Muito mais do que música
Por Ricardo Bellucci
Postado em 20 de fevereiro de 2018
No início dos anos setenta ser adolescente e ter pouca grana no bolso era sinônimo de "dureza". As opções de diversão não eram muitas, aos finais de semana a sagrada pelada no campinho do bairro ou então na quadra de futsal mais próxima, os lendários campeonatos de futebol de botão, empinar pipas, enfim, a galera se virava como podia.
No entanto, essas condições mais limitadas, digamos assim, tinham seu lado positivo. A galera se unia para muitas coisas, do aluguel da quadra de futsal até a famosa "vaquinha" para comprar um LP no centro de Sampa. Essas condições acabavam por unir a galera, criando verdadeiros rituais entre nós.
Um dos meus favoritos era a compra coletiva de LP'S. Quantas vezes não fui com amigos até as lojas no centro atrás dos últimos lançamentos! Não vou me esquecer da compra do álbum duplo do Iron Maiden, "Live Afther Death". O ritual era extenso. As capas eram admiradas como verdadeiras obras de arte, cada detalhe era observado! Cada item era lido com atenção (mesmo para mim que na época me limitava a um inglês básico no nível sofrível). Até aquele "cheirinho" de álbum novo contava!
Depois de comprar e admirar os "dotes" artísticos da capa era esperar para chegar na casa do escolhido, sim o escolhido! Como a grana era curta, a compra era coletiva, e o combinado era que o álbum ficaria alguns dias na casa de cada um! A escolha da ordem da "estadia" do LP na casa de cada um dos membros da compra era por sorteio, no par ou ímpar, na base do acordo, enfim, cada grupo tinha o seu próprio ritual de escolha dessa ordem. O felizardo era o camarada escolhido como o primeiro. Mas normalmente a primeira vez que o vinil sentia o contato da agulha era uma espécie de reunião mágica! Todos os membros da compra coletiva se reuniam ao redor do toca discos para ouvir o LP pela primeira vez! Na realidade era uma longa primeira vez, pois muitas vezes isso se estendia por uma tarde toda, invadindo boa parte da noite!
Após esse momento glorioso, era esperar pela sua vez de ter o "precioso" em casa! E o mais importante era não perder a oportunidade de gravar o LP na lendária fita cassete. Quem não se lembra de limpar o cabeçote do toca fitas com algodão "embebido" em álcool! Era preciso garantir a qualidade da gravação pois a oportunidade era rara! Até a escolha da fita era um ritual a parte! Se a grana não era tão curta, comprava uma boa e velha TDK, já se a verba fosse escassa, a Basf "velha de guerra" entrava em cena!
Assim sendo, meu caro leitor, se você assim como eu começou a forjar seu gosto pela música no início dos anos setenta, ou então pouco depois, você entenderá o meu ponto de vista. Para nós, ouvi.r um LP era muito mais do que meramente ouvir! Era um ritual de "transcendência existencial". O gosto pela música que tanto adoro, o rock, foi forjado assim, como um rito social, de amizade, confraternização e formação do gosto musical. Nas rodas de amigos debatíamos cada faixa do LP, as inovações na técnica e a evolução no som da cada banda! Isso forjou e solidificou o nosso gosto musical! A camaradagem formada ali no bairro, na compra do LP, se estendia a ida aos shows da cada banda.
Nossa geração foi forjada assim! Aprendemos a escutar um LP inteiro, várias e várias vezes (algo impensável para muitos jovens hoje em dia, que acabam por ouvir apenas uma faixa de uma banda aqui, outra ali!). Esse simples ato, sim, simples, nos tornava capaz de entender a profundidade de uma obra toda! Compreendendo o significado artístico de um LP como um todo! Ao escutarmos várias e várias vezes, éramos capazes de perceber cada nuance da cada faixa! As letras eram "digeridas", absorvidas e compreendidas em toda a sua profundidade e beleza. Você imagina algum jovem fazendo isso nos dias de Hoje?
Creio que não.
Esses hábitos forjados lá atrás em nossa juventude acabaram por nos marcar de forma profunda e ampla, incorporando hábitos a nossa forma de encarar a música. O rock para mim, por exemplo, tornou-se muito mais do que um mero estilo musical, tornou-se uma verdadeira filosofia de vida! Com este singelo artigo (chamar de artigo na verdade é uma pequena pretensão!) procurei explorar e refletir a importância que cada detalhe pode ter na formação do gosto musical de uma geração! Além é claro, do aspecto sociológico aí "embutido", pois na minha singela forma de ver, essa forma de coletiva de ouvir e encarar a música formou amizades que se formara por uma vida toda!
Longa Vida ao Rock!
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