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Os três primeiros dias do Rock In Rio III

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Por Thiago Sarkis
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Com apenas três dias, o Rock In Rio III já mandou mais informação para os amantes da música do que qualquer outro festival já realizado. Dúvidas, revolta, incompreensão, felicidade, ânimo e dezenas de outras coisas surgem na cabeça de uma pessoa que assiste a essa salada de estilos tão insana.

Quem seria louco de dizer, em pleno século XXI, com total dominação capitalista, que um evento com números tão estrondosos e com dinheiro rolando até não poder mais, consiste em um fracasso? Ninguém. Afinal, o que nossa sociedade valoriza e nos ensina a valorizar é a quantidade e não a qualidade. E em matéria de quantidade, o Rock In Rio é imbatível. Mais de 100 bandas/artistas, com mais de cento e cinqüenta mil pessoas assistindo aos shows na Cidade do Rock, todos os dias. Sendo assim, estamos de fronte a um sucesso indubitável, certo??? Talvez...

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Dia 12/01/01 – Sexta-Feira – O começo do ROCK (???) IN RIO III

O começo do Rock In Rio não poderia ser mais inadequado. O artista mais próximo da primeira palavra que denomina o festival foi Sting e, mesmo assim, atualmente está a uma distância absurda do que poderíamos considerar rock. Não dá pra levar nem como pop rock.

Ninguém tem dúvida do talento de Gilberto Gil, Milton Nascimento e muito menos dos músicos da Orquestra Sinfônica que se apresentou. Porém, o que eles fazem no Rock In Rio? É difícil entender mas vamos levando pois os organizadores do evento pela primeira vez na história tiveram bom senso de colocar artistas de estilos totalmente fora do rock juntos em um mesmo dia, o que selecionou o público e evitou deixar os fãs de rock esperando por horas para ver uma ou outra banda de seu agrado.

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Gilberto Gil foi, entre os brasileiros, o que mais se adequou ao público que, pelo menos inicialmente, deveria ter alguma ligação com rock. Daniela Mercury foi mais uma das palhaçadas que aprontam, volta e meia, no Rock In Rio. "O amor de Julieta e Romeu"? Axé? Nádegas balançando para os lados? Só pode ser brincadeira!

James Taylor e Sting quase colocaram o pessoal pra dormir. Só faltou cantar "Nana nênem". Cada música mais sonolenta que a outra. Só que foram colocados no dia certo para tocarem e assim como Gil e Milton Nascimento, têm uma história e uma certa simpatia que faz com que sejam respeitados mesmo pelos que não apreciam sua música.

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Dia 13/01/01 – Sábado – Começa o rock

Com certeza o dia da apresentação de Foo Fighters e R.E.M. era um dos mais esperados. E o retorno foi excelente não só pelas boas apresentações das atrações principais mas pelos shows surpreendentes de Cássia Eller e Barão Vermelho.

Cássia incorporou o rock, literalmente. Tocou músicas de outros artistas, apresentou versões mais pesadas de músicas tradicionais brasileiras e agradou imensamente os espectadores. Inclusive com suas músicas próprias que se encaixaram muito bem na apresentação que fez.

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O tempo todo o público gritava "Nirvana", ciente de que Cássia Eller costuma tocar uma ou até mais músicas do grupo em seus shows e, na apresentação no RIR, não poderia faltar. "Smells Like Teen Spirit" incendiou a Cidade do Rock e deu mais força ao forte laço, já existente entre o público e Cássia Eller.

A presença de palco da cantora é algo espetacular. Não digo isso por ela ter colocado os peitos de fora, ou ter tomado outras atitudes ‘diferentes’ no decorrer de algumas músicas. A presença de Cássia é eminente. Seu carisma é impressionante e foi com ela que o ROCK in Rio começou.

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Na seqüência Fernanda Abreu, que tinha tudo para dar um banho de água fria no público, acabou não fazendo feio. Conseguiu segurar a onda e levar a galera com tranqüilidade. Contou também com a comemorada ausência do Funk N’ Lata que se apresentaria ao lado dela e tocaria músicas de ‘altíssimo’ nível como "Boquete".

Volta o rock e com mais artistas brasileiros. Os músicos do Barão Vermelho fizeram um dos melhores shows do Rock In Rio, mandando clássicos seus e de outros artistas. O grupo vai entrar de férias e deixará saudade.

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Bom, as guitarras finalmente começavam a aparecer no festival. A bateria já tinha mais pegada, o baixo mais presença e o vocal mais potência, até que...

Entra Beck com todo seu estilo ‘moderninho’ e esfria o que parecia começar a ficar bom. Mais uma mancada dos organizadores. Talvez se tivesse se apresentado um dia antes, Beck teria sido menos chato e impróprio. Só que a turminha de Medina quis assim e lá foi o mala cortar o clima criado pelos brasileiros. ZzzzzzZzzzzz. Que sono, hein?

O Foo Fighters é esperado com ansiedade por um público sedento por rock. Dave Grohl empolga e cativa o público, mesmo com as músicas mais desconhecidas, e mostra simpatia e o principal: deixa estampada no rosto a felicidade de estar tocando para o brasileiros sem soar falso e clichê como grande parte das bandas. Rock de cabo a rabo do primeiro ao último acorde. Momentos especiais com Grohl tocando bateria lembrando os tempos de Nirvana e com a comemoração no palco do aniversário do líder do Foo Fighters. O clima tinha ficado bom, finalmente, e estava na hora do R.E.M.

Michael Stipe entra no palco e encara mais de 150 mil pessoas de um país que espera para vê-lo há mais de duas décadas. O R.E.M. conseguiu fazer um show completo com sentimento, muita emoção e a participação intensa do público. Mesmo as baladas, típicas do grupo, empolgaram a fizeram a alegria dos presentes. As mais famosas, como "Losing My Religion", "Daysleeper", "Everybody Hurts" ganham proporções inacreditáveis ao vivo principalmente pelo fato de todos os membros do grupo serem bem carismáticos, passarem uma energia inacreditável e se identificarem com os fãs. O R.E.M tem calor humano mostrando que é possível haver um contato entre o ídolo e o fã e que os popstars não são, nem de perto, deuses inatingíveis. Isso é essencial para o sucesso obtido pelo conjunto.
O segundo dia do Rock In Rio III começou bem, teve seus baixos e foi fechado com chave de ouro por uma banda totalmente introspectiva, nada espalhafatosa e extremamente carismática.

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Dia 14/01/01 – Domingo – Guns ‘N’ Roses e seus coadjuvantes

Nada mais esperado nesse festival do que o retorno do Guns ‘N’ Roses. Como será que a banda estaria sem Slash? Como Axl estaria cantando? Como seriam as novas músicas? Essas e outras perguntas estagnavam na cabeça de todos. Porém, o público teria que esperar um pouco pois, antes do retorno do Guns, muitas coisas (e cabeças) iriam rolar.

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O Pato Fu abre o dia mostrando-se nervoso e sendo recebido de uma maneira não muito sutil pelas milhares de pessoas presentes. As gracinhas de Fernanda Takai e o estilinho música de menininha alegre não agradava ninguém. Só dava pra sentir uma preguiça crescente no ar. No entanto, os membros da banda têm um censo crítico apurado e ao notarem que a maré não estava pra peixe, resolveram enrijecer um pouco o som das guitarras e dar um pouco de peso àquela melação sem fim. Conseguiram se safar de um grande vexame, mas deixaram o clima extremamente tenso.

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É a hora de Carlinhos Brown entrar e o circo se armar. Óbvio. Tudo muito previsível. Só o mais tolo dos tolos não tinha consciência do que estava para acontecer, especialmente depois do clima não ter ficado tão bom com a apresentação do Pato Fu. Lá vem um palhaço, com dinheiro até o último fio de cabelo, vestido de índio, se dizendo nativo e tocando aquela baboseira que todo mundo conhece. Aquele axé moderninho que dá no saco.

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Será que é tão difícil entender que esse tipo de som não cola em um festival desses, ainda mais em um dia, no qual uma banda mais pesada é a grande atração? Rockeiro não é mal educado, e muitos menos desrespeita o ser humano. Quem faz isso, sempre, todo Rock In Rio, são os organizadores do evento. Na tentativa de agradar a gregos e troianos (será que é esse mesmo o objetivo?) colocam músicos de estilos não relacionados a rock em dias de grandes conjuntos que fizeram fama com a música mais pesada. O resultado disso são as ofensas e garrafas direcionadas ao mané que, com a ânsia de arrecadar mais um pouco de grana, aceita o convite de se apresentar no palco principal e fazer um baita papel de palhaço. E frases como: "eu sou da paz, nada me atinge" ou "vocês têm que aprender a respeitar o ser humano" de nada servem em um momento de ira total. Um público que já suporta, durante todo o ano, a imposição do lixo musical de axé/pagode em seu país, não tem como agüentar o tranco de ver esses estilos musicais (?) invadirem a sua praia e o seu espaço ainda mais em um festival que leva o nome de ROCK in Rio.

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Passado o vexame, é hora de restaurar e voltar a pensar no que está por vir. Ira! e Ultraje a Rigor conseguem restituir um clima favorável, mostrando mais uma vez a força que o rock brasileiro teve nos anos 80. Presença de palco, músicas empolgantes, covers de músicas mais famosas e que agradam os fãs de rock ‘n’ roll fazem da apresentação de mais dois grupos brasileiros. Um sucesso.

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O Papa Roach entra, sem fama alguma, e encontra uma platéia com diversas interrogações na cabeça sem saber o que esperar da banda. Entre riffs repetitivos de guitarra e letras bobinhas com "fuck" para todos os lados, salvaram-se todos. Não foi uma apresentação eletrizante, porém foi levada numa boa por um líder encantado com a dimensão do festival onde estava tocando.

Um dos momentos mais esperados estava chegando. O Oasis com fama, músicas famosas e vendas estonteantes em todo o planeta, chegava com tudo para fazer um grande show. Mas não o fez. Aliás, a apresentação do grupo foi bem longe disso. Chegou perto do ridículo. Óculos escuros, casacos, frieza e aquelas poses de popstar. Ih... isso não dá certo no Brasil. Pelo menos em cima do palco não funciona. Nem "Supersonic", "Wonderwall" e a introdução de "Whole Lotta Love" do Led Zeppelin conseguiram empolgar o público, que se deparou com um iceberg chamado Liam Gallagher. Um músico que entrou mudo e saiu calado, nem sequer se despedindo dos espectadores. Noel Gallagher deu a impressão de ter percebido a gravidade e a infelicidade da apresentação da banda e tentou se ligar mais com a platéia, mas com as atitudes frias de seu irmão, ficou difícil. O Oasis fez um show para seus fãs e não para um público variado, que gosta de rock e não especificamente de Oasis. Por isso, deu no que deu.

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O fim do fraco show do Oasis e o atraso do Guns ‘N’ Roses, deixaram uma expectativa incrível. Finalmente havia chegado a hora do retorno do Guns. Axl Rose e sua turma entram no palco repetindo as primeiras notas de "Welcome To The Jungle" diversas vezes e deixando as mais de 200 mil pessoas presentes na Cidade do Rock em estado de ebulição.

Os novos membros da banda são excepcionais e Axl Rose fez questão de valorizá-los durante todo o show. Porém, com certeza muitas pessoas ficaram com um certo vazio em relação à guitarra. Os três novos guitarristas são bons músicos, mas fica complicado ocupar o lugar de Slash. Por maior e mais completa que seja a técnica. Por mais simpatia que o cara tenha, como o caso de Robin Finck, é difícil ficar no lugar de Slash. Os fãs sentiram a falta do guitarrista.

Axl conversou bastante com o público durante o show, foi simpático e mostrou que tem um certo jeito para a política. Tudo ia muito bem e já tinha rolado até música de Tim Maia quando, de repente em uma daquelas pausas no show, entra a bateria da escola de samba Unidos do Viradouro e começa a baixaria toda de novo. Cerca de seis morenas acompanham a bateria, dançam, viram aquelas bundas rechonchudas para o público e trazem aquela imagem de Carla Perez e Scheilas da vida. Saem no meio da multidão, acompanhado pelo pessoal da bateria e assim como Carlinhos Brown, são presenteados com garrafinhas de plástico e insultos para todos os lados. Mais uma vez, totalmente previsível.

A banda voltou, tocou mais e fechou com "Paradise City".

Algumas coisas que ficaram claras:

1. Axl Rose não está em sua melhor forma, e não me refiro ao físico. A verdade é que o cara não tem a potência que tinha na voz.
2. O novo álbum da banda vai ter fortes ‘flertes’ com música eletrônica.
3. Buckethead é excelente, mas mecânico demais. O comedor de frangos, com aquela frieza toda, deveria ter acompanhado o Oasis. Pelo menos daria um pouco mais de técnica à música dos ingleses.
4. Slash faz falta.
5. As músicas novas não são lá essas coisas.
6. Apesar de todos os problemas e detalhes a serem conversados e arrumados na banda, o Guns continua com muita força e uma legião incrível de fãs.
7. Fechou a terceira noite com chave de ouro. Com o melhor show do Rock In Rio III até agora.


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Sobre Thiago Sarkis

Thiago Sarkis: Colaborador do Whiplash!, iniciou sua trajetória no Rock ainda novo, convivendo com a explosão da cena nacional. Partiu então para Van Halen, Metallica, Dire Straits, Megadeth. Começou a redigir no próprio Whiplash! e tornou-se, posteriormente, correspondente internacional das revistas RSJ (Índia - foto ao lado), Popular 1 (Espanha), Spark (República Tcheca), PainKiller (China), Rock Hard (Grécia), Rock Express (ex-Iugoslávia), entre outras. Teve seus textos veiculados em 35 países e, no Brasil, escreveu para Comando Rock, Disconnected, [] Zero, Roadie Crew, Valhalla.

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