Dead Fish no Best of Blues and Rock reencontrou não fãs, mas amigos
Resenha - Dead Fish (Best of Blues and Rock, São Paulo, 03/06/2023)
Por André Garcia
Postado em 07 de junho de 2023
Formado na década de 90, o Dead Fish surgiu no Espírito Santo, fora do badalado eixo Rio-São Paulo-Minas. Mesmo assim, galgou degrau a degrau seu caminho pelo underground até que, no começo dos anos 2000 conquistou projeção nacional.
Firme e fortes até hoje, os veteranos comemoram 30 anos de carreira com o álbum ao vivo "30+1" - dividido em três volumes, cada um cobrindo uma década de estrada. E é nesse clima de celebração que chegou ao Best of Blues and Rock.
Os capixabas subiram ao palco com pontualidade britânica às 14h20 de uma quente tarde de sábado, de baixo de céu azul e sol quente. Malanda, foram prevenidos, com roupas leves e claras. Já de cara a língua afiada do vocalista Rodrigo Lima se fez sentir: "Tarde linda, mas não podemos esquecer que todo milionário não presta, que a polícia militar de São Paulo tem que acabar, e Tarcísio é um cretino!"
Fotos: André Velozo

Ainda não tinha muita gente, a maior parte do público ainda estava por chegar, mas, dos já presentes, a maioria estava lá na frente do palco, na grade, cantando junto. Ao longo de suas décadas de estrada é evidente que o Dead Fish consolidou um público fiel e cativo. Não é uma relação de fã com seus ídolos, é um reencontro com velhos amigos — uma volta aos tempos de Tony Hawk's Pro Skater. A galera que almoçou mais cedo para estar lá, apesar do sol quente, cantando junto e pulando.
Embora veteranos, seguem esbanjando energia e jovialidade, correndo, pulando e agitando como se 2004 tivesse sido ontem. Nisso, o Dead Fish é o Ramones do hardcore nacional: entra década, sai década e eles estão com a mesma cara, a mesma irreverência, a mesma atitude, o mesmo… tesão pela vida, como já definiu Iggy Pop. A primeira parte do show foi no estilo poucas ideias, uma música atrás da outra, sem migué.
O quarteto capixaba parece adotado por São Paulo, e, em muito graças a seu discurso, parecem até ser uma banda tão paulista quanto o CPM22. Prova disso é o quão à vontade eles se sentiram no Ibirapuera, como se estivessem no quintal de casa. Estiveram quase tão à vontade quanto o Ira! esteve na tarde seguinte.
O astral da apresentação casou muito bem com o clima local. Abrigado na sombra os menos resistentes ao sol tinham os olhos fixos no palco, sentados com as costas na grade ou deitados na grama. Metade do repertório já tinha passado e a banda ainda mantinha a mesma intensidade e entusiasmo em cada música; e a galera batendo cabeça e entoando os coros. Um petardo atrás do outro, transparecia a maturidade e a experiência de todos os músicos. O ótimo som do festival azeitou os instrumentos.

Entre uma música e outra, quando tanto, rolava apenas tiradas espirituosas de Rodrigo. Quando homenageado com o tradicional coro "Ei, Dead Fish, vai tomar no c..!", respondeu: "Hoje só estou ouvindo do palco para cá. Tô nem ligado no que vocês estão falando…" Se na interação com o público o bom-humor predominou, na escolha do repertório a banda não se esquivou de botar o dedo na ferida e escolher as músicas mais espinhosas. As passarelas frontais em V na frente do palco foi usada na maior parte das vezes pelo vocalista, que vez ou outra foi até a galera sobre elas.
Na segunda metade do set list, chegou uma hora que o cansaço bateu, levando a banda a cadenciar o jogo, como gostam de dizer os comentaristas esportivos. Mesmo assim, nossos atletas do hardcore suaram a camisa para um público, que já era visivelmente maior: tanto a galera raiz na frente do palco quanto os Nutella na sombra. Quando chegou a penúltima música, foi a hora de jogar a economia de energia para o alto e queimar todo o combustível que restava no tanque.
Após a última música, um agradecimento e algo digno de nota: Rodrigo deu o que pode ter sido o primeiro mosh dos 10 anos de história do Best of Blues and Rock.
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