JJ Thames: estrela blues em ascensão
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 05 de setembro de 2016
JJ Thames nasceu na Motowniana Detroit, mas faz um som super Delta do Mississippi, com influxo de soul music e uma pitada bem de leve de pop. Sua biografia é cheia de lances-pratos-cheios pra construção da figura da cantora sentida de blues: morou em abrigo pra sem-teto com os filhos, já cantou no metrô de Nova York, teve que largar a carreira pra ganhar trocados como gerente de restaurante para sustentar os guris. Enfim, a ainda jovem JJ já demonstra na rica voz a carga de poucas e boas por que tem passado.
Longe dos badalados centros musicais de LA e NYC, JJ Thames vive em Jackson, Mississippi e grava pela independente Dechamp Records, por isso não frequenta a mídia grande, mas nos sites de blues e blogosfera alternativa, já é considerada forte promessa de dama.
Em abril de 2014, estreou no mundo fonográfico com Tell You What I Know, cuja faixa-título encerra em tom autobiográfico um álbum composto de blues e souls lentos, em sua maioria.
A abertura, Souled Out, não deixa dúvidas sobre a história de e tradição na qual Thames se insere: mencionando Motown (Detroit) e Mississippi e dizendo que contará sua história, a cantora já mostra do que é vocalmente capaz num gospel, sucedido por Hey You, blusão com gaita rasgada e tudo, daqueles que dá para entender bem porque o rock veio dessa matriz. A sexy I Got What You Need também tem gaita envenenada e é rhythm’n’blues com banjo, o que dá gostinho bluegrass no fundo. My Kinda Man é soul, cuja letra é meio estranha em 2016, por se inserir na tradição da adoração ampla, total e irrestrita pelo soberano macho. Mas, tudo bem, deve ser só postura estética, considerando-se a bio de JJ Thames. Can You Let Somebody Else Be Strong é linda balada gospel, enquanto I’Ma Make It tem seu espírito funk no blues.
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Tell You What I Know é visceral sem exagerar na gritaria (e JJ Thames tem tórax pra isso) e mistura diversos elementos de black music sem soar datado, porque a produção é moderna, mas é cru demais pra púbico estritamente pop talvez.
Mês passado, saiu o segundo álbum, Raw Sugar, mais diversificado, porque apresenta algumas canções mais energéticas e agitadas e com uma JJ Thames ainda mais senhora de seu poderio vocal; soltando a voz onde precisa, mas ainda sem cacoetes de diva esgoelante (não que eu tenha algo contra). A crueza do açúcar do título pode ser comprovada no bluesão à BB King da faixa-título e de Bad Man, I Don’t Feel Nothing ou Woman Scorned. Um dos trunfos de Thames é manter a "crueza" do blues, mas temperá-lo com aquela diversidade que parte do público mais popificado tanto preza. Nessas e em outras faixas, sobressai a guitarra do também produtor Eddie Cotton, mas jamais perde-se o foco: o destaque está na multinuançada voz de JJ.
Como no predecessor, Raw Sugar abre com um spiritual clamando por proteção divina a uma jornada. Na origem escrava do blues, essas letras sempre tiveram duplo sentido. A viagem pode ser a vida, mas também conta-se que nas plantações de algodão sulistas, os escravos usavam tais canções para combinar ou se referirem a planejadas fugas. Mito ou verdade, não sei, mas é bonito o significado.
Ao lado desse blues mais tradicional, lufadas Motown em I Wanna Fall In Love ou a deslizante brisa What’s Going On(ica) de Leftovers, puro Marvin Gaye. A letra dessa contrapõe-se à subserviência ao macho do álbum anterior, posto que Thames canta querer bofe só dela; não se contenta com restos de outra. Essa assertividade já se manifestara no bluesão I’m Leavin’, onde ela abandona um relacionamento destrutivo. O quinhão autobiográfico revela-se na balada Plan B (Abortion Blues), sobre a dureza de se decidir pela interrupção duma gravidez. Hold Me é uma valsa soul super 70’s e Hattie Pearl é rhythm’n’blues de orgulhar Ike and Tina Turner. E o rock veio do blues! Entre tanta coisa boa, o arraso fica pra balada soul Only Fool Was Me, onde Thames e o saxofone estraçalham.
Se seguir na linha ascendente indicada pelo par de álbuns, JJ Thames virará diva do blues, independentemente da grande mídia badalá-la.
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