Quando a ficha caiu para George Harrison e ele sentiu que não sabia mais fazer música pop
Por Bruce William
Postado em 28 de abril de 2025
George Harrison sempre teve um jeito reservado, mas direto ao expressar o que pensava, inclusive sobre o rumo da música popular nas décadas seguintes ao fim dos Beatles. Embora tenha se mantido ativo como artista solo, houve momentos em que ele sentiu que já não pertencia mais ao universo musical em que havia sido tão influente.
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Durante os anos 1970, Harrison seguiu lançando faixas com sua marca registrada: melodias introspectivas, letras espirituais e sonoridade ancorada em folk, rock clássico e música indiana. Ele nunca demonstrou interesse em acompanhar tendências, muito menos quando elas se tornavam dominantes. Enquanto o punk tomava conta das paradas com sua energia crua, Harrison lançava canções suaves como "Blow Away", fiel ao seu próprio estilo.
Essa desconexão se acentuou no início dos anos 1980. Ao gravar "Somewhere in England", álbum lançado pouco após o assassinato de John Lennon, Harrison percebeu que estava em choque com o que dominava as rádios. O som dos sintetizadores e a ascensão de bandas como Soft Cell e Depeche Mode pareciam representar tudo o que ele não era. Segundo o baterista Dave Mattacks, que trabalhou com ele nessa fase, Harrison comentou: "O que eu estou fazendo? Não me sinto parte da música contemporânea."
Embora tivesse feito videoclipes inovadores em álbuns anteriores, como os de "Crackerbox Palace" (youtube) e "This Song" (youtube), Harrison não se via na estética da nova geração. Ele até usava sintetizadores em seus discos, mas como um elemento complementar. A sonoridade eletrônica dominante da época, no entanto, parecia transformar os instrumentos em muletas estilísticas.
Essa frustração ficou evidente na faixa "Blood From a Clone", em que Harrison critica a indústria musical e sua pressão por fórmulas comerciais. A ideia era protestar contra a artificialidade crescente, mas a própria gravação acabou soando como uma caricatura dos sons da época, algo que dificilmente agradaria o público que preferia hits como "Tainted Love" ou "Just Can't Get Enough".
Mesmo com essas dificuldades, Harrison seguiu em frente. Ele voltaria às paradas com o álbum "Cloud Nine", de 1987, e com o sucesso do Traveling Wilburys. Mas ficou claro que, naquela virada de década, ele se via como um estranho dentro do novo cenário. Como alguém que, ao olhar em volta, percebia que o mundo havia mudado, e que ele não se encaixava mais ali.
Aos olhos de Harrison, bandas como Soft Cell e Depeche Mode não eram apenas diferentes. Eram seu oposto completo. E mesmo que ele não tivesse intenção de soar amargo, havia uma melancolia inevitável em perceber que o tempo já não pertencia a ele.
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