O Punk está de volta
Por Daniel Costa
Postado em 14 de outubro de 2019
Arthur Dapieve registrou no seu novo livro "DO ROCK AO CLÁSSICO", que a banda THE CLASH, com o álbum "SANDINISTA!", fazia música para o Século XXI. O escritor e ex-colunista do Jornal do Brasil estava mirando na biodiversidade contida no LP triplo da banda de punk rock britânica, que superava as limitações do formato gruitarra-baixo-bateria, cultivando um som mais plural, com misturas que casavam rock e música latina ("WASHINGTON BULLETS"), black music ("CORNER SOUL"), e até mesmo valsa ("REBEL WALTZ").

Num certo sentido, é possível pensar que "SANDINISTA!", quando visto sob o ângulo de suas letras, também é um álbum contemporâneo. Joe Strummer vociferava contra o imperialismo americano, contra a exploração do terceiro mundo e contra o preconceito racial na Europa. Se algumas dessas questões ficaram datadas (o disco é de 1980), outras tantas permanecem vivas e escandalosas.
Na verdade, no momento atual em que os movimentos autoritários estão ocupando as entranhas da democracia, o punk parece ter recuperado o seu sentido. Não são apenas as canções do THE CLASH que encontram renovado vigor. Dentre tantos outros, trabalhos como os dos RATOS DE PORÃO ("BRASIL"), do CÓLERA ("PELA PAZ EM TODO O MUNDO"), da banda INOCENTES ("PÂNICO EM SP"), e de grupos como os DEVOTOS DO ÓDIO (AGORA TÁ VALENDO"), AGROTÓXICO ("CAOS") e PACTO SOCIAL ("POBRE GERAÇÃO"), lançados na década de 80 e em meados dos anos 90, permanecem com todo o seu ar de insurreição contra o status quo, quando se vê no noticiário a volta da censura, do caos político e da bancarrota econômica. Como disse Mao, vocalista dos lendários GAROTOS PODRES: "Bolsonaro está fazendo o punk rock ressurgir no Brasil".
Além do atual momento político, as próprias redes sociais parecem ajudar nessa revalorização do punk. Elas permitem que as gerações mais jovens entrem em contato com a turma do underground que, na base da ética do faça-você-mesmo, entabulava canção de protesto e apontava o dedo para os problemas do país, mesmo levando canelada do governo, da grande mídia e da chamada família tradicional.
Talvez seja por isso que bandas novas (SURRA; XIMBRA; FILHOS DE INÁCIO; CHUVA NEGRA), estejam a repetir antigos temas capazes de reverbe-rar os gritos de inconformismo e de resistência, além de incorporarem pautas atuais, como no caso dos grupos de punk feministas, que se destacam como algumas das melhores coisas surgidas neste final de década. Basta ouvir CHARLOTTE MATOU UM CARA, TIME BOMB GRILS, BELICOSA, DEF e DEMONIA, que qualquer um que ache que o Brasil está sendo soterrado por uma avalanche sexista conseguirá alimentar a alma com alguns decibéis de revolta.
Passados mais de 30 anos, o punk permanece de pé e, renovado por essa rapaziada, ainda é capaz de arrancar as pessoas da sua zona de conforto, arrastando-as pelo pescoço para uma caminhada em que a paisagem principal é a realidade fétida do preconceito, do autoritarismo e da violência institucionalizada.
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