Neil Young revela como filho tetraplégico influenciou o álbum "Trans", de 1982
Por André Garcia
Postado em 19 de fevereiro de 2022
A tão aguardada autobiografia de Neil Young, publicada em 2012, lançada no Brasil pela Globo Livros, decepcionou a muitos fãs. Isso porque ele muitas vezes deixa sua carreira de lado para falar sobre outras coisas, como sua paixão por carros.
Apesar disso, há no livro passagens memoráveis, como a narração do aneurisma que por pouco não tirou sua vida em 2005. Outro momento interessante é quando ele fala sobre como seu filho tetraplégico influenciou o incompreendido álbum "Trans" (1982).
O veterano canadense começou lembrando que a chegada da década de 80 não o trouxe bons ventos: "As coisas tinham decaído um pouco na Reprise [sua gravadora desde o começo da carreira solo, em 1968], e meus dois últimos discos ["Hawks & Doves" (1980) e "Re.ac.tor" (1981)] não fizeram sucesso."
Adicionalmente, ele deixou claro que os fracassos não foram por culpa da gravadora, e sim porque "carreiras sobem e descem" e "alguns discos são hits, outros são ótimos, mas não comerciais." Citando "On the Beach" (1974) e "Tonight’s the Night " (1975) como exemplos, ele disse que "eles não eram ‘Harvest’ (1972) [um de seus maiores sucessos], mas eram boas representações do que eu fazia na época."
"Eu estava mais interessado em expressar o que sentia (...) do que em vender muito", concluiu ele antes de passar para o álbum seguinte:
"‘Trans’ foi inspirado no meu filho Ben e seus problemas de comunicação. Como consequência de uma tetraplegia, Ben não conseguia falar nem se expressar de forma compreensível para a maioria das pessoas, então fiz um disco em que eu cantava por meio de uma máquina, e a maior parte dos ouvintes tampouco conseguia entender o que eu dizia."
Foi ao redor desse contexto familiar que todo o álbum girava. "Eu achei que era arte, a expressão de alguma coisa extremamente pessoal. Chamei-o de ‘Trans’, para designar a tentativa de atravessar de um mundo para outro, de estar trancado num corpo sem uma voz inteligível, tentando se comunicar por meio de máquinas, computadores, microfones e outros dispositivos."
Entretanto, esse conceito "muito profundo e inacessível" causou estranhamento nos fãs, abusando de sintetizadores e toda sorte de elementos da então incipiente música eletrônica, muito influenciada por Kraftwerk. Por apresentar algo tão radicalmente diferente do que se esperava de Neil Young, o resultado foi mais um fracasso comercial para sua carreira.
"Eu estava cantando com um sintetizador sobre coisas que eles [os ouvintes] não entendiam, e não conseguiam ver os personagens que eu representava porque não havia imagem acompanhando a música."
Young explica que elaborou uma série de vídeos para desenvolver o conceito e o explicar ao público. No entanto, eles jamais foram produzidos porque sua nova gravadora, a Geffen Records, não teve interesse em investir dinheiro no projeto.
"Sem os vídeos, o disco estava incompleto e jamais deveria ter sido lançado assim", lamentou. Nessa história toda, seu único arrependimento não foi não ter feito sucesso, mas ter deixado de fazer o que realmente queria.
"Fiz um disco chamado ‘Island in the Sun’, sobre o planeta Terra, e convidei David [seu empresário] para escutá-lo. (...) Ele não se impressionou e pediu para eu gravar outra coisa. Para agradar David, ele decidiu misturar as ideias de "Island in the Sun" com o conceito e sonoridade que já tinha em mente para "Trans".
A moral da história para Neil Young foi que ele "deveria ter preservado ‘Island in the Sun’ com o formato original e ter feito o ‘Trans’ depois, com mais espaço par as canções se estabelecerem como uma atmosfera coesa, completa. Eu me traí por não continuar fiel à minha arte e seguir minha inspiração."
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