 1979, a utilização dos temas ligados à História principalmente à época medieval. Logo na capa pode ser percebida a citação ao povo saxão com o desenho estilizado de um guerreiro saxão. Porém, neste momento ainda a banda não tem músicas ligadas ao tema nem as utiliza em seus shows, o que vai ocorrer somente em 1983 com o álbum The Power And The Glory com a música título que se apropria de temática medieval a qual é utilizada também em videoclipe. É uma visão idealizada da época medieval com seus heróis guerreiros cobertos de glória e poder nas batalhas, como a música-título quer dizer, mas é uma abordagem até certo ponto inédita na música popular.

Porém, a banda que mais dividendos conseguiu utilizando a História como fonte de inspiração para suas músicas foi o Iron Maiden. Não se pode dizer que a História passou a fazer parte das letras do gênero por causa desta banda, pois os temas já eram utilizados anteriormente, mas sua popularidade nos anos 80 ajudou a popularizar o gênero no mundo inteiro e com isso o interesse pelas letras que falavam de História também cresceu proporcionalmente ao sucesso que as músicas com letras históricas da banda passavam a ser conhecidas pelo grande público. Pode ser considerado um fator propulsor à utilização de temas ligados à História o fato que seu vocalista e principal letrista, Bruce Dickinson, tem graduação em História, pois a banda não escrevia letras desta maneira antes de sua entrada. Após isso, outros integrantes, mais notadamente Steve Harris líder e fundador, começaram também a explorar o tema. Sua participação começa em 1982 ao entrar para a banda substituindo Paul Di’Anno no álbum "The Number of The Beast" do mesmo ano e é no mesmo álbum que suas contribuições começam com a música Invaders que relata a invasão da Inglaterra pelos normandos, que no momento já eram vikings recém-convertidos para o cristianismo. Há em cada um dos álbuns em que ele participa pelo menos uma música com referências históricas.

Existem bandas que se especializam em temas inusitados, como, por exemplo, o Running Wild que em uma época de sua trajetória abandonou os temas mais comuns do gênero e abraçou a pirataria dos séculos XVII e XVIII com uma série de álbuns que enfocaram o tema. O Running Wild demonstra uma predileção por pequenas biografias de líderes e personagens, todos muito conhecidos, o que nos remete a uma das características de enfoque das letras, ou seja, contar em não mais de 5 minutos de música a história de vida do personagem enfocado. Há sempre juízo de valor nas histórias de vida contadas pela banda, é a opinião, ou admiração, do autor que relatam os fatos mais notáveis ocorridos com o personagem e que por isso mesmo mereceram a atenção da banda e da História. Antes de abraçar a pirataria como tema, no álbum "Gates to Purgatory", Gengis Khan foi o primeiro que teve sua vida contada por esta banda. Ele é visto pela banda como um libertador que liderou o povo mongol à liberdade, apesar de considerá-lo um homem comum.

Dentre do leque de variedades históricas do gênero está o Grave Digger, uma banda alemã que lançou alguns álbuns inspirados na história da Escócia. O mais contundente deles é Tunes of War de 1996 que conta do ponto de vista da banda a evolução histórica do país. Com músicas chamadas, respectivamente na ordem que aparecem no álbum e de acordo com as datas cronológicas dos fatos desde 1.018 com a unificação do país são: Scotland United, The Dark Of The Sun, William Wallace (Braveheart), The Bruce, The Battle Of Flodden, The Ballad Of Mary (Queen Of Scots), Cry For Freedom (James The VI), Killing Time, Rebellion (The Clans Are Marching) até Culledon Muir que conta a última batalha com a Escócia independente.

A História não serve de tema somente para as letras das músicas, algumas vezes as bandas a utilizam também como inspiração para seus nomes e para a temática que será utilizada como sua identidade musical. O Centúrias, por exemplo, tem seu nome inspirado nas legiões romanas, a centúria é a divisão de cem soldados. Não há nas três obras que lançou nenhuma música que tenha a História como tema. O mesmo acontece com o Máscara de Ferro que utiliza a temática medieval como inspiração para o nome da banda e para as suas vestimentas de palco. Apesar de ter participado de apenas uma coletânea oficial com duas músicas, a banda ficou conhecida no meio brasileiro durante o final da década de 80 e início da década de 90 do século XX pela utilização das vestimentas inspiradas em cavaleiros medievais. Este caminho das vestimentas e temáticas medievais é compartilhado por várias bandas posteriores que apesar da fixação na temática produziram letras mais ligadas a mitos e lendas que aos fatos históricos. O destaque é dado à mitologia medieval e a atração que o público tem por esta época da História da humanidade. São exemplos as bandas Blind Guardian, Rhapsody, Hammerfall e muitas outras, pois na década de 90 do século passado surgiram incontáveis bandas que compartilham este tema. A temática nas músicas são principalmente feitos de glória, crônicas de cavalaria, caçadas a dragões e outros temas que eram utilizados pelos músicos medievais. Há uma grande semelhança com as canções populares de cavalheiros e as baladas medievais que eram tocadas naquela época. Algumas bandas como o Rhapsody e o Hammerfall chegam a usar espadas e cotas de malha nos seus shows para tornar a citação ainda mais apurada.

As grandes navegações também são tema para algumas músicas, como por exemplo, na citada anteriormente "Sailing to America", em "Ghost of the Navigator" do Iron Maiden e, principalmente no álbum conceitual "The Wake of Magellan" do Savatage que narra a viagem de Magalhães às Américas.

Obviamente não é possível citar aqui todas as bandas que utilizam a História como fonte de inspiração, pois são inúmeras dentro do estilo; por esta razão, há lacunas, como por exemplo, o Nile. A intenção aqui é mostrar que o Heavy Metal é o gênero musical mais "histórico" que existe!




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Sobre Ivison Poleto dos Santos

Veterano das guerras metálicas. Pesquisador, escritor, resenhista, músico frustrado (por isso tudo o anterior). Ao contrário da opinião comum, acho que o melhor do Metal ainda está por vir e que existem grandes bandas novas por aí. Só procurar. No meu caso elas vêm até mim.

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