Dia Mundial Do Rock: uma reflexão sobre a data
Por Claudinei José de Oliveira
Fonte: rollandorocha.blogspot
Postado em 13 de julho de 2015
Sabemos muito bem que as datas comemorativas existem com intuito comercial. Quem gosta de algo não precisa de uma determinada data para lembrar que ele existe. As datas comemorativas são arapucas para capturar incautos. Sem contar que é, também, um convite para, no restante do tempo, esquecermos daquilo que é comemorado.
O rock está, no seu nascimento, intimamente ligado ao sentido de três palavras: "liberdade, rebeldia e transgressão". Em seus primórdios, quando atende melhor pelo nome de rock'n'roll, o rock foi deliciosamente inconsequente, intransigente e descerebrado e o roqueiro marginalizado pela sociedade. Em 1958, quando o rock tinha mais ou menos três aninhos de idade, seu ícone maior vai servir o exército e passa a cultivar a imagem de genro dos sonhos de toda mãe de família. Para muitos, o rock morreu aí. Aí vieram os Beatles com aqueles terninhos e cortes de cabelo remetendo a ginasiais retidos numa bolha de eternidade, cumprimentando o público como se tivessem executado um concerto erudito. Ou seja, nada menos rock'n'roll. Paralelamente, através da música "folk", Mr. Dylan iniciava o processo que acabaria levando o rock a ser encarado como manifestação cultural séria.
É lógico que, ao longo de sua história, o rock desintoxicou-se de seus excessos, sempre retomando o básico de sua simplicidade, daí sua longevidade e relevância. O equilíbrio ou oscilação dentro do paradoxo "diversão/reflexão", ou seja, uma arte que amalgama em suas características elementos diametralmente opostos, além de aglutinar aspectos musicais os mais diversos em suas formas de expressão impediram a estagnação do rock. Em resumo, tem para todos os gostos.
Mas, para o "Dia Mundial Do Rock" fala mais alto o lado "sério", visto que o rock precisou ser meio madre Teresa de Calcutá, meio São Francisco de Assis, através do "Live Aid", para a ordem mercadológica decidir que ele merecia ser comemorado. Como se isso fosse necessário. Será que para quem gosta de rock não foi mais importante o dia em que Chuck Berry terminou de gravar "Johnny B. Goode", ou o dia em que um branquelo pé rapado entrou pela primeira vez na Sun Records, por exemplo?
É típico da cultura ocidental, onde o rock se desenvolveu, a crença na capacidade de mudar o mundo, na capacidade de construir um mundo melhor, o que legitima a razão, o humanismo mas, também, o capitalismo. Fazer isso através da arte seria o suprassumo da "utopia". Mas,"utopia" tem que continuar "utopia", senão vira realidade e toda arte, inclusive o rock, é uma espécie de descanso da realidade. No equilíbrio entre a sagacidade e a inconsequência, um roqueiro brasileiro, muito antes do "Live Aid", já vaticinava:
"Não quero
Mudar o mundo com esse papo furado
Só acredito em quem pulou o cercado
Quatro bulldogs vigiando o portão."
E viva o rock.
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