Resenha - Whitesnake (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 06/05/2008)

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Por Maurício Gomes Angelo
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Perdoem-me começar esta resenha de forma pouco aconselhável, mas: PUTA QUE PARIU! Esta era a reação menos exaltada que se via no Chevrolet Hall já na segunda música executada por David Coverdale e cia, nada menos que “Fool For Your Loving”. Onze anos após tocarem na capital mineira pela última vez, um dos nomes símbolos do hard rock estava de volta na turnê de divulgação de seu novo álbum, “Good To Be Bad”. E, ali, no palco, é onde podemos perceber porque bandas veteranas, consideradas “ultrapassadas” por alguns – aqueles que se entregam a comentários prontos sobre coisas que desconhecem – permanecem fundamentais e adoradas até hoje. Nem uma noite fria de terça feira, data ingrata, impediu que a casa recebesse um bom público, por volta de 3.000 pagantes.

Fotos: Ary Chedid

Coverdale é uma figura única: fez parte da maior banda do hard rock “puro”, digamos, um dos maiores nomes da fase clássica do estilo, bem como fundou o Whitesnake, fazendo com que o grupo se tornasse um dos melhores da fase mais comercial do hard. Ótimo vocalista, ao vivo sua influência de Robert Plant torna-se gritante e indiscutível. Alguns trejeitos, os agudos, as intervenções... a personificação hard do eterno frontman do Led Zeppelin. Mais que isto. Quem esperava uma voz cansada, falha, poupando-se, viu um senhor de 57 anos em plena forma: física, mental, na voz, na performance, na empolgação e no prazer de se fazer aquilo. A vitalidade manifesta-se também no novo álbum, “Good To Be Bad” é uma obra extremamente consistente e relevante, entre as melhores do ano.

Às 21h em ponto, “Best Years” fez a introdução. Na segunda, como dito, o coral já estava feito. Do recente CD ainda viriam “Can You Hear The Wind Blow” e “Lay Down Your Love”, pesada, suingada e de refrão marcante, candidata a novo clássico. Como muitos ali estavam vendo a banda pela primeira vez, ouvir baladas como “Love Ain’t No Stranger” e “Is This Love” foi recompensador e necessário. Mesmo a segunda, carregada de açúcar, maior hit e contestada por muitos, não deixou de ser agradável e bem recebida.

“Crying In The Rain” veio entremeada por uma pausa para os solos e a instrumental “Snakedance”, onde Doug Aldrich e Reb Beach “brincaram” de um “duelo”. Na verdade, recurso utilizado para chamar a atenção dos fãs e tornar o momento menos cansativo. Carregando a responsabilidade de inúmeros guitarristas de renome que passaram pelo Whitesnake, Aldrich mantém a tradição com absoluto domínio de suas funções e uma pegada notável nos solos e riffs. Já Reb é uma base correta e não compromete. Quando todos estavam “ok” quanto ao solo de guitarra, o pior. Logo após terminarem “Crying” foi a vez de Chris Frazier, na bateria, solar. Desnecessário, fraco, broxante, reprovável... esfriando um show que caminhava para o ápice.

Apesar desse deslize egocêntrico, o que se viu foi uma seqüência impecável com a maravilhosa “Ain’t No Love In The Heart Of The City” e o hard rock farofa da melhor estirpe com “Give Me All Your Love Tonight”. “Here I Go Again” – Coverdale monstruoso! – fechou a primeira parte.

No bis, voltaram com o riff inconfundível de “Still Of The Night”, uma das melhores composições do grupo. Neste momento o show já alçava o status de muito satisfatório e inesquecível, com uma banda coesa entregando uma performance azeitada e cheia de punch e competência, sabendo como poucos incendiar a platéia. Para minha infelicidade, quando Coverdale começou a cantar um trecho de “Soldier Of Fortune”, belíssima, tive o desprazer de estar no lugar errado. Atrás de mim, um exemplo do pior tipo daquele que se diz “fã” de “rock”. Um ser imensuravelmente desprezível e de inteligência inexistente começou a praguejar contra David, porque queria “rrrrrrooockk!”, não “aquilo”, dentre outras besteiras que não merecem ser citadas. É o tipo de imbecil que corresponde ao pior estereótipo de “roqueiro”, e na verdade vai um pouco além, porque não consigo imaginar como um ser que supostamente gosta de rock pode reclamar de ouvir uma boa balada, ainda mais no show de um grupo como o Whitesnake. É uma mentalidade tão diminuta que merece análise. E ainda faz o desfavor de atrapalhar aquele momento de quem estava perto, como eu e muitos outros.

Mas para alegria do público de verdade que estava ali, “Soldier...” preparou o ambiente para que os pedidos incessantes por “Burn” fossem atendidos, entremeada ainda com trechos de “Stormbringer”. 1h45 de hard rock em suas diversas facetas, recheada de clássicos e com uma das maiores vozes do estilo em ótima forma. Nada a se objetar. Como em quase todo bom show, poderia ter tido outras músicas: os fãs sempre irão pedir, com razão. Mas, enquanto esteve no palco, o Whitesnake provou porque é o que é, e, mais do que isso, deixou a melhor impressão possível que uma banda veterana poderia deixar.

Belo Horizonte está se acostumando novamente a ser rota de grandes shows internacionais. Espera-se, contudo, que isto não se limite a este momento favorável do mercado – dólar baixo, bom momento da economia brasileira, patrocínio de empresas, etc – colaborando para que o Brasil seja rota fixa, definitivamente, das turnês internacionais, não pegando apenas as sobras, mas que tudo continue conspirando a favor de quem gosta de música (e sabe respeitá-la). Isto passa também pelo interesse, suporte e educação do público, que vem melhorando. Por isto amebas como as citadas aqui, por favor, fiquem em casa. E parabéns ao Whitesnake por colocar o Brasil dentre os primeiros países a receberem a nova turnê. Não devem ter se arrependido.

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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