O álbum de Lennon & McCartney que Neil Young se recusou a ouvir; "Isso não são os Beatles"
Por Bruce William
Postado em 26 de novembro de 2025
Neil Young nunca escondeu que é obsessivo com o jeito como a música chega aos ouvidos das pessoas. Ao longo dos anos, ele reclamou de formatos digitais, defendeu gravações analógicas e comprou briga com qualquer tentativa de "polir demais" um registro antigo só para agradar a equipamento moderno. Para ele, o valor de um disco está ligado também ao contexto em que foi gravado e ao som que o público ouviu na época.
Por isso, não surpreende que ele olhe com desconfiança para a onda de relançamentos em surround, remixes em 5.1 e edições "repaginadas" de clássicos dos anos 1960. Na visão de Neil, esse tipo de projeto muitas vezes nasce mais da necessidade de movimentar catálogo e criar novos produtos do que de um desejo real do artista de revisitar a própria obra. Foi justamente nessa categoria que ele colocou uma versão remixada de "Yellow Submarine".

A proposta era relançar o material com tudo reequilibrado em som multicanal, tentando colocar o ouvinte "dentro" do universo psicodélico criado por Lennon & McCartney. Gravadora satisfeita, divulgação garantida, catálogo girando de novo. Para muita gente, parecia apenas uma atualização técnica. Para Neil Young, veio a sensação de truque de estúdio travestido de homenagem.
Ao falar sobre esse tipo de lançamento, ele esclareceu seu ponto de vista, conforme recorda a Far Out: "A gravadora precisa de produto. Mas algo como 'Yellow Submarine' é perturbador pra mim. Eu não ouviria. Vai aparecer um monte de coisas desse tipo - e elas não vão prestar. É como uma novidade. Você está 'na sala', mas não está realmente lá com os psicodélicos que os Beatles estavam usando. Se eles tivessem feito a própria mixagem 5.1 naquela época, aí seria eles. Mas isso não são os Beatles."
O que incomoda Young não é simplesmente o fato de existirem remixes, e sim quem está conduzindo a operação tantos anos depois. Para ele, há uma distância grande entre ajustar um detalhe técnico numa reedição e redesenhar a experiência toda sem a presença efetiva dos músicos que tomaram as decisões originais. Um trabalho de estúdio moderno pode até soar impressionante em home theater, mas, na cabeça dele, isso não recria o clima das sessões do fim dos anos 1960.
Essa visão casa com o jeito como ele tratou a própria carreira. Neil Young já vetou lançamentos, discutiu qualidade de áudio em público e compôs faixas como "This Note's For You", em que provoca a mistura excessiva entre música, publicidade e grandes marcas. Ele não demoniza dinheiro nem quem aceita contratos, mas perde a paciência quando percebe que o som foi moldado demais para caber num pacote pronto, pensado antes como produto de prateleira.
Quando entram em cena Lennon & McCartney, o respeito à escrita das músicas é evidente. Young nunca deu a entender que despreza o repertório dos Beatles; o alvo é a forma como esse repertório é manuseado depois, anos e anos mais tarde. "Yellow Submarine" já tinha natureza híbrida, misturando trilha de filme e reaproveitamento de faixas. A decisão de empurrar o álbum para o universo dos remixes em 5.1 reforçou, para ele, a impressão de que ali se falava mais alto a lógica do catálogo do que a de uma nova criação artística.
Enquanto isso, o mercado seguiu produzindo outros experimentos com as mesmas gravações. O álbum "Love", ligado ao espetáculo do Cirque du Soleil, reorganizou trechos dos Beatles em colagens e montagens; remixes recentes, lançados em 2023, deram nova aparência a faixas antigas e apresentaram essas músicas a quem nunca encostou num LP. Para uma parte dessa geração, essas versões retocadas são justamente a porta de entrada para o grupo.
Hoje, convivem dois modos bem diferentes de se aproximar do mesmo material. De um lado, ouvintes como Neil Young enxergam o vinil original e as mixagens da época como o registro válido do que os Beatles realmente fizeram em estúdio. Do outro, há quem descubra esse repertório via remixes, trilhas de espetáculo e relançamentos pensados para sistemas atuais. A fala de Young expõe essa rachadura: quanto mais o catálogo é retrabalhado, mais forte fica a discussão sobre até que ponto aquele som ainda corresponde, na essência, ao que Lennon & McCartney gravaram lá atrás.
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