"Imagine": Utopia só na poesia
Por Claudinei José de Oliveira
Fonte: rollandorocha.blogspot
Postado em 14 de março de 2015
A música Imagine, de John Lennon, é um atentado à humanidade, não por ser piegas, brega, pegajosa, como, de fato, é, mas, principalmente, por suscitar, em seus versos, condições altamente perniciosas à psiquê: dê ao ser humano o equilíbrio, a satisfação, a segurança e ele, enquanto ser, definha. Aquilo que faz do ser humano, humano, foi resumido pelo velho Schopenhauer da seguinte forma: "dê-lhe a satisfação de um desejo e dois novos surgem no lugar". Não é à toa que todas as experiências históricas de igualdade social só foram garantidas com o uso da violência. Não é à toa que as condições propostas nos versos foram definidas pelos antigos gregos, sábios que só, como utopia: u = não; topos = lugar. Portanto utopia é o "não-lugar", ou "lugar que não existe".
John Lennon sempre nos ensinou que, dele, podíamos esperar tudo: desde o início dos Beatles se mostrou o "porra-louca" por excelência. Senão, vejamos: o lance dele afirmar que os Beatles seriam maiores que Jesus Cristo. Teve que baixar a franja e, nervosamente, tentar remendar o dito em entrevistas e se, como dizem por aí, Jesus o castigou, foi transformando-o em uma espécie de Cristo de segunda categoria com sua morte. As fotos nuas e o casamento com Yoko Ono dispensam comentários. Se envolveu com drogas pesadas e cantou, em Lucy In The Sky With Diamonds e Cold Turkey, por exemplo, suas experiências. Sabemos que para o bem ou para o mal, música é uma espécie de propaganda. Além de tudo, apoiou a esquerda radical e sabemos, muito bem, do resultado de experiências de governo baseadas no radicalismo esquerdista: extravasar todo o ódio acumulado no ressentimento em não ter sido governo na violência social, garantindo, assim, a "igualdade". No fundo, porém, John Lennon foi apenas um ser humano.
Mas um ser humano que não teve pudor em tornar público os fantasmas que o assombraram. Com isto, se tornou, literalmente, um alvo fácil. Ele próprio se definiu em entrevistas como "um palhaço capaz de rir de si mesmo": pode ser uma citação de Nietzsche mas pode ser, também, um tiro no próprio pé.
O biógrafo Philip Norman narra, no livro John Lennon: Vida, a história de que, no final dos anos 1970, entre vários investimentos, Lennon e Yoko compraram gado leiteiro e, quando o negócio não deu o retorno esperado, uma das pessoas envolvidas foi chamada para prestar contas. Diante de uma inquisição irada, tal pessoa teria, com muita presença de espírito, citado o verso "imagine no possessions", de Imagine, que pode ser traduzido como "imagine que não haja posses". Lennon, bufando de raiva, retrucou: "Isto é só a porra de uma música". Este é o John Lennon fascinante. De verdade.
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