A opinião de Humberto Gessinger sobre Nasi se posicionar politicamente em show
Por Gustavo Maiato
Postado em 08 de outubro de 2025
Em entrevista recente ao Perimetral, Humberto Gessinger comentou a polêmica envolvendo o vocalista Nasi, do Ira!, e defendeu o direito dos artistas de se posicionarem politicamente nos palcos. Para o cantor e compositor gaúcho, expressar opiniões - e também lidar com aplausos ou vaias - faz parte natural da arte e da vida pública. Na ocasião, Nasi se manifestou politicamente num show e foi alvo de elogios e críticas.
"Cara, eu gosto muito do Ira, e acho que falar tuas ideias no show faz parte, não só esteticamente, quanto politicamente. Fala o que tu quiser. Vaiar e aplaudir também faz parte do show", disse Gessinger.

O músico, porém, criticou o que chamou de "arquitetura para estigmatizar" certos posicionamentos políticos, especialmente quando artistas são alvos de boicote após manifestações públicas.
"O que eu acho é que a coisa do boicote… não sei se sou paranoico, mas aí eu acho que já entra, como falava Jânio Quadros, forças ocultas. Já tem uma arquitetura desenhada pra estigmatizar isso. Porque não me parece fora do normal um artista falar a sua opinião e gente gostar e gente não gostar."
Humberto Gessinger, Ira e Nasi
Humberto Gessinger lembrou que músicos da geração de Nasi cresceram justamente "falando o que achavam", e que o público deveria lidar com a diversidade de ideias. Ele contou que chegou a escrever um texto defendendo o vocalista do Ira, mas recebeu críticas de quem acredita que "artista tem que ficar quieto".
"Me escreveram dizendo: 'Não, mas artista tem que ficar quieto, é só cantar'. Mas tem gente que vê arte como uma coisa decorativa. Quer que tu cante 'Volare', entende? Mas as pessoas que vão ver o Ira estão a fim de ouvir 'Volare'? Quem é que tava lá?"
O vocalista do Engenheiros do Hawaii também fez uma autocrítica, reconhecendo que evita trazer debates políticos para seus shows - mas admite sentir um "ciúme" de artistas que conseguem se expressar mais livremente.
"Eu tento não trazer isso pro palco, mas meio com ciúmes disso, entendeu? Porque eu acho que a música deve ser o que eu faço e deve ser o que deve ficar na frente. Tenho ciúmes quando esses acessórios tomam a frente do que é o teu trabalho e as pessoas começam a não ouvir a música."
Gessinger aproveitou para relembrar o incômodo que sentia, no início da carreira, ao ser rotulado como representante do "rock gaúcho". "A gente fazia um disco maravilhoso, gravava, achava bem, e a manchete era 'rock gaúcho', 'rock de chimarrão', 'rock bombacha'. Pô, adoro a música daqui, mas não quero ser um cara chapa-branca, pra ficar falando tipo secretaria de turismo."
No fim, Humberto resumiu seu ponto de vista sobre arte e liberdade de expressão com uma analogia provocadora: "Tem gente que quer música como papel de parede, como se esses quadros que tu compra por metro fossem arte. Mas, cara, tu vai pro museu pra ser surpreendido. Um cara pegou um mictório, botou no museu e mudou a história da arte. Quer dizer, uma manifestação artística. O segundo que botasse o mictório no museu não mudaria nada - mas o primeiro, sim."
Confira a entrevista completa abaixo.
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