Legião Urbana: Exposição e CD realimentam o mito de Renato Russo
Fonte: Folha Ilustrada
Postado em 23 de março de 2004
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo
Vai começar tudo outra vez. O culto a Renato Russo (1960-96) volta a ganhar corpo, à custa de mais um lançamento da Legião Urbana e de uma grande exposição em Brasília, terra natal da banda do artista que completaria 44 anos no próximo sábado.
O disco, sexto produto póstumo com a assinatura de Renato Russo, recupera um show da banda no Parque Antarctica, em São Paulo, na turnê do disco "As Quatro Estações" (89). Sai no final deste mês, pela gravadora EMI.
A mostra, que será aberta no próximo dia 5, faz um inventário da vida de Renato por meio de manuscritos, fotos de família, vídeos caseiros etc. Uma das curadoras é Carmem Teresa Manfredini, 41, irmã do artista. A outra é Renata Azambuja, 39, artista plástica e professora da Universidade de Brasília, que diz nortear seu trabalho numa tentativa de relativizar o mito em torno de Russo. "Minha linha é não trabalhar com o mito, eu me distancio disso."
Legião Urbana - Mais Novidades
Carmem, que gerencia o patrimônio do irmão a partir da morte do pai de ambos, neste mês, também busca o afastamento. "Já pensei muito sobre isso, nossa família nunca foi de mitificar o Renato. Fomos sempre modestos, para nós ele era só o Júnior."
Ela relembra a morte de Renato, há oito anos, em decorrência da Aids. "Eu e meus pais pensamos, juntos: 'Daqui a um ano ele vai estar esquecido'. Para nossa surpresa, o mito aumentou, duplicou. Acho que as pessoas elegem e criam seus mitos. Mas não queremos mitificá-lo na exposição."
O mito não pára de crescer, entretanto, até adquirindo contornos necrófilos em certas ocasiões. A família aprovou, por exemplo, o lançamento de "Renato Russo Presente" (2003), que acolhia material não concluído e de baixa qualidade técnica. "O próprio Renato falava que gostava de coisas meio piratas, toscas de outros artistas. Não pensamos no aspecto financeiro, mas na continuidade da obra", defende Carmem.
Ela diz, mesmo assim, que a vigilância da família é constante. "A primeira coisa que perguntei quando recebi a correspondência da EMI falando do projeto para o novo disco foi qual era o propósito. Defendi que mantivessem as falas do Renato no show, se cortassem, não teria originalidade."
Os ex-colegas de banda Dado Villa-Lobos, 39, e Marcelo Bonfá, 39, defendem o lançamento de "As Quatro Estações ao Vivo".
"É bem verdade que poderíamos não ter autorizado esse lançamento da EMI, o que não foi o caso", diz Bonfá. "Na minha opinião, todos os trabalhos da Legião Urbana que ainda não foram mostrados ao público podem e devem ser lançados, depois, é claro, que tiverem sido analisados por mim e pelo Dado." Para Villa-Lobos, "a idéia de lançamento desse disco veio da EMI e foi bem recebida como uma boa idéia, de conteúdo e valor histórico".
"Enquanto essa relação continuar assim, vamos lá. Caso contrário, eles sabem como nos comportávamos quando contrariados. Na época pichávamos as dependências da gravadora. Agora, em fase adulta, a gente chama os nossos 50 advogados", completa.
Dado, que faz questão de ressaltar que não tem nada a ver com a mostra de Brasília, não dispensa certo tom crítico em relação ao material que não passa por sua autorização. "Jamais enquanto artista e membro fundador do conjunto eu permitiria o canibalismo predatório do repertório da Legião, o que acho que não valeu para o repertório do Renato. Dois discos mais sobra viraram uns oito discos diferentes", exagera.
Mesmo que exageros e abusos assediem todos os lados da história, as curadoras da mostra tentam avançar na compreensão do mito. Diz sua irmã: "Renato sempre foi muito honesto com a mídia e consigo mesmo. Ele era gay, pansexual, era alcoólatra, dependente químico, mas declarava tudo isso, ele mesmo. E havia também toda a parte espiritual dele, de dizer 'Deus é meu guia' e tal".
Renata Azambuja adiciona outros ingredientes sedutores para o público: melancolia e culpa. "Renato era muito 'blue'. Tentou se matar, cortou os pulsos e escrevia sobre isso", afirma. "Tinha uma culpa, que acho que era cristã."
Renata evidencia o que pode ser um dos destaques da mostra, o material manuscrito em que o Renato Russo adolescente sonhava-planejava sua futura banda.
"Ele listava todas as supostas turnês do grupo, fazia a árvore genealógica das formações, criava notícias de jornal do tipo 'por que Jeff Beck saiu da banda'."
Renato Russo já sabia do mito, muito antes de ele existir?
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O guitarrista apontado como melhor do mundo que Alex Lifeson não curte: "Não me tocava"
Sepultura esgota ingressos do último show da carreira
A banda inglesa que recusou Rock in Rio 1985: "Pessoas decidiram que não era boa ideia"
Mantas, guitarrista original do Venom, homenageia Cronos
Power to the People, festival organizado por Tom Morello, será transmitido ao vivo
Gary Holt e Mille Petrozza homenageiam Cronos, falecido nesta quinta-feira
O curioso tema do TCC de Fernanda Lira que professora reprovou e a fez largar a faculdade
Scott Ian (Anthrax) lembra como reagiu quando o Metallica demitiu Dave Mustaine
A lenda nordestina que é o Van Halen brasileiro, segundo Rafael Bittencourt
As 5 melhores músicas do Metallica que foram gravadas por Cliff Burton, segundo a Revolver
Nightwish lança novo videoclipe "Tribal (Live In Amsterdan 2022)"
A letra do AC/DC que Brian Johnson escreveu sem entender o que queria dizer, mas a banda entendeu
A arrepiante música do Nirvana que foi sua última gravação e último hit
A música do Queen que Freddie Mercury considerava melhor do que "Bohemian Rhapsody"
Brian May diz que gravar com Axl Rose foi "uma experiência estranha"
A música do Rainbow que Ritchie Blackmore chama de "a definitiva" da banda
A canção da Legião Urbana sobre a qual Dado Villa-Lobos errou em seu livro
O hit da Legião Urbana que foi mal interpretado como apologia ao fascismo
Por que IA vai imitar melhor Chico Buarque do que Renato Russo, segundo escritor
A gravação inédita da Legião Urbana que ainda pode ver a luz do dia
Os clássicos do rock nacional que são os favoritos de Lito Sousa, do Aviões e Músicas
A reação de Carlos Trilha quando gravadora propôs R$ 400 por sua obra na Legião Urbana



