Black Sabbath: Em Porto Alegre, O Caos Ordenado!
Resenha - Black Sabbath e Megadeth (Estacionamento da FIERGS, Porto Alegre, 09/10/2013)
Por Marcos Dias Mathies
Postado em 12 de outubro de 2013
Entro na Zoeira às 19:20, mais ou menos, com o Hibria já desmantelando um Power Metal rápido e Efusivo, muito competente e virtuosisísísísíssimo. O vocal canta tão alto quanto o André Matos, mas sem falsete, é voz de cabeça mesmo. IMPRESSIONANTE. É muito gratificante saber que existe uma banda gaúcha desse cacife levantando a bandeira pagos (terras distantes) afora.
Logo termina, e então entra no palco o Demônio Loiro da agressão e da revolta disciplinada... Dave Mustaine & Megadeth. Véy, essa banda é animal. Realizei um sonho de poder vê-los ao vivo. As músicas baixaram de tom, e casaram perfeitamente com a voz - agora grave - rouca e robótica do Alemão Renegado. PUTA QUE PARIU! O Chris Broderick toca os solos do Friedman com um pé na cabeça! Chega a ser ultrajante!
O Megadeth é uma banda de protesto... A Intro com a imagem de uma linha de produção de Metal Pesado esculpindo o logo da banda já deu a idéia de o que se trataria o show: Revolta contra o sistema opressivo de produção em massa, e o que este impõe à humanidade: Lucro, ganância, Guerras, Ódio, Esquizofrenia, dependência química... Contra tudo o que há de errado no mundo e nos vendem como normal.
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No show do Megadeth, as músicas eram acompanhadas por imagens no telão, que complementavam a mensagem que estas queriam transmitir. Hangar 18, a abertura, foi catacômbica (Cataclisma + Hecatombe +) Alienígenas de Roswell invadiram a Fiergs quando o refrão denunciava de que nós já sabíamos de mais sobre a Area 51:
""Possibly I've seen to much Hangar 18 I know too much"
e a sensação misturada de terror, medo, raiva, e alegria se misturaram e formando algo nunca sentido! Outro destaque foi para "Peace Sells... But Who's Buying?"
"Ah... Quer dizer que por eu ter meu cabelo comprido, minhas roupas pretas, minha revolta... Eu não posso pagar minhas contas? Quer dizer que não me interesso por política...? Que eu não tenho sentimentos.? Eu pensei que tu nem mesmo pudesse sentir!"
A sociedade não aprova esse comportamento arredio dos Headbangers (Metaleiros), porque afinal, a paz é rentável. A paz vende. É preciso a comodidade e a ordem pra continuar a exploração do homem pelo homem.
A imagem do Dave solando era algo infernal. O Demo loiro se conjurava à guitarra e parecia que aquele instrumento era uma criatura da escuridão que gritava muito alto... Parecia... que ele instigava e ao mesmo tempo dominava aquele aparelho de chaos para controle da massa que estava ali assistindo.
O show termina, e um misto de euforia com ansiedade vem ao peito, por saber que aquele show fodástico do Megadeth tinha terminado para que os Deuses da Destruição pudessem entrar no palco, e trazerem a sonoridade revoltosa do ocidente europeu do século 20 para a cidade de Porto Alegre. Quarenta anos depois.
As sirenes de ataque aéreo/bombardeio ecoaram Zona Norte afora, avisando que os estouros eram iminentes. War Pigs, velho! War Pigs! O primeiro acorde do Tony Iommi veio como um soco na fonte. A alegria quase infantil que tomou conta da geral, foi emocionante. Pessoas de diversos lugares, histórias, sentimentos, frustrações, motivações... Todos estavam ali para poder assistir àquele show. Eram 30.000 corações e mentes pensando e sentindo a mesma coisa: Realização. Os gritos de euforia vinham de longe, cada um reagindo de uma maneira. Urros de raiva, gritos de desespero, palavrões, xingamentos... Tudo isso era berrado para poder expandir a energia de objetivo cumprido: ver os Deuses do Metal Pesado. Aqueles que saíram do subúrbio industrial de Birminghan, permeado de pobreza e violência, que criaram um som que retrata a desordem mental e a opressão que a indústria pesada de metal faz ao trabalhador.
"Generais reunidos em suas massas, Como bruxas numa missa negra,
Mentes diabólicas que tramam destruição, Feiticeiros da criação da morte,
Nos campos os corpos queimando, Enquanto a máquina de guerra continua agindo,
Morte e ódio à humanidade, Envenenando suas mentes com lavagem cerebral! "
"Oh, Deus, yeah!"
A letra é de 1970. O tema? Guerra do Vietnam. Diga-me, meu amigo... O que mudou nos dias de hoje, para que esse tema não se aplique mais à realidade? Nada. A história é a mesma. a Idade Contemporânea é a mesma. Os problemas são os mesmos. "Ah mas eu não entendo nada o que eles falam, e é só barulho e gritaria". Velho, tu não entende nada porque tu não quer abrir teus olhos para a realidade. Tua percepção não é condicionada a compreender o Chaos que o mundo industrial vive. A dominação é soberana, e eu e tu somos dominados. A diferença é que eu sinto raiva. E tu, complacência.
O baixo do Geezer Butler é um tanque de guerra de 4 cordas, velho. A timbragem do bagulho é suprasensitivo. Sério. É uma mistura de um Twister F5 com Brisa de verão. Ele tira tudo quanto é frequência de modo a preencher à presença de uma única guitarra na banda, é insano. O vô toca aquele baixo com uma agressividade de minerador. Sério. Um tapa dele derruba qualquer lutador de UFC velho. O Loko bate no baixo.
Into the Void... "A humanidade terminou com a Terra devido a tanta poluição, guerras e ódio..., O último passo será dado: colonizar o vazio sideral... Pro suicídio final. "
Velho... Não sei em que tom essa música foi tocada. Acho que Dó negativo. Sério, o treco era tão pesado que parecia que tua cara ia derreter... Numa cadência de 20 bpm, quase parando... Quando a oitavada nos bordões do Tony Iommi entrou riffando almas afora, a ficha caiu: Era o Sabbath, mano! O Sabbath! Nessa hora, geral estava recuperando o fôlego e foi possível ver lá no palco aquela figura desajustada: Ozzy Osbourne. Os olhos pintados de preto realçavam a luz branca que seus olhos do irradiavam. Sério. Quê luz tem esse cara! Imagina alguém ter nascido pra dar errado e ter dado... Certo?? É praticamente isso. Ozzy passa no palco uma mensagem de "foda-se" eu tô aqui. Eu vivo um sonho." E sabe intimar a platéia de um jeito muito engraçado. Um velho de mais de 60 anos que parece um guri de 20. Esse é o Ozzy.
Conseguir ouvir a Black Sabbath, do Black Sabbath... Logo no telão figuraram 2 Demônios alados. Era a hora, cara! A Hora de encontrar o capeta, velho! O Acorde em Sol com quarta aumentada, veio cortando cabeças. Era o terror implantado. Gritos de medo ecoavam no Estacionamento. Maluco: Era o Demo cara. O Belzebú tava no palco, véy.
"Uma grande figura negra com olhos de fogo, Dizendo às pessoas seus desejos, Satã está sentado lá, ele está sorrindo, Observem aquelas chamas crescendo cada vez mais, Oh não, não, por favor Deus me ajude!"
A bateria virando nos infinitos tons pra morrer no surdo era sentido a cada pressão no peito. Pensei que os nego iam implodir corações naquele lugar.
O Solo de baixo com wah wah do Geezer foi muito tri, cara. Sério. Aquela amplitude de grave e agudo dentro de um trator foi muito bala. O som que antes retumbava tuas vísceras agora oscilava entre o peito e o Melão, kkkkkk. Introdução pra N.I.B. Nativity in Black.
"Escute a minha proposta, eu tenho muito pra te oferecer. Só peço que tu sejas fiel à mim." Isto é uma declaração de amor daquele que se revoltou. Uma declaração de amor daquele que nunca amou. Uma declaração de amor do renegado... Leve isso ao extremo. Isso é Black Sabbath. Sim, o Diabo também se apaixona:
"Algumas pessoas dizem que meu amor não pode ser real
Por favor acredite em mim, meu amor, e vou te mostrar
Vou te dar as coisas que você julgava impossíveis
O sol, a lua, as estrelas, todas trazem meu selo...
"Agora tenho você comigo, sob meu controle
Nosso amor se fortalece a cada hora
Olhe em meus olhos, você verá quem eu sou
Meu nome é Lúcifer, por favor segure minha mão."
Já no final do show, destaco a "Children of the Grave" para descrever unicamente Tony Iommi, o precursor. A Intro com características medievais em terças, já dizia que o vandalismo estava vindo.... A guitarra tocando a música em Tom de (menos) – Dó (que pertence aos reais até o infinito), proporcionava ondas sonoras que lembrava um transformador de rua de indústria pesada. Um som elétrico, de alta voltagem... Era possível ver as ondas sonoras distorcidas, O Estímulo auditivo possibilitava enxergar o som, já que a onda mecânica que vinha das PA’s entravam nos ouvidos como se fosse duas adagas. O peso natural da 5° Justa oitavada, era acumulado junto ao Hovercraft da bateria, e o tanque de guerra do baixo, que fazia o chão tremer. A guitarra liderava os Riffs, com um Gentleman tocando. Tony Iommi é uma divindade terrena. Não se sabe onde começa, e onde termina a guitarra e seu corpo já franzino. As pentatônicas do braço eram bálsamos de orientação melódica em meio a uma harmonia densa, crua, e intensa que afetava os sentidos mais elementares à sobrevivência humana. A vontade de Bangear a cabeça até ficar tonto, era maior que a necessidade de manter-se respirando e em pé. A urgência de liberar os movimentos do corpo de modo a acompanhar a música dominava qualquer tipo de racionalidade. A massa se transformou em criaturas disformes, em um ritmo compassado e coordenado de movimentos corporais primitivos quais à símios em tempos de caverna. Era a regressão ao estado mais natural da o homem: a Selvageria.
A música terminou, e as luzes se acenderam. Ozzy, intica a plateia a gritar, caso queiram um bis. E o público atende urrando a última voz da garganta no desejo de ouvir mais uma música. Tony puxa um cromatismo desde a primeira casa da guitarra, e arrasta a palheta nos bordões. O som que sai daquele instrumento é indescritível. Uma provocação, do que viria: A primeira música que faz a cabeça de uma criança em idade de descobrir este estilo musical agressivo e revoltoso: É Paranoid, filha da puta.
O público que parecia estar exausto, reascende à plena agitação no momento em que a bateria entra. Todos pulam tentando alcançar ao céu, e se empurram numa tentativa de contagiar à existência humana da alegria de ter realizado um sonho, e de que, infelizmente, aquela era o fim da fantasia.
O Show termina, as luzes se acendem, e o que se vê é a felicidade de todos os presentes. Abraços, choro, e até alguns rezando... Sabe-se lá o quê.
Publico essa resenha, para que todos os amigos que não foram, e que gostariam de terem ido, compartilhem dessa experiência. Aqueles que me conhecem pessoalmente, espero que eu consiga ter passado aquilo que senti, pra vocês. E não foi pouco.
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