A regra velada que havia entre bandas dos anos 1980 que RPM encontrou brecha e quebrou
Por Gustavo Maiato
Postado em 12 de fevereiro de 2024
Se hoje em dia o que domina as casas noturnas em que se apresentam bandas de rock são os grupos que fazem cover, nos anos 1980 a história era diferente. Conjuntos como RPM, Titãs, Paralamas e Ultraje a Rigor ficaram muito famosos não interpretando hits dos outros, mas apostando na força de suas próprias composições.
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Em entrevista ao Tomalicast, Paulo Ricardo, ex-RPM, comentou sobre essa regra que havia de não fazer shows tocando clássicos estrangeiros em inglês de bandas consagradas. Ele explicou que, no caso de sua banda, ao incluírem ‘London, London’ no repertório, como se tratava de uma canção em inglês, mas feita por Caetano Veloso, isso não implicaria numa quebra tão forte assim do acordo que havia.
"Eu, vindo de Londres com aquele K7 brasileiro, ouvia aquelas músicas bem ‘Bahia do Gil’. Ouvi muito ‘London, London’, que acabamos gravando no RPM, e os discos que Caetano e Gil gravaram no exílio. Eu estava em uma espécie de auto-exílio, porque estava frustrado após quatro anos como crítico de rock. Eu queria formar minha própria banda, mas as coisas não estavam dando certo. Então, fui para Londres em busca da minha jornada pessoal, do meu alquimista, certo?
Ao retornar, havia uma regra entre nós da cena do rock dos anos 1980 naquela época de não se cantar covers. Então, você não iria ver shows dos Titãs tocando ‘Smoke on the Water’ ou o Ira! tocando ‘Satisfaction’ Se você quisesse ouvir, era só o original, e em português. Eu vi esse movimento quando cheguei.
Tinha uma cena forte na Avenida Paulista e nos Jardins. Nos Jardins, era o pessoal mais abastado e tinha aqueles bares que cobravam couvert alto, e essas bandas eram boas. Eu até participei de uma que fazia sucesso, e era só cover. Agora, indo para o centrão era diferente. Lá pelo Bexiga. Era o circuito dos bares, surgiu o Inocentes, e as bandas se multiplicavam. Era uma riqueza, uma efervescência que eu nunca tinha visto. Acho que nunca vi. Dificilmente haverá algo como aquela primeira metade dos anos oitenta. E nós estávamos todos focados em mostrar um repertório autoral em português.
Porém, eu gosto de cantar em inglês. Cresci ouvindo Beatles, Stones, etc. Eu vi essa oportunidade de cantar em inglês sem quebrar o estatuto. Eu sugeri para o Ney Matogrosso, que dirigiu nosso show ‘Rádio Pirata’, uma música do Caetano, apesar de ser em inglês, feita na ditadura militar, certo? Tudo a ver com nosso conceito de Revoluções por Minuto e tal. Essa música ‘London, London’ foi incluída no show, ficou uma graça, piano e voz, um arranjo tranquilo. Estreamos aqui no Teatro Brigadeiro em 22 de setembro. Eu lembro bem, porque no dia seguinte era meu aniversário, 23 de setembro. Eu fiz aniversário à meia-noite".
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