Se essa formação do Sepultura não for a verdadeira, eu não sei qual há de ser
Por Herick Sales
Fonte: Blog Herick Sales Guitar
Postado em 23 de fevereiro de 2020
Quando o Sepultura lança um álbum novo, sempre leio esse comentário em algum lugar: "Esse não é o verdadeiro Sepultura". Bem, e o que seria esse tal de "verdadeiro" Sepultura? Sempre há a explicação de que sem os irmãos Cavalera não é Sepultura, etc, etc. Ora! Se formos na essência de tudo, esse Sepultura "verdadeiro" era o que tinha Wagner Lamounier, ou o Jairo Guedez (que gravou o álbum Morbid Visions). Levando o mesmo raciocínio para outros casos, o "verdadeiro" Deep Purple acabou com a entrada do Ian Gillan e o verdadeiro Iron Maiden acabou com a saída do Paul Di'Anno. Então, podemos falar que gostamos mais da fase X ou Y sem problemas, mas essa de "verdadeiro" soa sem fundamento.
O pilar central da banda atualmente é o Andreas Kisser, grande guitarrista que entrou no segundo álbum Schizophrenia, ajudando a forjar o estilo thrash que passamos a associar ao Sepultura. De todos dessa formação que ficou tida como "clássica", Andreas é o que mais estudou música, tocando muito bem violão e tendo um gosto musical muito rico, indo desde MPB, passando pelo classic rock do Queen, o metal clássico do Sabbath e Judas, até o extremo do Venom. E isso pode ser notado na evolução musical da banda nos álbuns seguintes, que começaram a ser mais "bem tocados" e a ter influências brasileiras.
O Sepultura ganhou o mundo com Arise, Chaos AD e Roots, aí Max saiu. Essa história todo mundo sabe, e a banda continuou com Derrick Green nos vocais. A banda perdeu confiança de muitos fãs, do mercado, além de perder toda sua estrutura. Não estou fazendo juízo de valor de "certo ou errado", apenas constatando que num primeiro momento, todos "perderam". Max demorou um pouco para estabilizar o Soufly e fazer grandes álbuns e o Sepultura também. A diferença era o peso do nome Sepultura carregado pelos pacientes Andreas, Paulo e Derrick (o quanto esses caras responderam sobre reunião, sem serem deselegantes, não pode ser mensurado).
Se avaliáramos o recomeço de cada um (Sepultura e Max), os primeiros álbuns soam ainda perdidos e nas sombras do que foi o Roots. Fazendo um comparativo, essa ruptura seria proporcional a se o James Hetfield saísse do Metallica após a turnê do Black Album. Então não posso criticar pesadamente esse recomeço de ambos. São tentativas, com acertos e erros, e tudo bem.
Aí mais uma baixa: sai Igor Cavalera. Pronto: foi instalado o pretexto perfeito de que, sem os irmãos Cavalera, não é Sepultura. Calma lá! E a trajetória do restante da banda, não conta? Ambos saíram por que quiseram. Então entrou o excelente baterista Jean Dolabella, e lançaram o álbum A-Lex. Verdade que desde o álbum anterior, Dante XXI, a banda voltou lentamente a ser respeitada, e ter certo reconhecimento, mas a entrada do Jean deu novo fôlego ao Sepultura. Fôlego esse que veio com a volta do prestígio após o lançamento do excelente álbum Kairos, que se equipara facilmente aos clássicos da banda. O álbum trazia um som mais limpo e voltado para o thrash, e pôde trazer o Andreas "guitarrista" de volta, contendo mais riffs memoráveis, e mais solos de guitarra. Max também tinha se reencontrado em seus belos trabalhos com o Soulfly e o Cavalera Conspirancy, mas ainda assim o fantasma da reunião se mantinha vivo (muito mais devido as declarações ácidas geralmente vindas do Max, sejamos sinceros).
Aí veio a grande escolha da carreira do Sepultura, que foi a contratação do monstro Eloy Casagrande! Músico prodígio, bem mais jovem que os demais, que não trouxe sangue novo: trouxe alma nova! A riqueza musical dele, despertou no Andreas todas as outras vertentes que ele sempre carregou consigo, e inspirou mais o Paulo e o Derrick.
Então veio The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart. É possível notar a excelência técnica do Eloy e a liberdade que o mesmo teve para tocar. A produção, para mim, soa abafada e embolada para a quantidade de informação que foi colocada nas músicas, mas dava para notar que essa química seria lapidada e viria algo monstruoso.
E veio o Machine Messiah. Técnico, melódico, com riqueza rítmica e harmônica nunca vista na discografia da banda. Todos puderam extravasar musicalmente, e o sempre massacrado Derrick, pôde mostrar seu domínio vocal, indo do limpo ao mais gutural, criando climas e interpretações muito condizentes com a temática atual do álbum. Aliás, um ponto precisa ser esclarecido: Derrick é um excelente vocalista, com maior domínio vocal que o Max ("Ahhh, mas ele canta sujo demais!". E o Max canta igual a Frozen, por acaso?), e mesmo enfrentando preconceito (olhe os comentários no youtube, no clipe música "The Vatican", e veja alguns deles criticando o fato de ter um negro numa banda de metal), segurou a onda esses anos todos, e é muito legal ver do que ele é capaz.
Bem, aqui estamos, em 2020, com o álbum Quadra. Em questão de musicalidade, o Sepultura chegou no auge da carreira, misturando todas as suas influências, com tons góticos, muitos elementos de rock progressivo, thrash metal, passagens suaves quase eruditas, e uma evolução sensacional do Andreas Kisser. Ele sempre tocou muito bem, mas acredito que estar com Eloy o inspirou e subiu seu nível de uma forma, que acho que nunca vi antes. Lembro que ele citou gostar muito do álbum A Night At The Opera, do Queen, e guardadas as devidas proporções, ele hoje se encontra num estágio musical com o Sepultura, em que pode explorar esse ecletismo. Enfim, não os conheço pessoalmente, não sou advogado para defender ninguém. Sou apenas um professor de música, apaixonado por blues e rock em geral, e acredito que boas conversas sobre música sempre enriquecem.
A história musical de cada um, de cada banda, de cada obra artística pode nos fazer pessoas melhores. Para mim, o Sepultura chegou no seu auge de musicalidade, com seus 2 melhores álbuns da carreira: o citado Machine Messiah, e o atual Quadra. Não estou desmerecendo o passado e a glória (não a Cavalera) de álbuns como Arise e Chaos AD. Mas hoje temos um Sepultura que extravasa tanto tecnicamente, quanto musicalmente, aproveitando o que aprendeu no passado sem ficar preso ao mesmo. Se isso não for verdadeiro, eu não sei o que há de ser.
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