Roger Waters: uma noite repleta de expectativas no Rio de Janeiro

Resenha - Roger Waters (Maracanã, Rio de Janeiro, 24/10/2018)

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Por Gabriel von Borell
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Fotos: Edmar Moreira/@crisecriativadrops

Uma noite repleta de expectativas. Assim foi a passagem da turnê "Us & Them" de Roger Waters pelo Rio de Janeiro nesta quarta-feira (24), muito em função das polêmicas relacionadas ao presidenciável Jair Bolsonaro, tido pelo ex-integrante do Pink Floyd como símbolo brasileiro do "neofascismo".

Marcado para as 21h, o show no Maracanã só começou 20 minutos depois, contrariando a pontualidade britânica, mas o público aguardava pacientemente mesmo debaixo de chuva. Depois de uma introdução em vídeo, o cantor e baixista surgiu no palco acompanhado por seus músicos e duas backing vocals, para delírio dos 47 mil fãs que encheram quase todos os setores do estádio.

Ao fundo de "Speak to Me", faixa que abre o disco "Dark Side of the Moon", de 1973, Waters iniciou a apresentação com "Breath", canção presente no mesmo álbum. O show, que tem uma estrutura incrível de áudio e vídeo, continuou com a instrumental "One of these Days", única música do progressivo "Meddle" (1971) a entrar no setlist.

Na sequência veio "Time", quando o público, que ia de setentões a adolescentes, explodiu pela primeira vez. A plateia seguiu com suas "air guitars" em punho com "Breath (reprise)" e "The Great Gig in the Sky", que contou com as poderosas performances vocais das cantoras norte-americanas Jess Wolfe e Holly Laessig. Ambas fazem parte do grupo indie Lucius e acompanham a excursão mundial de Waters.

A provocante "Welcome to the Machine", do álbum "Wish You Were Here" (1975), deu prosseguimento ao show, sendo sucedida por "Déjà Vu", "The Last Refugee" e "Picture That", canções presentes no CD mais recente do artista de 75 anos, "Is This the Life We Really Want?", lançado em 2017. A apresentação seguiu com a bela "Wish You Were Here", fazendo os cariocas cantarem a plenos pulmões.

Logo depois, "The Happiest Days of Our Lives" marcou a chegada das faixas de "The Wall", talvez o disco mais famoso do Pink Floyd. Na continuação veio o hino "Another Brick in the Wall Part 2", com participação do coral de crianças da Associação Beneficente São Martinho. Os jovens, que vestiam uma camisa preta com a inscrição "Resist", ainda permaneceram no palco para cantar "Another Brick in the Wall Part 3" com bastante animação.

Em seguida, Waters anunciou que haveria uma pausa de 20 minutos para a outra metade do show. Nesse momento, o posicionamento político da plateia foi testado. Enquanto o telão mostrava mensagens de protesto contra condutas fascistas, racistas e misóginas, entre outras, os fãs reagiam fortemente com gritos e aplausos.

No entanto, foi só aparecer, na lista de políticos apontados como ditadores ou antidemocráticos, a frase "Ponto de vista censurado", em clara alusão a Bolsonaro, que a "disputa" tomou conta do Maracanã. Apesar da maioria bradar o grito de "Ele não", parte respondia com vaias.

O retorno de Roger Waters para a segunda metade da apresentação serviu para acalmar os ânimos. Era hora do gigantesco palco se transformar na reprodução da Usina de Energia Battersea, que, hoje desativada, foi capa do disco "Animals", de 1977, livremente inspirado no clássico do escritor George Orwell "A Revolução dos Bichos".

Então Waters, vestindo máscara de porco, tocou "Dogs" junto com a banda, que também usava máscaras suínas. Todos simulavam um jantar entre corruptos, e o cantor aproveitou para levantar dois cartazes. O primeiro mostrava a frase "O mundo é governado por porcos", já o segundo dizia "Foda-se os porcos".

Ao redor das quatro chaminés que se estendiam acima do telão que reproduzia a fábrica, o público via o porco inflável, que traz grande representação à obra de "Animals". Enquanto o porco, que em suas laterais exibia as frases "Stay human" e "Seja humano", sobrevoava toda a plateia, Waters, claro, executou "Pigs (Three Different Ones)".

No telão, o artista criticava duramente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com direito até a uma ilustração em que o rosto do líder da nação norte-americana aparece com corpo de um porco. Mais tarde, o repertório voltou ao disco "Dark Side of the Moon", com a dobradinha de "Money" e "Us and Them", além de "Smell the Roses", outra faixa presente no último trabalho solo de Waters.

Entre "Brain Damage" e "Eclipse", um colorido impressionante de raios laser, em formato tridimensional, representava o prisma que ilustra a capa de "Dark Side of the Moon" e uma enorme bola cinza também era vista por cima da plateia. Pouco depois, o ex-membro do Pink Floyd recebeu no palco a família de Marielle Franco, como forma de cobrar do Estado o desfecho para o brutal assassinato da defensora dos direitos humanos e vereadora do Rio de Janeiro pelo Psol.

Vestindo uma camisa preta com a frase "Lute como Marielle Franco", o baixista chamou ao palco Mônica Benício, viúva da parlamentar, a irmã de Marielle, Aniele Franco, e a filha, Luyara Santos. No telão, um recorte de jornal lembrava a morte da militante. "Marielle Franco acreditava nos direitos humanos como eu acredito, mas infelizmente nem todos no mundo acreditam", disse Waters, sendo ovacionado pelos fãs.

"A gente precisa de vocês com a gente, pedindo justiça", afirmou Anielle, enquanto Mônica instigava o público a puxar o coro de "justiça". "Já são 224 dias sem resposta", completou a viúva, que segue aguardando a solução do caso. O telão ainda exibiu uma foto com as quatro deputadas estaduais e federais negras eleitas pelo Psol neste ano: a própria Mônica, Renata Souza, Dani Monteiro e Talíria Petrone.

O cantor se referiu a elas como "sementes que Marielle deixou". Na plateia, gritos de "Marielle, presente!" ecoavam pelo Maracanã inteiro. "Marielle Franco ainda está conosco em nossos corações. De muitas maneiras, Marielle Franco é a líder deste país", declarou Waters. Passada a necessária homenagem, a apresentação caminhou para o bis com "Mother".

No instante em que o inglês cantava o verso "Mother, should I trust the government?" ("Mãe, devo confiar no governo?"), o telão exibiu a expressão, em caixa alta, "nem fodendo", em mais uma referência ao candidato a Presidência da Repúblcia pelo PSL. Não era dia de jogo no Maracanã, mas naquele instante até parecia.

Polêmicas à parte, para encerrar o show com chave de ouro veio a catártica "Comfortably Numb", levando os fãs a cantarem de braços abertos e olhos fechados, enquanto a chuva caía sob os seus rostos. Permeado do início ao fim pelo teor político, a apresentação de Roger Waters, com quase três horas de duração, provou que o rock e o povo brasileiro resistem. Mais do que um show, foi uma lição de humanidade.

Setlist:

Intro "Speak to Me" (Pink Floyd)
1- "Breathe" (Pink Floyd)
2- "One of These Days" (Pink Floyd)
3- "Time" (Pink Floyd)
4- "Breathe (reprise)" (Pink Floyd)
5- "The Great Gig in the Sky" (Pink Floyd)
6- "Welcome to the Machine" (Pink Floyd)
7- "Déjà Vu"
8- "The Last Refugee"
9- "Picture That"
10- "Wish You Were Here" (Pink Floyd)
11- "The Happiest Days of Our Lives" (Pink Floyd)
12- "Another Brick in the Wall Part 2" (Pink Floyd)
13- "Another Brick in the Wall Part 3" (Pink Floyd)
14- "Dogs" (Pink Floyd)
15- "Pigs (Three Different Ones)" (Pink Floyd)
16- "Money" (Pink Floyd)
17- "Us and Them" (Pink Floyd)
18- "Smell the Roses"
19- "Brain Damage" (Pink Floyd)
20- "Eclipse" (Pink Floyd)

Bis:

21- "Mother" (Pink Floyd)
22- "Comfortably Numb" (Pink Floyd)



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Sobre Gabriel von Borell

Gabriel von Borell, nascido em 30/03/85, jornalista. Não vive sem música e também não se apega a rótulos musicais. Acredita que todo preconceito é burro, inclusive o musical. Escuta de tudo um pouco, considerando que um jornalista deve estar aberto pra conhecer e comentar sobre qualquer músico ou banda. Pode ser encontrado no Twitter em @gabrielborell.

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