Neil Young foi processado pela própria gravadora após lançar álbum que não se parecia com ele
Por Gustavo Maiato
Postado em 16 de dezembro de 2025
Existe uma ideia romântica de que gravadora só quer lançar discos e contar dinheiro, enquanto o artista só quer fazer arte e ser incompreendido. Na vida real, quando o cheque é grande e o ego também, as duas coisas se misturam - e aí qualquer desvio de rota vira crise institucional. No começo dos anos 1980, um dos maiores compositores de sua geração descobriu isso do jeito mais absurdo possível.
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A história foi relembrada pelo jornalista André Barcinski em vídeo do seu quadro "Histórias Secretas do Cinema e da Música". Ele conta o episódio em que Neil Young trocou a Reprise pela Geffen, a gravadora de David Geffen, num acordo caro e cheio de expectativas. Só que, como Barcinski resume, "você não diz pro Neil Young o que ele deve fazer… quando alguém diz pro Neil Young o que ele deve fazer, aí que ele faz o contrário mesmo".
A fase era delicada. Barcinski lembra que Young vivia um momento difícil em casa, tentando encontrar formas de se comunicar com o filho Ben, que não falava, e isso o aproximou de tecnologia, vocoders e experimentos eletrônicos. "Ele tava usando… tecnologia pra tentar se comunicar com o filho", diz o jornalista, contextualizando como a vida pessoal acabou empurrando o canadense para um som que fugia do rótulo "Neil Young" que a indústria tinha na cabeça.
Histórias sobre Neil Young
O resultado foi "Trans" (1982), um disco que deixou a gravadora desnorteada por ser "o álbum mais experimental possível", como descreve Barcinski, e por não render comercialmente. A reação da Geffen, segundo ele, foi tentar enquadrar o artista: a cobrança por um disco mais "de rock", mais reconhecível, mais vendável. A resposta de Young foi outra guinada - e, ironicamente, ainda mais provocativa.
Barcinski afirma que o álbum seguinte foi um LP de rockabilly, "Everybody's Rockin'", que também não vendeu e foi mal recebido. E aí veio o capítulo que parece piada pronta: "O David Geffen processa… o Neil Young por, entre aspas, não fazer música parecido com Neil Young", relata. Na leitura do jornalista, é um caso raríssimo de um artista ser atacado judicialmente por não soar como a própria caricatura.
O processo, porém, virou tiro no pé. Barcinski diz que a gravadora foi "humilhada" publicamente e que a pressão negativa fez a história perder força até não dar em nada. Mesmo assim, Young ainda lançou outros trabalhos pela Geffen, sem que a relação deixasse de ser marcada por estranhamento, até voltar para a Reprise no fim da década - com a sensação de que os anos 80 foram uma travessia ingrata na discografia dele.
No fim, a moral é simples e cruel: quando a indústria compra um "produto", ela quer repetição; quando o artista se vê como obra, ele quer movimento. Barcinski fecha a lembrança como um retrato perfeito de um músico "iconoclasta" colocado diante de uma cobrança por resultado - e respondendo com discos "completamente anticomerciais", do tipo que não pedem desculpa por existir.
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