Ghost: apenas uns rostinhos bonitos com prazo de validade?
Por Mauricio Peccin
Postado em 08 de outubro de 2013
Certa vez, li uma interessante troca de comentários sobre o grande sucesso e a importância do álbum "The Downward Spiral", da banda NINE INCH NAILS (NIN para os íntimos), onde alguém alegando que o mesmo seria superestimado disse:
- "se você tirar todos esses efeitos sonoros e a produção esquisita, ele é só um bom álbum de rock"
Ao que outra pessoa sabiamente respondeu:
- "então não tire esses efeitos sonoros e nem a produção esquisita e deixe ele ser um grande álbum seja lá do que for".
Lembrei disso para falar sobre a polêmica que cerca a banda GHOST, que se apresentou no Rock in Rio recentemente. Ela é isso tudo, mesmo? A salvação? A coisa mais legal e original dos últimos tempos? São uma trupe de enganadores pretensiosos? Apenas uns rostinhos bonitos com prazo de validade?
A resposta, certamente, é NÃO para todas as perguntas, assim como seria para o NIN na época do "The Downward Spiral". Algumas pessoas vão gostar de algo e outras não, algumas pessoas vão elevar algo aos céus e outras vão empurrar para o limbo da vala comum. Natural que seja assim com tudo, sempre. O fato de o GHOST estar na mídia, agora não só a especializada, amplifica ainda mais uma discussão que não é exatamente nova: debatia-se coisa semelhante sobre o SLIPKNOT na época em que estourou, outro grupo de mascarados misteriosos com um som que mesclava várias influências, mais e menos atualizadas, num resultado final bem diferente da soma de suas muitas partes. Seja como for, o grupo também foi chamado de tudo o que o GHOST é hoje, talvez excetuando-se o aspecto do retorno à raízes de um tempo saudosamente alçado ao posto de superior. Voltando um pouco mais no tempo, poderemos encontrar a mesma discussão acerca de KISS, KING DIAMOND, vários artistas do Black Metal e muitos outros.
O que me chama de fato a atenção para esta reflexão é que o GHOST junta, nos dias de hoje, uma série de fórmulas também mais e menos antigas (algo de METALLICA em riffs, uma levada BLUE OYSTER CULT, KING DIAMOND dá um tempero aos vocais e tons de guitarra, THE DOORS suscita algo de psicodelia e por aí) e faz um som de características e composição razoavelmente modernas trabalhado num estilo de produção que soa mais antigo e leve que o habitual hiper saturado que ouvimos nos últimos anos. O NIN fazia parecido misturando influências de Rock Clássico, Gothic Rock, Industrial e até guitarras a lá PINK FLOYD aqui e ali com uma produção calcada na linha abrasiva e moderna de gente como SKINNY PUPPY e MINISTRY, além de outros papas do Industrial que apareceram antes. Sua produção era "oca" e distante, repleta de pequenos detalhes sonoros, bem diferente do padrão da época calcado na organicidade suja das bandas Grunge e na limpeza excessiva do Pop.
Os dois conjuntos souberam mesclar imagem (os contundentes clipes do NIN e a presença de palco "satânica e blasfema" do GHOST) com estilos de produção diferentes, ainda que não exatamente inovadores, daqueles primordialmente executados em suas épocas. Fundiram o "elemento Kiss" de imagem, ainda que de formas diferentes, ao talento pop de condensar diversas influências num som característico e, mais importante para mim, embalado num trabalho especial da sonoridade. Sim, "The Downward Spiral" é apenas um bom álbum de rock sem tudo o que o torna especial, assim como GHOST pode ser apenas um bom grupo de rock/metal sem tudo o que o torna especial. Então não tiremos destes grupos o que os torna especiais nem os critiquemos por essa "especialidade". Identidade é o artigo mais raro e caro na música atual, afinal.
Diferente do que acontece com o NIN, não sou fã de GHOST, não gosto do estilo que emulam e nem tenho qualquer apreço especial por suas influências, mas acho louvável o que fazem e torço para que prossigam nesse caminho. Pode ser que eu esteja enganado e ouvindo coisas, mas me parece que essa pegada mais frouxa e orgânica no aspecto da sonoridade vem influenciando outras bandas (grandes como o Avenged Sevenfold e nem tanto quanto Kylesa) em seus mais recentes lançamentos (respectivamente, "Hail To The King" me soa muito como "Opus Eponymous" em sua mixagem e "Ultraviolet", do Kylesa, parece ter bebido de uma psicodelia menos dura e mais dançante do que a dos trabalhos anteriores) e isso me dá esperanças de estarmos, enfim, saindo de uma época negra para a produção sonora. Mesmo bandas fora do espectro mais pesado, como o PLACEBO, parecem ter sido influenciadas por essa guinada: o último álbum da banda de Brian Molko, "Loud Like Love", soa muito mais natural e agradável aos ouvidos do que o super saturado e aterrador antecessor "Battle For The Sun".
Se o NIN influenciou, à sua época, o misto entre rock e eletrônico (se para bem ou para mal, vai do gosto pessoal), espero que o Ghost possa ajudar a trazer de volta à baila músicas mais divertidas, melodiosas e com um som menos enlameado e artificialmente alto como se ouve desde 2008 em tudo o que é lançado no rock, no pop e no metal. A "missa negra", os olhares denunciadores de Pope Emeritus II, o conteúdo escandalosamente (e besteiristicamente) profano e a pretensa falta de troozice do bando de sacerdotes zumbis são o que menos importa nessa brincadeira, a mensagem que eles parecem estar transmitindo é a de que uma pitada de simplicidade e humor besta também fazem um bom caldo.
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