A crítica que Andreas Kisser faz ao rock nacional dos anos oitenta
Por Bruce William
Postado em 19 de fevereiro de 2023
Neste corte da participação de Andreas Kisser no Amplifica, apresentado por Rafael Bittencourt, a conversa estava girando em torno de solos de guitarra, com comentários sobre a genialidade de guitarristas fabulosos como Eddie Van Halen, que fazia solos fantásticos sem nem conhecer direito a música onde ele seria colocado, habilidade que poucos possuem. E nisso Rafael comentou que o fato de se colocar solo que a música não pede fez com que alguns produtores decidissem não colocar solo algum.
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"E com isso passamos anos sem solos nas músicas de rock", desabafa o guitarrista do Angra. "Essa é uma das grandes críticas que eu tenho ao rock nacional", concorda em tom de desaprovação o Andreas. "Você vê bandas como Titãs, Paralamas, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor". Neste momento Andreas faz um adendo: "O Ultraje tinha uma pegada até um pouco mais metal mesmo de guitarra. O Barão Vermelho é até um pouquinho menos tímido, mas o resto era muito..." sem completar a frase, Andreas faz sinal indicando que os músicos "pisavam no freio" nas guitarras.
Rafael joga então na roda uma possível explicação: "Reza a lenda que era uma coisa da indústria fonográfica". Andreas concorda dizendo "Total! Era pra rádio, tinha que tocar na rádio", e Rafael retoma a fala: "Exato. Mas eu acho que esses músicos, e eu endosso a tua indignação, que os músicos tinham que ter falado 'Não pô', eles tinham que brigar, porque a gente tem que ensinar as pessoas a gostar disso, a cultura da guitarra".
Andreas cita guitarristas como Lanny Gordin, (Luiz) Carlini, Sérgio Dias, a banda 14 Bis: "Uns puta guitarristas, fazendo uns puta solos, os solos sendo importante na música, daí vem a década de oitenta, ela mudou isso. Mudou o conceito. Tanto que eu detestava o Pedal Chorus. Porque todo mundo usava aquela porra!", diz Andreas, enquanto Rafael cai na risada.
Depois de dizer que hoje "fez as pazes com o Chorus", Andreas comenta que a causa daquela padronização era que haviam "dois ou três produtores que faziam todo mundo". Rafael comenta então trabalhos de artistas como Marina Lima e Lulu Santos e diz que ali havia sim uma guitarra presente, e Andreas concorda, mas explica que o problema era em relação à guitarra distorcida. "O Bellotto (Tony, do Titãs) me falou que teve que ir pro estúdio regravar guitarra pra tocar na rádio. É brutal isso, é brutal isso".
Rafael comenta que não entende o motivo que levava a aquela postura, já que era baseado apenas na pressuposição dos produtores que o público rejeitaria guitarras mais contundentes e com distorção, e comenta ainda que as rádios que tocavam as músicas eram as mesmas que tocavam coisas gringas com guitarras mais pesadas.
Andreas percebe então que jogar a culpa inteiramente nos produtores talvez não explicasse completamente a coisa, e questiona então se, na verdade, o que acontecia é que eram as bandas brasileiras que tinham uma proposta diferente, citando casos como o RPM onde praticamente não existia guitarra, e o som era calcado nos teclados. Rafael meio que concorda, perguntando inclusive qual seria a banda que se proporia a fazer um som com guitarra mais distorcida, e Andreas lembra a primeira edição do Rock in Rio de 1985: "Tá lá, AC/DC, Jake E Lee/Ozzy, Scorpions, e os brasileiros ali, tímidos. Eu lembro que o Herbert Vianna falou mal do Angus Young, que ele tinha o 'dedo duro' ou coisa assim, porque eu acho que tinha uma certa rixa, tipo 'a música tem que ser assim ou assado', aquela coisa de artista brasileiro não passar som e não ter as mesmas condições, aquela coisa meio ciúmes, um ressentimento, talvez". Por fim, conclui Andreas: "Mas tinha sim esse ranço do solo de guitarra. E o Herbert é um puta músico!"
A participação completa de Andrea Kisser no Amplifica, apresentado por Rafael Bittencourt, pode ser vista no vídeo abaixo.
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