Metal Nacional: originalidade e ousadia
Por Fabio Reis
Postado em 25 de agosto de 2014
Fazendo uma pesquisa sobre o que de novo a cena nacional está nos apresentando, me deparei com 4 bandas que considero totalmente diferenciadas das demais. É muito difícil soar original e inovador dentro do Metal hoje em dia, mas as vezes se consegue tal feito com ideias simples porém funcionais, que sendo executadas de forma correta, surtem efeitos mais que satisfatórios.
O Metal cantado em português não é novidade pra ninguém, existe um grande número de grupos que usam desse artifício, muitos com desenvoltura e alguns poucos com maestria. Mas o que dizer de bandas que não se limitam e cantam em português, inglês e até mesmo Tupi Guarani? Além disso, ainda se utilizam de uma pesquisa bem fundamentada e apresentam em suas letras, fatos históricos, regionais, folclóricos, culturais, temas mitológicos e pagãos e tenham ousadia suficiente para embutir sonoridades que remetem a cada um dos assuntos abordados com uma desenvoltura assustadora.
Temos quatro preciosidades em nossa cena, que são grandes desconhecidas da maior parte do público, mas que possuem uma identidade musical muito forte, com temáticas bem elaboradas e uma sonoridade convincente. Apresentam um Heavy Metal executado com brilhantismo, técnica e muito conteúdo. Fogem totalmente do estereótipo das bandas atuais e dão uma nova roupagem a um segmento que não possui mais tantos caminhos a serem desbravados.
O Cavaleiro Dragão talvez seja a que menos inove em se tratando de musicalidade. Se fosse comparar com alguma banda, diria que se assemelham a um Grand Magus brasileiro. A diferença é a abordagem dos temas, que apesar de terem sido usados em exaustão por bandas internacionais, nenhuma brasileira o fez como eles, cantando sobre a época medieval, cavaleiros, reis e dragões, mas tudo isso em Português. Com letras bem feitas, arranjos grandiosos e uma capacidade enorme de não soar um clone de inúmeros grupos do estilo.
A segunda banda, o Cruzadas, segue uma linha parecida, mas com certa diferença na sonoridade, que é mais pesada e direta. Os temas também são abordados de outra maneira, se diferenciam do Cavaleiro Dragão, pois, baseiam-se em fatores históricos, épicos, pagãos e mitológicos ao invés da ficção. Tudo isso, reflexo de muita pesquisa e estudo, levando o ouvinte a fazer uma verdadeira viagem sonora diretamente para os campos de batalha na idade das trevas.
A terceira surpresa que tive foi ao ouvir o "Debut" do Armahda, que trata de temas regionais, Lendas e folclores brasileiros além de episódios históricos e da cultura de nosso povo. Tudo isso feito de forma impecável e se utilizando de um Heavy tradicional com generosas pitadas de Power Metal. Em alguns momentos nos remetem a sonoridade do Grave Digger e em outros mostra influências de Blind Guardian, mas sempre com muita personalidade e originalidade. As músicas são em sua maioria, cantadas em inglês, mas quando se aventuram no português, o fazem com perfeição.
Após a audição dessas três bandas, que me surpreenderam totalmente, não esperava encontrar mais nada que se enquadrasse nessa proposta. Foi quando comecei a ouvir o primeiro trabalho do Arandu Arakuaa e percebi que estava tremendamente enganado.
Além de inovar totalmente na sonoridade, usando ritmos indígenas em meio a um Metal muito competente, que transita entre diversos segmentos como o Heavy tradicional e o Thrash mais certeiro, abordam a temática da cultura Tupi, com uma diferença gigantesca do que o Sepultura fez com os índios da tribo Xavante em "Roots". As músicas são cantadas em Tupi Guarani, o que dá uma atmosfera única ao trabalho. A agressividade e fúria se alternam entre momentos onde ritmos e cantos tribais são incorporados à música trazendo uma originalidade até então inédita.
Recomendo as quatro bandas, todas elas com nuances de genialidade, cada uma a sua maneira, usando características próprias e abusando do direito de surpreender os ouvintes. O metal Nacional caminha mais lento do que pode e deve, mas segue caminhando. De tempos em tempos nos brinda com ótimas bandas e às vezes consegue se superar como nestes casos.
Quem aprecia grupos que não dão foco total na sonoridade e trazem temas interessantes, pertinentes, bem estruturados e que não deixam nada a dever a maioria das grandes bandas internacionais, terão na audição dessas ótimas revelações, uma experiência muito agradável e satisfatória.
Metal nacional há muito tempo merecendo ser tratado com mais respeito e dignidade.
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