V. Spy V. Spy: Duas horas de show em Porto Alegre
Resenha - V. Spy V. Spy (Opinião, Porto Alegre, 03/02/2010)
Por Paulo Finatto Jr.
Postado em 14 de fevereiro de 2011
No seu último show antes do recesso de verão, os caras do Opinião trouxeram dois conceituados nomes para uma noite musicalmente única e interessante. A sonoridade das duas bandas – típica para o calor e para a época do ano – uniu referências do surf music australiano e do reggae jamaicano. O espetáculo de cerca de duas horas, proporcionado pelo V. SPY V. SPY e pelo Inner Circle, agradou o razoável público que permaneceu em Porto Alegre, mesmo em época de férias.
Por um problema qualquer ainda desconhecido, a abertura da noite – que ficaria a cargo da HAROLD CARIBBEAN – não aconteceu. De qualquer forma, às 23h30 (mais de uma hora depois da abertura da casa) uma boa quantidade de pessoas já ocupava a pista do Opinião para a primeira atração da noite. Na plateia, curiosos e um número contável de fãs devotos do V. SPY V. SPY recepcionaram David Alan Wilkins (vocal/violão), Michael Weiley (guitarra), Neil Beaver (baixo) e David Bennett (bateria). A banda, que foi fundada no início da década de oitenta na periferia de Sidney (Austrália), iniciou o show com "Clear Skies", uma das mais imponentes músicas do seu pop/rock.
As letras do grupo, comprometidas com uma visão política bastante crítica, em pouco tempo tornou o V. SPY V. SPY (na época SPY VS. SPY) uma das bandas mais importantes do rock australiano, juntamente com o MIDNIGHT OIL e o HOODOO GURUS. Na década de noventa, o movimento aussie – como ficou conhecido no resto do mundo – projetou os australianos nas rádios brasileiras com um impacto bastante considerável. A música dos caras, que nitidamente aborda toda a sensibilidade da vida, caiu no gosto dos surfistas. O V. SPY V. SPY assumiu o surf music com naturalidade.
Embora conte com apenas um integrante da sua formação original nos dias de hoje – o guitarrista Michael Weiley –, a inconsistência da carreira do V. SPY V. SPY prejudicou por demais a carreira da banda. Depois de muitos anos de inatividade, o retorno do quarteto australiano vem acontecendo lentamente. Como o último disco dos caras, "The Honey Island Project" (1998), é suficientemente datado e não há nenhuma novidade recente para mostrar nos shows, o que resta para o grupo é investir no seu repertório antigo. As músicas "Trash the Planet" e "Hardtimes" (destaque à parte pela animação dessa faixa) vieram na sequência da apresentação e mostraram como o V. SPY V. SPY conseguiu dar uma rearranjada na sua sonoridade – que era excessivamente oitentista para os padrões atuais. A voz de David Alan Wilkins se encaixou perfeitamente à (nova) proposta da banda, que conta com diversos momentos pesados e riffs interessantíssimos assinados por Weiley.
Não há dúvidas de que a experiência conta extremamente a favor do V. SPY V. SPY. "Sallie-anne" e "Take It or Leave It" mantiveram o alto nível da apresentação. Por outro lado, músicas como "All Over the World" e "Harry’s Reasons" (uma bonita faixa cadenciada) mostraram que os australianos sempre inseriram em sua sonoridade um apelo mais comercial. De qualquer modo, "Credit Cards" (que foi muito bem recebida) e "Clarity of Mind" – talvez o maior clássico do quarteto (e que contou com um pequeno trecho de "Should I Stay or Should I Go", do THE CLASH) – convenceram a plateia de que a banda vive, por que não, um dos seus melhores momentos. Na reta final do show, a instrumental "A.O. Mod" evidenciou toda a técnica e toda a destreza do quarteto australiano.
A receptividade ao V. SPY V. SPY foi incrível. O show, que encerrou com a igualmente interessante "Don’t Tear It Down", arrancou palmas e um discurso sincero sobre o quanto os brasileiros são importantes para o sucesso e para a continuidade da banda até hoje. Em uma hora exata de show, os músicos deixaram o Opinião contentes por mais um ótimo espetáculo e os curiosos – que claramente formavam a maioria do público – extremamente satisfeitos pela oportunidade ímpar de ver, pela primeira vez, o até então desconhecido V. SPY V. SPY.
Na sequência, os jamaicanos do Inner Circle subiram ao palco do Opinião para cerca de uma hora de reggae – mas isso já é uma outra história. Certamente, o público deixou a casa contente após o último evento, antes da temporada de férias.
Set-list:
01. Clear Skies
02. Trash the Planet
03. Hardtimes
04. Sallie-anne
05. Take It or Leave It
06. All Over the World
07. Mission Man
08. Harry’s Reasons
09. Credit Cards
10. Clarity of Mind
11. A.O. Mod
12. Don’t Tear It Down
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