Bandas novas: a maldição dos covers

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Por Flávio Siqueira
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É interessante notar como uma cultura é implantada. No caso das bandas recentes, criou-se uma cultura de desvalorização dos trabalhos autorais. Tal desvalorização não é dos músicos, mas daquela gente lá fora que ouve e contrata (aquela gente cujos clássicos do rock já estão tão arraigados que não há mais espaço para ouvir coisas novas). Tudo começa com uma admiração exagerada das bandas lá fora. Isso se explica, obviamente, através da imprensa. Quando os medalhões do rock surgiram na década de 70, a imprensa estava ávida por novidades, por noticiar o novo álbum, o novo hit de sucesso. Bom, nesse sentido, a imprensa está morta. Hoje em dia é muito mais cômodo noticiar o ataque histérico de Page, que não aguenta mais "os joguinhos de Plant", do que noticiar um trabalho autoral de alguma banda em território nacional.

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Algo está muito errado. E está errado porque a desvalorização do trabalho autoral já virou cultura. É uma desvalorização cultural. Vamos concordar: o Brasil está recheado de bandas boas, muito boas mesmo, mas que, devido a uma série de empecilhos, devem se enquadrar no termo "bandas independentes" para ganhar alguma notoriedade. "Legal, você tem uma banda independente. Mas não conheço nenhuma música da sua banda". Mas é óbvio que não conhece, porque não existe mídia para bandas independentes. No Brasil, você pode crer que haverá mídia para as tretas do Angra, para qualquer outro assunto que envolva músicos já conhecidos, mesmo que esse assunto seja algo totalmente irrelevante. Mas contente-se: se você tem uma banda com um belíssimo trabalho autoral, cheia de músicas extremamente fodas e gravou um álbum foda, mas somente seu círculo de amigos saberá que sua banda é foda.

E se você for vender seu peixe pra tocar nos pubs da vida, os organizadores logo perguntam: "vocês tocam cover?" É isso que a negada, quer, gente: cover, cover e mais cover. Chega a ser algo virulento. Imaginem se Seattle fosse como o Brasil, chega lá o Pearl Jam com a fita demo de "Ten" e algum produtor diz: "Legal, mas... Vocês não sabem tocar Led Zeppelin?" Não estou querendo desanimar ninguém que queira ter uma banda com trabalho autoral, mas a realidade é essa. Quem vai parar pra ouvir um trabalho autoral? Acho que quase ninguém. Vamos lá, investir em covers e mais covers a animar a galera. Pra que ser criativo se eu posso tocar cover? Pra que vou contratar bandas autorais se a galera quer é cover? Por que valorizar o trabalho autoral, mesmo que seja um trabalho autoral foda? Ah, to com preguiça de avaliar qualquer material, vou contratar uma banda cover pra encher meu pub hoje!




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Sobre Flávio Siqueira

Nascido e criado em Brasília, aos 14 anos pegou emprestado um "The Best of" do Pink Floyd. O choque foi tão grande que resolveu aprender guitarra somente para executar o solo de "Time". De lá pra cá vem estudando guitarra e apreciando bandas de stoner, grunge e rock progressivo, além de muito blues e algumas coisas de jazz e música erudita. Atualmente toca guitarra numa banda que mescla influências de stoner, grunge e uma pitada de rock psicodélico.

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