Destra: Metal em nome de Deus
Fonte: AOL Música
Postado em 07 de abril de 2005
Por Thiago Cardim, da Redação AOL
Rostos pintados de forma demoníaca, sangue de mentira espirrando por todos os lados, lanças e machados empunhados ao lado das guitarras e baixos e, é claro, as óbvias cruzes viradas ao contrário e o número "666" no fundo do palco. Se esta é a única visão que você tem do heavy metal, é melhor dar uma repensada no conceito. Atendendo por uma série de nomes (do popular "white metal" ao coloquial "metal gospel"), o heavy metal cristão é uma variante que ganha cada vez mais força entre os fãs graças ao excelente trabalho de bandas como os alemães do Seventh Seal ou os brazucas do Eterna e do Destra. Estes últimos, por sinal, estão lançando o excelente "Joe's Rhapsody" (Hellion Records).
"Somos pessoas que acreditam em Deus, mas não somos santos". faz questão de ressaltar o vocalista Rodrigo Grecco, em entrevista para a AOL. "Somos seres normais, acordamos e vamos à luta todos os dias, errando, caindo, levantando. Nós não gostamos dessa imagem gratuita da religião, não queremos explorar em nenhum sentido a fé de ninguém". Exatamente por isso, eles preferem evitar rótulos para não afastar nenhum ouvinte em potencial de seus álbuns. "O som do Destra é para quem gostar e quiser ouví-lo e não apenas para um grupo de pessoas. Acreditamos em Deus, mas gostamos de tocar metal. Não vamos ser castigados e nem salvos por isso", completa.
Surgido em 99, o quinteto foi fundado pelos irmãos Ricardo (baixo e voz) e Eduardo Parronchi (guitarra). Hoje em dia, além de Rodrigo, também fazem parte do Destra os músicos Maxsuel Rodrigo (teclado) e Fábio Fernandes (bateria e percussão). As influências variadas - heavy metal, hard rock, rock progressivo e até a MPB regional - acabaram fazendo que o quinteto não se tornasse exatamente uma unanimidade entre os headbangers. "Cara, existe gosto pra tudo. Compreendo quem não gosta. Por exemplo: não gosto do Latino, mas muitas pessoas gostam. Há público para qualquer tipo de música", esclarece Rodrigo em tom político.
Em "Joe's Rhapsody", a canção que melhor cristaliza esta diversidade é "Goodbye Blue Sky", que mistura uma levada progressiva a la Rush com percussão tipicamente baião, violinos e o que eles chamam de "guitarras a la Armandinho". "Esta faixa conta o momento da prisão de Joe, que é uma divisão de águas nas letras do disco, pois ele dá adeus ao paraíso para se encontrar com o inferno".
Ah, sim: é bom deixar claro que "Joe's Rhapsody" é uma espécie de "ópera-rock" inspirada em obras setentistas como "Tommy" (The Who) e "Jesus Christ Superstar", um álbum conceitual que conta a ascensão e queda de um sujeito comum chamado Joe, que mergulha no mundo das drogas e acaba na cadeia. "É a história de um jovem que poderia ser qualquer um de nós", confessa o músico.
O projeto do disco começou em 2001, quando a idéia inicial era gravar algo como o festejado "Avantasia", do alemão Tobias Sammet, com a participação de diversos vocalistas incorporando personagens da trama. "Mas acabou não rolando, porque nossa antiga gravadora dificultou as coisas. Acabamos adaptando o disco apenas para duas vozes: a minha e a do Ricardo". Aliás, duas não: três. Afinal, o Padre Sandro Baggio, um dos pioneiros na luta pelo metal cristão no Brasil, participa de ""Wisdom Calls (The Preaching)" e ainda faz a voz de Joe. "Acima de de tudo, ele é um grande amigo, homem íntegro e conhecedor profundo também de rock. Ele curtiu muito participar do álbum e ficamos honrados e satisfeitos com sua interpretação".
Outro dos diferenciais de "Joe's Rhapsody" está no encarte - que traz a tradução de todas as letras, cantadas originalmente em inglês. "Dá acesso às pessoas saberem o que estamos querendo dizer pois, apesar de muita gente hoje entender e falar inglês, sempre existem as exceções". Para uma banda cuja mensagem é tão valiosa quanto o som, não haveria decisão melhor. Afinal, até Jesus era cabeludo...
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