Resenha - Reite (Teatro do Via Sul, Fortaleza, 14/09/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Fazer música no Brasil não é fácil. Especialmente se o gênero escolhido não é aquele de maior apelo entre grande parte da população. Talvez haja alguns facilitadores para determinados tipos de música em alguns estados (forró no Ceará, música sertaneja em Goiás, Funk carioca no Rio...) mas nunca, nunca é fácil. Além de toda a dedicação que o domínio dos instrumentos exige, há o preço deles, o custo com estúdio e diversos outros custos atrelados ao sonho de ter uma banda. E quando se fala em rock and roll, aqui no Brasil, todo esse custo parece se encorajar ainda mais na determinação de atingir as alturas. Então, quando uma banda, mesmo que seus integrantes se dediquem a outros trabalhos (digamos) oficiais, mesmo quando rende-se um tanto ao pop, mesmo sem rodar o país em shows nos quatro pontos cardiais, atinge a marca dos dez anos de labuta, isso é algo que deve ser (e deve ser muito) celebrado. E é esse o sentimento que a REITE transmitiu e recebeu de volta em seu show de aniversário de dez anos no Teatro do Shopping Via Sul, um show repleto de boas canções e participações muito especiais. Confira como foi.

Já vimos a REITE diversas vezes, mas sempre como banda de abertura de algum outro astro ou banda de renome nacional. Com trânsito entre o rock, o pop e a MPB, a REITE já abriu shows de BARÃO VERMELHO, ZÉ RAMALHO, IVETE SANGALO, entre outros. Além disso, como muitas outras bandas Brasil afora, é banda de bar e restaurante. É notável, portanto, que nesta sexta-feira, 14 de setembro, a banda tenha levado tanta gente ao teatro para ver um show de rock. O show era mais especial desta vez porque, enquanto banda de abertura, por mais feliz que alguém possa ter ficado com a combinação de então, era sempre a atração principal que justificava o deslocamento e o preço do ingresso. Por outro lado, enquanto banda de bar/restaurante, o foco do estabelecimento não era exatamente a música, mas apenas entreter um tanto mais os presentes enquanto estes comiam e bebiam. Naquela noite, não. Quem foi ali foi com um único objetivo, propósito, intuito: ver a REITE. Como em qualquer teatro, nada de comes e bebes. Quem esteve naquela comemoração de aniversário de dez anos (só faltou o bolo), esteve ali para prestigiar a banda REITE e ninguém mais. Renato Mesquita (vocal), Daniel Magalhães (guitarrista), Ênio Bastos (baterista), João Paulo Taleires (guitarrista e tecladista) e Iuri Meneses (baixista) tocariam para seu próprio público, conquistado por toda a década, com muito trabalho.

Este show de dez anos de banda não poderia começar de forma melhor do que com uma inédita. De surpresa, "Toda forma de amor é bem-vinda", primeiras palavras de "Inteiro", deu a largada para o show na forma de um jogral dos cinco integrantes. A canção é um dos dois singles que serão lançados pela REITE até o final do ano. Depois dela, o show mostrou aquilo porque a REITE é tão conhecida na cena musical de Fortaleza, um pop rock leve, mas com consistência, e versões roqueiras muito bem construídas de canções da MPB. Sim, embora apresente de vez em quando uma cover de alguma banda de rock nacional, são nas versões com um toque rock and roll de clássicos da MPB. Versões estas que fazem com que a REITE se diferencie das demais e faça com que seja um crime que estas canções não cheguem ao grande público. Exemplo é versão pesada e sensacional de "Revelação", de FAGNER, com snippet de águas de março (semelhante ao que o próprio Fagner fez em canteiros). E esta veio logo depois de uma outra versão, também muito boa, de "Palco", de GILBERTO GIL. Ou mesmo, antes delas, a versão com ares de "Another Brick In The Wall" que fizeram para "Telegrama", de ZECA BALEIRO.

Depois da bela "As Minhas Verdades" e de vermos mais uma MPB virando rock ("À Primeira Vista"), Renato Mesquita chamou Maurilio Fernandes (ROCCA/SWITCH STANCE) ao palco. O ícone do rock cearense, como referiu-se Mesquita, assumiu o comando da banda para cantar o lindo space-hardcore "O.V.N.I" e, depois, com Renato de volta, cantou "Vício" em dueto. Sem dúvida, foi uma oportunidade única de ver dois nomes do pop rock cearense juntos.

A participação de Maurílio foi apenas a primeira das muitas que haveriam no show. A próxima seria de Luh Lívia, ex-MAFALDA MORFINA, agora em carreira solo, mas antes, é hora do outro single novo: "Ela". "Na corda bomba, entre insistir e desistir ela prefere...", termina, sem terminar, com reticências mesmo, a canção que antecede a entrada da pequena notável Luh Lívia no palco.

"Cansa" é um grito feminista, um grito feminino, um grito cristão", avisa a moça sobre a canção. Assim como Maurílio, nesta primeira canção de sua participação especial no show, ela comanda sozinha Magalhães, Bastos, Taleires e Meneses. Ainda com ela, mas também com Mesquita, "Cadê Você", outra popzera bem legal do REITE agita o público, que balança os braços de um lado para o outro.
Público com os braços de um lado pro outro.

Não bastassem as versões que já citei lá em cima, "Sujeito de Sorte" é outra linda que chega. Ouvir Belchior é sempre belo e emocional, especialmente para nós, que somos cearenses. Quando vem com essa abordagem rock and roll, que ele apenas ensaiava, soa ainda mais prazeroso.

Além da voz privilegiada, Renato é um bom front man, talhado em tantos anos de palco. Em mais uma das vezes em que conversou com o público, disse que a ideia do show ali (no Teatro) era do Marcos Lessa (talento revelado no The Voice). "Cante pra esse povo", ele diz ao receber o astro do reality show. "Vixe, o homem foi embora", espanta-se, brincando, Lessa. Sua canção é "Ruas do Brooklyn" e, se antes era MPB virando rock, aqui tem cara de rock que virou MPB. Outro cantor de samba ou MPB poderia até se sentir um estranho no ninho, um patinho feio, ao ser convidado para participar de um show de uma banda de rock. Mas, sendo a REITE como eu já descrevi, a presença de Lessa era bem apropriada. No entanto, tirando Marcos Lessa da zona de conforto (palavras de Mesquita) a hora do dueto é com "Piano Bar", dos ENGENHEIROS DO HAWAII, mas numa versão ainda mais pesada. "10 anos, eles aniversariam e quem ganha o pressente é a gente", declara Marcos Lessa.

A última das participações é de Bruna Ene. "Ela saiu, ela voltou, ela saiu e voltou de novo e de vez em quando ela volta", disse Renato sobre a moça. "Essa eu também compus depois de tomar um remédio", diz, bem-humorada, a moça. "O remédio chama chifre", conclui, antes de tocar a sua "Só" e cantar junto com Renato o reggae "Aprendiz". "Essa produção toda perfeitinha, mas a gente gosta é de tudo esculhambado", diz a moça. E emendam um improviso (que nem ficou com cara de improviso), de "Quando Você Passa", de SANDY & JR (aquela do Duro, Duro duro"). Sobre a produção do show, Bruna Ene realmente sintetizou tudo. Estava quase tudo perfeito, som, iluminação, cenário e, claro, o mais importante, a música. A localização do Teatro, dentro de um shopping, também ajudava muito (estacionamento ou facilidade para pegar um uber/táxi ajudam bastante numa cidade como Fortaleza).

O público mandou a formalidade do teatro às cucuias e acompanhou de pé "Tempo Perdido", do LEGIÃO URBANA, uma das influências mais claras da REITE, seguida da bonita "Contramão", outro single.

Claro que tem que ter um bis. Até mesmo Renato brinca com o fato de que as bandas fingem que vão embora só pra ouvir o público gritar "Mais um, mais um, mais um". "Começamos com ela e vamos terminar com ela", ele avisa antes de reprisar "Inteiro". E por falar em terminar, faltou no repertório a linda "Recomeçar". Bem que podiam recomeçar mesmo. Na verdade, vão continuar fazendo isso, todos os dias. E que venham mais dez anos e muito mais reconhecimento para o rock autoral da REITE e suas releituras roqueiras da MPB. Eles merecem.

Agradecimentos:

Renato Mesquita, pelo convite.
Alex de Paiva, pelas fotos que ilustram esta matéria.

Setlist:
1. Inteiro
2. Eu Sei
3. Telegrama (Zeca Baleiro)
4. Palco (Gilberto Gil)
5. Revelação (Fagner)
6. As Minhas Verdades
7. À Primeira Vista (Chico César)
8. Ovni (Rocca, com Maurílio Fernandes)
9. Vício
10. Ela
11. Cansa (Luh Lívia, com Luh Lívia)
12. Cadê Você
13. Sujeito de Sorte (Belchior)
14. Ruas do Brooklin (Marcos Lessa, com Marcos Lessa)
15. Piano Bar (Engenheiros do Havaí)
16. Metamorfose Ambulante (Raul Seixas)
17. Só (Bruna Ene, com Bruna Ene)
18. Aprendiz
19. Quando Você Passa (Sandy and Jr.)
20. Tempo Perdido (Legião Urbana)
21. Contramão
22. Ciclo
23. Inteiro



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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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