Resenha - Brasil Rock Stars (Canecão, Rio de Janeiro, 02/04/2004)

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Por Raphael Crespo
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Texto originalmente publicado no
JB Online e no Blog Reviews & Textos.

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A situação é hipotética e não apenas improvável, mas impossível. Mesmo assim, imagine: um indivíduo fica quase 20 anos "preso vivo" em uma Sepultura e é libertado. Qual será seu desejo mais imediato? Provavelmente respirar ar puro, dar uma arejada. É justamente esta a impressão que passa Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, quando sobe ao palco em seu projeto Brasil Rock Stars, apresentado ontem no Rio de Janeiro, no Canecão, pela primeira vez fora de São Paulo, num show de mais de duas horas de duração.

A analogia é válida pois, apesar de ter o Sepultura como prioridade e não pensar em sair, Andreas está preso a um estilo, o thrash metal com toques de hardcore consagrado pela banda brasileira de maior sucesso no mundo. Há pouco mais de dois anos, o guitarrista reuniu músicos extremamente talentosos, criou o Brasil Rock Stars, pelo simples prazer de tocar clássicos de bandas que influenciaram sua formação musical, e vem demonstrando seus vários e surpreendentes recursos como instrumentista, fazendo jams das mais concorridas, com presenças de grandes nomes do rock nacional.

Ao contrário do que aconteceu em São Paulo, na quinta-feira passada, quando o ídolo pop Júnior, irmão da Sandy, subiu ao palco para tocar duas músicas, causando um certo constrangimento entre os presentes, em sua maioria fãs de Sepultura, a edição carioca do Brasil Rock Stars teve uma platéia um pouco mais seleta, sem pista livre em frente ao palco, e contou com nomes de peso. Paralamas do Sucesso, Frejat, George Israel e Ivo Meirelles, com seu Funk n' Lata deram um brilho maior à já agradável noite promovida por Andreas e seus companheiros.

Separando bem as coisas, Andreas chegou a ficar um pouco irritado quando um fã mais radical gritou um pedido de música do Sepultura. O guitarrista chegou a tocar o riff de introdução de Orgasmatron, consagrada cover do Motorhead feita pela banda, e depois mostrou o dedo médio na direção do gaiato da platéia, para depois brincar no microfone, dizendo que não rolaria músicas do Sepultura. A noite era mesmo do puro rock n' roll e não tinha espaço para a pancadaria thrash.

Com Andreas na guitarra, Silvio Alemão no baixo, Paulo Zinner na bateria, Daniel Latore nos teclados e os ótimos vocalistas Vazco Fae e Robson Rocco, o show começou com uma sequência de músicas das três bandas mais importantes e precursoras do heavy metal: Deep Purple (Burn e Strange kind of woman), Black Sabbath (The Wizard) e Led Zeppelin (Heartbraker). Em seguida, Andreas chamou ao palco o primeiro convidado, o Dj Théo Werneck, que cantou em Crosstown Traffic, de Jimi Hendrix, e depois pegou a guitarra para também tocar na pesadíssima Electric Funeral, do Black Sabbath.

Depois dos solos de bateria de Zinner, em Moby Dick (Led Zeppelin), e teclado de Latore, precedendo a introdução de Lazy (Deep Purple), e de Kill the king, do lendário Raibow, de Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio, os convidados começaram a entrar e sair sem parar. Primeiro foi o guitarrista André Moraes, amigo de longa data de Andreas e responsável pela trilha sonora do filme ''Lisbela e o prisioneiro''. Ele tocou, de uma forma até certo ponto exagerada, e com a guitarra muito alta, Sabbath Bloody Sabbath.

Em seguida foi a vez de George Israel, que teve alguns problemas com o volume do sax no início de seu solo em Money, do Pink Floyd. O membro do Kid Abelha permaneceu no palco e Andreas chamou os Paralamas do Sucesso para o clássico Sunshine of your love, do Cream. O trio, ovacionado pela platéia, tocou também em Living Loving Maid (She's Just a Woman), do Led Zeppelin, e depois em You Really got me, do Kinks, já com a participação de Frejat, que foi o único convidado na execução de mais uma de Jimi Hendrix: Fire. Já com quase duas horas de jam, o refresco veio logo após Black Night, do Deep Purple. Com banquinhos e violões, a banda do Brasil Rock Stars deu início a um belo set acústico, que passou por Beatles, The Doors e Led Zeppelin.

O final apoteótico, e surpreendente, ficou por conta de Ivo Meirelles e os garotos do Funk n' Lata, que superaram o estigma de peixes fora d'água no aquário rock n' roll e fizeram bonito nas três músicas que tocaram. Purple Haze, de Jimi Hendrix, ganhou em peso com a guitarra de Andreas e a batucada dos comandados do artista mangueirense, enquanto We will rock you, do Queen, pareceu ter sido uma música composta exatamente para aquele encontro. Depois, Ivo convidou Andreas a cair no funk, com Thank You, da banda Sly & The Family Stone.

Antes do apagar das luzes, todos, exceto Herbert Vianna, voltaram ao palco e transformaram Lucille, de Little Richard, numa verdadeira festa, consagrando, no palco carioca, o guitarrista que, seja tocando com Júnior ou Funk n' Lata, contra seus fãs mais radicais, ousou ''respirar'' fora do Sepultura.

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Sobre Raphael Crespo

Raphael Crespo é jornalista, carioca, tem 25 anos, e sempre trabalhou na área esportiva, com passagens pelo jornal LANCE! e pelo LANCENET!. Atualmente, é editor de esportes do JB Online, mas seu gosto por heavy metal o levou a colaborar com a seção de musicalidade do site do Jornal do Brasil, com críticas de CDs e algumas matérias especiais, que também estão reunidas em seu blog (http://www.reviews.blogger.com.br). Sua preferência é pelo thrash metal oitentista, mas qualquer coisa em termos de som pesado é só levantar na área que ele mata no peito e chuta. Gosta também de outros tipos de som, como MPB, jazz e blues, mas só se atreve a escrever sobre o que conhece melhor: o metal.

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