Robert Plant: Rock & Roll está velho mas longe de morrer

Resenha - Robert Plant (Espaço das Américas, São Paulo, 23/10/2012)

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Por Flávio Dagli
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A casa não estava totalmente cheia. Normal para um show extra marcado em cima da hora numa terça-feira de muita chuva. Isso sem contar os que desistiram ao verem a imensa fila que se formou nas bilheterias, graças a uma queda de sistema minutos antes do show (viva o Brasil!). Mesmo assim, um bom público compareceu para ouvir... Led Zeppelin. Bom, pelo menos é isso que se pode deduzir pelas camisetas que os fãs usavam e pelo que estava escrito em grande destaque no o ingresso: “a voz do Led Zeppelin – Robert Plant”.

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Quando o artista atinge o status de mito, sabe que pode usar e abusar de suas ideias, sem o medo de serem mal aceitas pelo público. Um bom exemplo é o Rush, que não se importa em se satirizar em vídeos hilários exibidos durante as apresentações e em reinventar trechos de músicas clássicas (para muitos, intocáveis), como a introdução New Wave de La Villa Strangiato do show de 2011.

Ovacionado pela plateia, Robert Plant logo mostrou aos fãs que o peso de sua antiga banda não estaria necessariamente presente na apresentação. O show foi baseado em suas raízes, o blues norte-americano. Mas nem essas canções resistiram à necessidade de reinvenção de Plant, aparentemente cansado do rock pesado e apostando em uma veia mais... zen. Já na abertura, por exemplo, o que se ouviu foi uma versão atmosférica, quase espacial, do clássico do blues Tin Pann Valley. Isso dizia muito do que estava por vir.

A primeira canção da ex-banda foi Friends, do álbum III, o mais acústico do Led Zeppelin. Aqui, a única mudança em relação ao original foi... o próprio Robert Plant. Ele cantou a música toda uma oitava abaixo, mostrando que “a voz do Led Zeppelin”, depois de 40 anos, já não é mais a mesma.

Nessa hora, era impossível não notar outros sinais do tempo. No fundo do palco, por exemplo, um banner enorme trazia uma imagem estilizada do vocalista no início da carreira, recheada de detalhes coloridos, como corações e outros adornos, numa óbvia referência à psicodelia dos anos 60. O contraste com o que se via no palco era enorme. A imagem mítica do banner dava lugar a um Robert Plant coberto de rugas, de cavanhaque grisalho e já com alguns quilos a mais. Ao abrir a boca, não se escutava mais aquela voz estridente ouvida nos primeiros discos do Led, mas sim a de um vocalista que está reinventando seu estilo para se adaptar às limitações de seu corpo.

E assim o show foi seguindo. Foram tocados vários covers, outras versões alternativas de clássicos do Led Zeppelin (Black Dog, acompanhada por uma espécie de violino africano, ficou praticamente irreconhecível, porém bastante interessante) e tudo caminhava para ser um show típico de “bater cartão”, aquele que serve apenas para contar para nossos filhos que estivemos diante de um ídolo. Até que ele resolveu tocar Ramble On.

Daí para frente, tudo mudou.

O mito resolveu falar mais alto. Parecia já satisfeito com seu “aquecimento” acústico/espacial. Era como que quisesse dizer: “ok, vocês viram que sou capaz de fazer releituras das canções clássicas conforme minha vontade? Certo. Agora vou mostrar a vocês como a gente fazia há 40 anos”.

As primeiras frases de Ramble On, do II, ainda na parte acústica da canção, já mostravam que Robert Plant ainda podia ser “a voz do Led Zeppelin”. Era aquela bela voz que encantou nos anos 60/70. Depois, apesar de algumas limitações, ele cantou com extrema competência a parte pesada da música.

Seguindo Ramble On, veio Four Sticks (do IV) e uma enorme surpresa para todos que estavam se habituando ao show alternativo-zen: Whole Lotta Love (do II). De repente, de uma hora para a outra, o show era tomado por aquele peso antigo acompanhado da mítica voz de Robert Plant, já debilitada, é claro, mas perfeitamente reconhecível e competente.

Fim da primeira parte do concerto, um minutinho de intervalo e eis que “a voz do Led Zeppelin” resolve aprontar.

Provavelmente era uma música mais do que esperada, mas por algum motivo eu não pensei que ele fosse tocá-la. No palco, a banda estava reduzida. Apenas teclado, violão e bandolim. Os primeiros acordes estavam um pouco diferente da versão original, mas as notas do bandolim deixaram claro. Diante de uma audiência em êxtase, Robert Plant estava iniciando Going to California.

A música, a única acústica do Led Zeppelin IV no show, foi tocada exatamente como a original. Cada acorde de violão, cada nota do bandolim e, principalmente, cada palavra cantada por Plant remetiam ao que se ouvia no disco de 1971. Bastava fechar os olhos e ignorar as rugas do vocalista para se entrar em uma espécie de máquina do tempo. Por 4 ou 5 minutos, todos cantaram uma das músicas mais bonitas da banda. Inesquecível.
E, claro, para fechar um clássico com “c” maiúsculo. Rock and Roll, também do IV, foi executada com todo seu peso e com o acompanhamento da plateia ensandecida: “lonely, lonely, lonely, lonely time”.

Ao final, Plant prometeu voltar ao Brasil, mas é difícil saber se sua voz ainda acompanhará seus desejos. Para o público, isso nem é necessário. Já podem contar para seus filhos e netos que viram e ouviram uma das maiores vozes da história do rock and roll, este gênero que fica cada vez mais velho, mas longe de morrer.

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