Hangar 110: o ressurgimento e o legado do "CBGB nacional"
Por Jorge Felipe Coelho
Fonte: Rádio Catedral do Rock
Postado em 15 de março de 2020
Localizada no Bom Retiro, zona central de São Paulo, ao lado da estação Armênia do metrô, a tradicional casa de cultura punk alternativa Hangar 110 abriu as portas novamente. O anúncio, feito no instagram oficial da casa, diz que a partir do dia 1 de março a "The House" voltaria a ser chamada de "Hangar 110".
Marco "Alemão" e Cilmara, responsáveis pelo Hangar 110 desde 1998, atuaram apenas como produtores desde o fechamento da casa no final de 2017. Mesmo cientes das dificuldades, eles agarraram o desafio de voltar ao local pela representatividade que ele detém. No comunicado, a dupla descreveu assim o espaço: "além de ser o lugar que sempre amamos, o Hangar é também uma "ideia" e por isso lutamos muito para que essa ideia não se transformasse em um galpão vazio, um estacionamento ou uma igreja. "
O CBGB, emblemático clube de punk rock de Nova Iorque que nos anos 70 jogou luzes em grandes nomes como o Ramones, é sempre lembrado pelos amantes do Hangar 110. O clube norte americano serve como uma inspiração para a manutenção da casa, com capacidade para 640 pessoas, que possui aura de meca da cena punk/hardocre nacional dos anos 2000.
Desde a inauguração do Hangar 110, em outubro de 1998, passaram pela casa nomes importantes como CPM 22 (que fez o primeiro e o último show do local em 1998 e 2017, respectivamente), Raimundos, Blind Pigs, Dead Fish, Matanza, Hateen, Replicantes, Ratos de Porão, Gritando HC, Garotos Podres, Gloria, NX Zero, Fresno, etc. Os ex-Ramones Marky Ramone e CJ Ramone também fizeram shows por lá. Alguns artistas, além de apresentações, também gravaram registros ao vivo na casa. É o caso do Matanza, com o MTV Apresenta: Ao vivo no Hangar 110, de 2008.
O grande sucesso nacional do Hangar 110 também é entendido por todo o planejamento da casa e preocupação com as bandas e o público. Marco "Alemão" ajudava na fomentação da cena nacional. Em um projeto chamado Skema 110, recebia e analisava material de grupos iniciantes. Premiava as bandas selecionadas com a abertura para shows de nomes consagrados do punk, emo, hardcore e metal nacional. Em relação ao público, eram exigentes com organização e horários de apresentação das bandas para que as pessoas não tivessem dificuldades em voltar para casa na madrugada.
Várias bandas têm histórias que se confundem com a icônica casa alternativa da Rua Adolfo Miranda. Talvez a maior delas seja o CPM 22, visto que os ingressos para aquele que foi o anunciado último show da casa antes de seu atual retorno, em 23 de dezembro de 2017, se esgotaram em 20 minutos após o início das vendas. Às vésperas do fechamento em 2017, Badauí, vocalista do grupo, relembrou o primeiro show do local em 1998:
"Alguns meses antes da inauguração da casa, o dono me ligou e perguntou se queríamos fazer um show, pois ele iria abrir uma casa nova no Bom Retiro, perto do metrô, que tinha uma proposta de abertura cedo e fechamento antes da meia noite por conta do transporte público. Isso chamou atenção na época porque uma das maiores dificuldades de fazer show na madrugada era a molecada que curtia as bandas e deixava de ir porque não tinha como voltar para casa tarde... íamos ser a segunda banda da noite, mas uma banda de Santos acabou se atrasando ao subir a serra e, pelo respeito ao horário, nós fomos a primeira banda a tocar, o que ficou marcado na história do Hangar."
Outro representante de uma banda importante para o Hangar 110, o vocalista do Dead Fish, Rodrigo Lima, também falou sobre a casa:
"O Alemão era de uma banda punk, um cara que estava ali pra somar. Ele não era só um contratante ou um cara que estava ali num bar... ele entendia de punk... a forma do trato, a forma do contato... já era uma coisa bem diferente do que a gente via no resto do Brasil... se a minha banda tem um legado a ser deixado é também graças ao Hangar 110. O Hangar 110 foi o que quebrou a barreira do extremo Underground para uma coisa independente, mas com estrutura."
Essas e outras declarações podem ser conferidas no mini documentário 110 – Ponto Final. Editado por Thiago Monteiro, o vídeo mostra depoimentos colhidos em 2017, após o anúncio do fechamento da casa, e repercute com os músicos a importância e o legado que o espaço deixava para a cena punk rock nacional:
Por todo o esforço e empenho dedicado à manutenção de um local histórico para toda uma geração por quase 20 anos, Alemão e Cilmara já mereceriam grande reconhecimento. Espero que, com a reabertura, a casa possa reviver os tempos antigos e novamente oferecer o prazer de reunir amigos, beber uma cerveja, ouvir música verdadeira e, quem sabe, revelar novas bandas. Vida longa ao nosso "CBGB nacional".
Leia mais no Boletim do JF, disponível no link abaixo.
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