Jon Anderson: o "show de um homem só" encanta São Paulo
Resenha - Jon Anderson (Citibank Hall, São Paulo, 13/12/2011)
Por Durr Campos
Postado em 14 de dezembro de 2011
Pássaros cantando, voz fininha balbuciando uma melodia fácil de guardar, instrumentos acústicos, velas aromatizadas por todos os lados, luminárias suspensas à meia-luz... Não, isso não irá tratar de uma loja de produtos esotéricos, caro leitor, mas do show do britânico Jon Anderson, a eterna voz do YES, que veio ao nosso país para uma pequena turnê em promoção do seu álbum "Survival & Other Stories". Na última terça-feira, 13, o Whiplash.net pôde conferir sua apresentação na capital paulista, quando o músico esteve no agradável Citibank Hall. O momento foi bastante especial e os detalhes você acompanha nas próximas linhas.
Texto: Durr Campos/ Fotos: Leandro Anhelli (www.anhelli.com.br)
Sozinho, às 21h30, Jon entra em cena esbanjando simpatia e arrancando aplausos calorosos. Sem delongas, empunha um dos violões ali disponíveis e dá os primeiros acordes de "Yours Is No Disgrace", um dos muitos clássicos de sua ex-banda tocados durante sua performance. As três seguintes, todas do YES, provaram que podem se passar séculos e, mesmo assim, a boa música permanecerá atemporal. Ou é possível dizer o oposto de hinos irretocáveis do nível de "Sweet Dreams", "Long Distance Runaround" (belíssima!) e "Time and a Word", do segundo e homônimo álbum, lançado em 1970? Inclusive, sobre este registro um tanto obscuro na discografia do grupo inglês, vale ressaltar a qualidade musical em cada uma das oito faixas presentes. Muito a frente do seu tempo, Time and a Word, o disco, além de um dos meus favoritos, é, sim, uma obra extremamente bem acabada e vale audições mais atentas, inclusive pelo fato de marcar a saída do ótimo guitarrista Peter Banks (nota do redator: que formou o ótimo Flash após sua demissão do YES, grupo bastante reconhecido na Europa por conta dos seus três excelentes discos lançados).

Após uma breve brincadeira intercalando a canção anterior com "She Loves You", dos The Beatles, Jon explica que durante os meses em que esteve se recuperando de uma cirurgia teve tempo para compor bastante material, boa parte tendo sua esposa Jane como inspiração. Desta safra ele escolheu "Under Heaven’s Door (Never Ever)" e "Everyday Love", de fato boas canções, mas a receptividade só aumentou mesmo quando ele anunciou "Find My Way Home", provavelmente a mais famosa da parceria com o músico grego Vangelis, presente no cultuado álbum The Friends on Mr. Cairo (1981). Anderson aproveitou para relembrar uma hilária história de quando foram convidados a tocar a citada música, que alcançou ótima colocação nos charts britânicos, na TV. Vangelis inicialmente se recusou, pois segundo Jon, não suportava o "hype" da indústria do show business. No entanto, foi só mencionar a palavra "grana preta" para o rapaz mudar de ideia no ato!

A indefectível "Starship Trooper" veio em seguida, coladinha com "America", cover da famosa obra de Paul Simon e Garfunkel, tendo sido uma das mais cantadas. A pedidos dos fãs, "Ritual (Nous Sommes Du Soleil)", do polêmico – e maravilhoso – Tales From Topographic Oceans (1973), sexto disco de estúdio do YES, foi incluída no repertório. Fiquei imaginando quão grandioso seria se houvesse uma banda ali acompanhando. A seguinte nem precisaria ser anunciada: "Owner of a Lonely Heart", maior hit do YES se observarmos a repercussão mundial. Executada de forma resumida, mas bem arranjada, manteve intacta aquela estreita relação entre intérprete e audiência que sempre promoveu desde que fora apresentada pela primeira vez nos idos de 1983, quando o multiplatinado disco 90125 caiu nas graças do público.
Jon então se dirige ao teclado e inicia um delicioso medley contendo "Set Sail", a perfeita "Close To the Edge" (muito encurtada, infelizmente), "Heart of Sunrise" e "The Revealing Science of God (Dance of the Dawn)". A letra desta derradeira é bem complexa e difícil de acompanhar, entretanto, os atentos expectadores não pareciam intimidados e cantaram cada verso em uníssono. "Marry With Me Again" manteve o clima intimista, para então voltar ao lado mais bem humorado com "The Light of Love" e sua levada reggae única. "And You And I" foi um dos pontos altos, mas também pudera, pois é uma das coisas mais belas já forjadas no Reino Unido. Jon pergunta se alguém ali conhece "Show Me", a qual é tocada após a resposta positiva da maioria. Em se tratando dele não me admiro, mesmo esta sendo um bônus do The Ultimate Yes: 35th Anniversary Collection, lançado em 2003.

Como boa parte dos leitores deste texto já deve saber, em 1975 todos os membros do YES à época resolvem dar um tempo da banda e lançar discos solo. Olias of Sunhillow foi o que saiu da cabeça de Jon Anderson após semanas trancado dentro de uma garagem repleta de instrumentos exóticos e muitas ideias megalomaníacas. Daquele clássico álbum duas das mais interessantes foram selecionadas para este concerto: "Flight of the Moorglade" e "To the Runner". A parte regular do set ainda trouxe as obrigatórias "Your Move/ I’ve Seen All Good People" e "Roundabout", acompanhada de pé por quase toda a casa. Uma breve saída do palco, o bis não tardou e trouxe "State of Independence", outra da parceria com Vangelis; a sobrenatural "Wonderous Stories" (outra nota do redator: Ao lado de "Circus of Heaven", minha favorita do YES) e a sensacional "Soon", trecho da épica "The Gates of Delirium", do insano e igualmente perfeito Relayer, o qual trazia Patrick Moraz no teclado após a debandada de Rick Wakeman devido seu descontentamento com o lançamento anterior, Tales From Topographic Oceans (mais uma nota do redator: Indico o documentário YesYears para maiores detalhes sobre o fato).

O "show de um homem só" encerrou após 90 minutos de belas canções, sorrisos e lágrimas. Pude perceber quão querido Jon Anderson é, independente da faixa etária. Mesmo em meio a polêmicas após sua saída do YES, ambos têm sido incrivelmente bem acolhidos pelos brasileiros. Seja em carreira solo ou acompanhado da banda que o projetou mundialmente, o fato é que o tempo não parece passar para este senhor. No auge dos seus 67 anos sua voz permanece intacta e cheia de vigor, assim como a legião de apreciadores que o segue.
Set-list
1. Yours Is No Disgrace (Yes)
2. Sweet Dreams (Yes)
3. Long Distance Runaround (Yes)
4. Time and a Word (Yes)
5. Under Heaven's Door (Never Ever)
6. Everyday Love
7. Find My Way Home (Jon & Vangelis)
8. Starship Trooper (Yes)
9. America (Yes / original by Simon & Garfunkel)
10. Ritual (Nous Sommes Du Soleil) (Yes)
11. Owner of a Lonely Heart (Yes)
12. Piano Medley (Set Sail, Close to the Edge, Heart of the sunise, Set Sail reprise, The Revealing Science of God)
13. Marry With Me Again
14. The Light of Love
15. And You And I (Yes)
16. Show Me
17. Flight of the Moorglade / To the Runner
18. Tony And Me (Yes)
19. Your Move/ I've Seen All Good People (Yes)
20. Roundabout (Yes)
Encore
21. State of Independence
22. Wonderous Stories (Yes)
23. Soon (Yes)




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