Ira! fez do Ibirapuera seu quintal no Best of Blues and Rock
Por André Garcia
Postado em 07 de junho de 2023
Formado em 1981 em São Paulo, o Ira! se consagrou um dos maiores nomes do rock nacional dos anos 80, na década seguinte entrou em baixa, e em 2004 fez mais sucesso que nunca com o Acústico MTV. Em 2007, se separou por crises internas que resultaram na saída do vocalista Nasi e no fim de sua amizade com o guitarrista Scandurra. Só em 2013 eles se reconciliaram, e em 2014 retomaram a banda. Desde então, seguem na ativa com Evaristo Pádua na bateria e Johnny Boy no baixo (e ocasionalmente vocal, violão e teclados).
Em 2020, lançou o elogiado álbum "IRA", seu primeiro trabalho de inéditas desde "Invisível DJ" (2007), e o único contando com a nova formação. No entanto, esse trabalho teve a turnê abortada pela pandemia. Agora, no pós-pandemia, o Ira! volta à estrada, que, segundo Nasi na coletiva de imprensa, sempre foi sua razão de existir: além de feita para tocar ao vivo, sempre lançou álbuns para fazer turnês.
Foi nesse cenário que a banda tocou no último dia da décima edição do Best of Blues and Rock. Tocando quase que apenas hits seus primeiros álbuns, não poderia ter escolhido um repertório mais paulista. Se fora de São Paulo desde sempre o Ira! ouve críticos dizerem que a banda é "paulista demais", em pleno Ibirapuera isso não tem como ser um problema. Muito pelo contrário. Suas letras são tão parte da vida na capital paulista quanto a paisagem cinza, o metrô lotado na hora do rush, a solidão em meio a uma multidão, e os onipresentes e oniscientes ladrões de celular.
Fotos: André Velozo

O show começou pontualmente às 15h20 de uma tarde ensolarada de céu azul, perfeita para um piquenique estirado na grama. Em todo o festival não teve banda que se sentisse mais à vontade sobre aquele palco, como se estivessem tocando no quintal de casa para os amigos. E não teve outra banda que tivesse tocado nesse horário com a área externa do auditório já lotada. Para todo lado que eu olhava, tinha gente cantando as letras — mas não como quem catarola enquando lava a louça, e sim como quem canta o hino do seu time de coração.
Ninguém usou tanto a passarela em V à frente do palco quanto Nasi, que toda hora as usava para chegar mais perto da galera. Só nas primeiras músicas, ele fez mais uso delas do que algumas das outras bandas em todo o show. Com o público na mão, sempre que convocava a galera a cantar o coro ou marcar o ritmo com palmas, ela o fazia em peso. "Vejo Flores Sem Você" foi cantada do começo ao fim.
Scandurra fez um ótimo uso do ótimo som do festival, soando alto, claro e frontal com toda sua vasta gama de timbres, efeitos e texturas sonoras. Um dos mais paulistas dos guitar heroes do rock nacional, como ninguém mistura The Who, The Clash, The Jam e Hendrix. Em certo momento ele homenageou Rita Lee, que semanas antes havia sido velada ali mesmo no Ibirapuera, no planetário. Após cantar trecho de "Ando Meio Desligado", o guitarrista mandou um "Viva Rita Lee!" Outra homenagem foi a Jimi Hendrix, com um cover de "Foxy Lady".

A participação especial ficou por conta da Day Limns, que mais cedo tinha feito a abertura do terceiro dia do festival. A cantora dividiu com Nasi o vocal de "Eu Quero Sempre Mais". Com tranquilidade e sem sustos o Ira! conduziu o show até o fim com verdadeiros hinos do cotidiano paulista. A experiência é tanta que eles parecem tocar todo o repertório sem esforço, parece bastar a memória muscular.
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