O processo de gravação de "Let It Be", dos Beatles, segundo o produtor George Martin
Por André Garcia
Postado em 04 de fevereiro de 2023
No começo dos anos 60, George Martin surgiu como um verdadeiro mentor musical para os Beatles, pondo a serviço do inexperiente quarteto seu vasto conhecimento de maestro e produtor veterano. Figura fundamental na fase experimental da banda, dos álbuns "Revolver" (1966), "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Magical Mystery Tour" (ambos 1967), produziu toda a discografia da banda exceto "Let It Be" (que até cuidou da gravação, mas acabou eventualmente substituído por Phil Spector).
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Em entrevista disponível no YouTube, ele contou como foi o processo de gravação do "Let It Be", sua opinião sobre o resultado final, e como a banda acabou o sabotando.
"Antes do 'Abbey Road', tínhamos gravado um álbum chamado 'Let It Be'. E o 'Let It Be' foi, eventualmente, lançado após o 'Abbey Road', mas a gente não sabia na época. A ideia do 'Let It Be' foi boa, mas nunca se concretizou, de fato. A ideia original era que John, Paul e George compusessem novas músicas para o álbum que fossem muito boas, e eles seriam retratados como veteranos, fariam eles soar bem, talvez gravar faixas demo. Mas no álbum em si, pensamos: 'Vamos fazer ao vivo! Nós nunca fizemos isso. Vamos gravar um álbum ao vivo de músicas inéditas diante de uma plateia. Foi isso o que quisemos fazer com o 'Let It Be'."
"A ideia naufragou, porque não conseguimos dar jeito de levar uma plateia da Inglaterra, no meio do inverno, grande o bastante. E, como de costume, os Beatles queriam fazer tudo em cima da hora — esse tipo de coisa não se organiza de uma hora para a outra. Eles queriam, além disso, gravar em seu próprio estúdio (que não possuía o equipamento apropriado), só para acomodar aquilo. Eu tive que levar muitos equipamentos do Abbey Road para o estúdio deles, que o designer deles, Magic Alex, esqueceu de deixar um buraco na parede para passar cabos e essas coisas. Aquilo era uma tolice, o estúdio não era o ideal, mas trabalhamos com ele."
"Tivemos ainda mais estresse por estarmos sendo seguidos por câmeras a todo lugar. Durante toda a gravação tinha câmera sobre meu ombro, cada palavra sendo registrada para a eternidade. E a atmosfera entre os garotos [da banda] não era boa, brigas começavam a acontecer. Foi um álbum infeliz. Eu estava perdendo o controle [sobre a banda], minha voz não era ouvida, e eu fiquei muito desanimado."
"John exigiu que fizéssemos um álbum honesto. "Nada de seu lixo de produção", disse ele. "Não quero nada editado, eu quero que tudo seja ao vivo. Vamos apenas gravar e vocês me dizem quando estiver bom. Aquilo ficou tedioso, porque não estava certo. Eu dizia '[Take] 19 saiu com um barulho no baixo, é fácil de corrigir' e John respondia 'Não! Nada de correções!' 'Ok, então vamos gravar outro take'. [Gravávamos o take] 20, 21, 22, 23... nunca saía certo. [Gravávamos o take] 53, sabe? Aquilo ficou muito, muito tedioso."
"O Álbum, no fim das contas, por conta dessas restrições, não ficou bom. O que eu conseguia pensar para fazer com aquilo era um documentário. Estava trabalhando com Glyn Jonhs — ótimo engenheiro de som, agora produtor — combinamos de colocar os defeitos e tudo, os erros, as contagens, as conversas entre os takes... Como uma mosca na parede dos Beatles. Foi o que fiz com o álbum."
"Mas, depois do 'Abbey Road', Paul me ligou e perguntou: 'Você está sabendo o que aconteceu com o 'Let It Be'?' Eu disse que não, e ele disse: 'Eles levaram para os Estados Unidos e entregaram a Phil Spector! Ele está fazendo tudo que John disse que não faria. Estão botando corais e todo tipo de floreio de cordas... nas MINHAS músicas!' Ele estava furioso. E foi esse caminho que o 'Let It Be' seguiu."
"A gota d'água foi a [gravadora] EMI dizer que não ia colocar meu nome no álbum, porque agora Phil Spector que era o produtor. Eu respondi: 'Vamos chegar a um denominador comum — porque vocês não escrevem 'Produzido por George Martin e exagerado por Phil Spector?'"
O processo de gravação do "Let It Be" foi lançado em 1970 como filme, e recentemente como a série "Get Back":
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