Black Sabbath: o dia em que eu fotografei a banda
Resenha - Black Sabbath (Esplanada do Mineirão, Belo Horizonte, 15/10/2013)
Por Fernando Yokota
Postado em 17 de outubro de 2013
"Será que vai chover?", pergunto a um fotógrafo ao lado. Há três horas pergunto a mesma coisa para cada colega que chega. A previsão do tempo é o que menos importa e pergunto mais para aliviar a ansiedade. Ironia do destino, em meia hora eu teria meu encontro com aqueles cujo legado musical começa ao o som de... chuva.
A produção chama os fotógrafos para que sejamos encaminhados à frente do palco. "Um, dois, três, quatro...". Eu, número 8, em minutos estarei de cara com três quartos do Black Sabbath que, para todos os efeitos, chamo aqui só de Black Sabbath. O vento bate forte e a lua, assim como o vizinho que fecha a janela por causa do barulho da festa ao lado, se esconde atrás das nuvens. Será que vai chover?
Black Sabbath - Mais Novidades
O palco é altíssimo e enquadrar mais da metade do corpo de qualquer ser humano naquela posição é geometricamente impossível. Por outro lado, por conta de toda essa altura, toda a plateia pode ver o palco decentemente e, entre dez (nove, na verdade) fotógrafos e vinte mil pessoas acho que a escolha era fácil. Só poderia ter nascido um pouquinho mais alto ou ao menos ter um banquinho como o do colega ao lado.
Dez minutos antes do previsto, luzes vermelhas e som de sirene, ou seja, meus quinze minutos começam a contar e ainda não chove. Tenho o péssimo hábito de trocar de lente a cada poucos cliques mas desta vez, menos pela prudência de "garantir o serviço" e mais pelo nervosismo, minha fantasia de homem-bomba fotográfico fica imaculadamente intocada durante o tempo todo bem como minhas lentes dentro dela.
Sem Pitágoras (e tampouco o banquinho do colega) em meu favor, o palco ao som de War Pigs parece ficar ainda mais alto e o ângulo mais difícil ainda. Os retornos no chão são gigantescos e apenas diminuem o já diminuto espaço para o tiro ao alvo fotográfico que fazemos das profundezas do photo pit.
Não sei se é para apoiar-se no pedestal ou porque os versos que há muito fogem da memória passam em algum teleprompter no chão, mas o velho Ozzy se limita a ficar ali atrás de sua barricada. De qualquer forma, para o bem e para o mal, "o Ozzy é o Ozzy" e isso o isenta de correr o palco inteiro. Justo.
Ao lado esquerdo da plateia, Geezer pune o baixo com sua polidáctila mão direita (em dado momento eu mesmo contei oito dedos) como quem aprendeu a viver dando duro numa quebrada qualquer de Aston. Se o Ozzy é a cara e o Tony é a alma (voltaremos ao Tony logo mais), Geezer é o coração e o alicerce (se é clichê dizer isso, lembremos que os clichês geralmente surgem dos clássicos, e todos aqui concordamos que não estamos falando de outra coisa que não seja um legítimo clássico).
Assim como numa casa, a base é algo que nunca vemos já que, afinal de contas, é a base. Geezer, fundamento que é, fica lá atrás, abrigado em seu ponto cego pois não pode dar-se ao luxo de perder tempo com futilidades (como fotógrafos num buraco tentando encontrá-lo) quando todo o sistema autônomo da banda dele depende.
O motivo de eu escrever este texto, entretanto, é a última ponta desse "quadrado de três lados". Se gente como eu ou você gosta de metal, Tony Iommi é o próprio metal. Da mesma forma, Tony Iommi nunca foi do Black Sabbath: ele é o Black Sabbath (tanto nos bons quanto nos não tão bons momentos). Cada power chord tocado no mundo por um moleque com a cara cheia de espinhas numa guitarra vagabunda é uma demonstração de apreço pela pessoa que estava ali diante de mim.
Dez minutos de correria frenética na trincheira dos fotógrafos. Todo mundo tentando registrar o que era possível de todos os (poucos) ângulos possíveis e no meio de Into the void – a parte rápida, para os iniciados – Tony caminha para o lado em que me encontrava, sozinho, tentando fazer uma foto lateral qualquer. É um desses raros momentos em que o spot de luz não o segue e há apenas uma luz lateral fraca e a iluminação de trás. Black Sabbath Belo Horizonte
Baixo a câmera e observo. Enquanto os fotógrafos estão todos apontados para o outro lado, talvez registrando uma das poucas investidas de Geezer à frente, Tony Iommi, o Criador, olha para mim, sorri e parece fazer um aceno com a cabeça, um sinal de aquiescência. O canhão de luz o reencontra e o reconduz para sua posição atrás do retorno. Continuo então a fazer os poucos cliques que me restam e Tony continua a descer o sarrafo em sua SG.
Claro, havia um baterista. E não era Bill Ward, e acho que só o colega do banquinho conseguiu uma foto decente dele. Eu mesmo não me recordo de ter feito uma foto decente dele. Com todo respeito, pouco me importa. "Tony Iommi aprovou", e isso me basta. As fotos, apesar de tecnicamente ficarem boas, estão longe das melhores que já fiz. "Garanti o serviço" demais, mas naquela noite havia mais que o registro fotográfico em jogo, pelo menos para mim.
Não sei exatamente o que era, mas seja lá o que for, "Tony Iommi aprovou". Deve ter algo a ver com o fato de eu estar lá sem a menor chance de esconder a alegria que não cabia dentro de mim por estar lá fazendo algo que adoro em frente de heróis da minha adolescência. Pensando bem, deve ter sido isso mesmo. Só pode ter siso isso.
A chuva? Não, não choveu.
Mais fotos neste link.










Outras resenhas de Black Sabbath (Esplanada do Mineirão, Belo Horizonte, 15/10/2013)
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



As dez melhores músicas de thrash lançadas entre 2000 e 2020, segundo a Metal Hammer
A música do Judas Priest que tem um dos solos "mais gloriosos" do metal, segundo Rob Halford
Canal crava a tier list definitiva do Iron Maiden e joga um disco no fundo do poço
A canção que Renato Russo escreveu e a Legião Urbana preferiu esconder do público
Por que o último show do Sepultura mudou do Pacaembu para uma casa menor?
Os 3 artistas considerados "rock de tiozão" pelo baixista do Nirvana Krist Novoselic em 1992
Regis Tadeu explica por que o Slipknot deve agradecer de joelhos a Eloy Casagrande
"Não chego aos pés dele"; o guitarrista contemporâneo admirado por Jimmy Page
A canção que Axl Rose gravou sob efeito de cogumelos e que deixou o Guns N' Roses furioso
A banda gigante que, para Ozzy Osbourne, deveria ter sido ainda maior
Por que Bruno Sutter votou contra levar o Massacration à Europa: "Não quero"
O melhor baterista de todos os tempos, segundo Lito Sousa, do Aviões e Músicas
A música que coloca Elton John no topo do Rock in Rio 2026, segundo Estadão
Regis Tadeu elege melhores e piores shows do primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026
Todos os discos do Iron Maiden, do pior ao melhor, em lista do Loudwire
"Faríamos música se Freddie estivesse vivo, mas não sei de John", diz baterista do Queen
Titãs: o motivo pelo qual Arnaldo Antunes saiu da banda antes de "Titanomaquia"

Tony Iommi tinha dúvidas quanto à participação do Black Sabbath no "Back to the Beginning"
Quando Tony Iommi tentou fugir do som do Black Sabbath e criou um de seus riffs mais pesados
De AC/DC a ZZ Top, os 20 melhores discos lançados em 1981, segundo a Louder
Por que o Scorpions não tocou na despedida do Black Sabbath, segundo Klaus Meine
Modelo da capa do primeiro álbum do Black Sabbath lança ópera-rock
Ozzy Osbourne em sua primeira internação em uma clínica de reabilitação: "Onde fica o bar?"
O disco do Black Sabbath que mudou a vida de Tom Warrior, do Celtic Frost: "Era como uma droga"
Iommi relembra as últimas palavras que ouviu de Ozzy: "Liguei para ele na véspera de sua morte"
Dave Lombardo acha que o Black Sabbath não foi uma influência direta para o Slayer
Baterista original do Black Sabbath, Bill Ward está finalizando novo álbum solo
Maximus Festival: Marilyn Manson, a idade é implacável!
Metallica: Quem viu pela TV viu um show completamente diferente



