AC/DC: Malcolm Young e a juventude que mora em nós
Por Roberto Schiavon
Postado em 18 de novembro de 2017
A morte do guitarrista e fundador do AC/DC, Malcolm Young, aos 64 anos, anunciada neste sábado (18), não somente reforça a certeza de que nossos heróis irão embora com o passar dos anos, mas escancara a constatação da passagem do tempo que nos atinge a todos. É o fim de uma era e mais um passo em direção a outra época, em que olharemos cada vez mais para o passado, em troca das expectativas de lançamentos dos artistas que construíram aquilo que entendemos por música.
Principal compositor e idealizador do conceito e do som rock and roll cru e poderoso do AC/DC, Malcolm e seu irmão Angus Young elevaram à enésima potência os riffs de seu ídolo Chuck Berry e adicionaram à fórmula toneladas de irreverência beirando a irresponsabilidade, forjada em litros e litros de cerveja, dentes quebrados em brigas de bar e porradas de pais e maridos enciumados. A simples menção ao nome AC/DC remete ao cheiro dos discos de vinil e à sensação de adrenalina correndo nas veias adolescentes no início das noites de sábado, com a antecipação de todo tipo de promessa que a vida poderia trazer.
Eles eram cinco maloqueiros que não tinham nada que os credenciasse ao sucesso, mas pela lógica do rock and roll, diferente de todas as outras, viraram exemplo para todos os candidatos a delinquentes do mundo. Eles eram a coisa real e faziam com que nós, moleques que iam beber cerveja e falar sobre discos no boteco da esquina, nos sentíssemos tão perigosos quanto eles, simplesmente por sermos seus fãs.
Ouvir AC/DC é embarcar em uma máquina do tempo e sentir novamente a possibilidade de sermos tudo aquilo que não conseguimos ser, resgatar aquela sensação de que ainda há tempo para cometermos todas as loucuras que sua música nos impele a fazer.
Malcolm era a mola-propulsora desse sentimento. Ao lado de Angus Young, Bon Scott, Phil Rudd, Marc Evans, Cliff Williams e Brian Johnson, era o chefe de um bando que teve baixas ao longo do caminho, porque o caminho foi longo e trilhado sem economias. Malcolm dedicou a vida ao rock and roll e morreu. Aos 64 anos, quando a maioria das pessoas escolhe parar para viver.
Não importa o que Angus escolha fazer daqui pra frente, ou o que escolheu fazer desde 2014, quando Malcolm saiu da banda, devido à doença degenerativa que o vitimou neste sábado. Não se trata de julgar este ou aquele substituto, não se trata de preconceito com nomes ou estilos musicais. Trata-se de dignidade. De aceitação. De entender que o tempo passou e de agradecer todos os dias porque a música ficou. E com ela a possibilidade de resgatarmos por alguns momentos a juventude que mora em nós.
Morte de Malcolm Young
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