O único grande hit do rock nacional que protestou contra o confisco de Collor
Por Gustavo Maiato
Postado em 15 de maio de 2025
"Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém." A frase virou refrão, grito de revolta e retrato de um país mergulhado em frustração econômica no início dos anos 1990. Em pleno governo Collor, o Biquíni Cavadão lançou "Zé Ninguém", uma das poucas — senão a única — músicas de grande repercussão no rock nacional a protestar diretamente contra o confisco da poupança imposto pela equipe econômica do então presidente Fernando Collor de Mello.

A história por trás da canção, marcada por ironia e crítica social, foi recontada em detalhes pelo jornalista Julio Ettore em vídeo publicado em seu canal. "Seu dinheiro está bloqueado. A maior parte dos cruzados novos ficará retida nos bancos", lembra Ettore, citando a medida que, em março de 1990, congelou a maior parte dos depósitos bancários dos brasileiros. "Vivemos o confisco da poupança. Simplesmente congelaram o acesso aos nossos recursos."
Apesar do impacto da decisão, que provocou filas em bancos e indignação generalizada, o episódio praticamente não foi retratado pela música popular da época. "Não é curioso que praticamente nenhuma música conhecida fale sobre esse episódio?", questiona Ettore. "Há uma canção, hoje pouco lembrada, que se tornou um dos grandes protestos da era Collor. Essa é a história de ‘Zé Ninguém’, do Biquíni Cavadão."
Gustavo Anunciação Lenza | Luis Alberto Braga Rodrigues | Paulo Eduardo Farias | Thomas Wisiak | Rogerio Antonio dos Anjos | Miguel Angelo Leal | Luis Alberto Braga Rodrigues | Efrem Maranhao Filho | Geraldo Fonseca | Richard Malheiros | Vinicius Maciel | Adriano Lourenço Barbosa | Airton Lopes | Alexandre Faria Abelleira | Alexandre Sampaio | André Frederico | Ary César Coelho Luz Silva | Assuires Vieira da Silva Junior | Bergrock Ferreira | Bruno Franca Passamani | Caio Livio de Lacerda Augusto | Carlos Alexandre da Silva Neto | Carlos Gomes Cabral | Cesar Tadeu Lopes | Cláudia Falci | Danilo Melo | Dymm Productions and Management | Eudes Limeira | Fabiano Forte Martins Cordeiro | Fabio Henrique Lopes Collet e Silva | Filipe Matzembacher | Flávio dos Santos Cardoso | Frederico Holanda | Gabriel Fenili | George Morcerf | Henrique Haag Ribacki | Jorge Alexandre Nogueira Santos | Jose Patrick de Souza | João Alexandre Dantas | João Orlando Arantes Santana | Leonardo Felipe Amorim | Marcello da Silva Azevedo | Marcelo Franklin da Silva | Marcio Augusto Von Kriiger Santos | Marcos Donizeti Dos Santos | Marcus Vieira | Mauricio Nuno Santos | Maurício Gioachini | Odair de Abreu Lima | Pedro Fortunato | Rafael Wambier Dos Santos | Regina Laura Pinheiro | Ricardo Cunha | Sergio Luis Anaga | Silvia Gomes de Lima | Thiago Cardim | Tiago Andrade | Victor Adriel | Victor Jose Camara | Vinicius Valter de Lemos | Walter Armellei Junior | Williams Ricardo Almeida de Oliveira | Yria Freitas Tandel |
Biquini e "Zé Ninguém"
Lançada em 1991 como faixa de abertura do disco "Depois da Civilização", "Zé Ninguém" marcou o renascimento da banda carioca, que havia surgido nos anos 1980, mas começava a cair no ostracismo. Composta num momento de recessão, pessimismo e desconfiança, a música canalizou a sensação de abandono e injustiça social que dominava o país.

Segundo o vocalista Bruno Gouveia, o impacto do confisco foi imediato: "Em 1990, o mercado de shows morreu quase como uma pandemia, porque as pessoas estavam sem acesso aos seus recursos – não podiam sacar nada." O tecladista Miguel Flores e o baixista André Shake estavam fora do país quando a medida foi anunciada e, ao retornarem, ouviram o alerta: "Venda todos os dólares antes de entrar no Brasil e comprem cruzados novos!" Assim, driblavam a limitação de 50 mil cruzados novos por pessoa.
A revolta da população, somada à inércia das instituições e à retórica otimista de Brasília, foi sintetizada no verso que se tornaria icônico: "Eu não sou ministro, eu não sou magnata, eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém." A música se tornou um retrato cruel da desigualdade no Brasil pós-redemocratização: "Aqui embaixo as leis são diferentes."
Mas a letra, segundo Bruno, ia além da crítica econômica. Surgiu de uma inquietação filosófica do baixista André Shake: "A ideia era questionar axiomas — essas verdades incontestáveis que ninguém prova. Tipo: ‘Quem foi que disse que o homem não chora?’" Quando o plano Collor estourou, esse questionamento ganhou forma mais contundente, e Bruno o expandiu, adicionando provocações como:
"Quem foi que disse que ‘a justiça tarda, mas não falha’?"
"Quem foi que disse que ‘os homens nascem iguais’?"
"Quem foi que disse que existe ‘Ordem e Progresso’, enquanto a zona corre solta no Congresso?"
O resultado foi um refrão direto, amargo e empático, que falava diretamente com o trabalhador comum, sufocado pela crise, esquecido pelos poderosos: "Cada dia eu levo um tiro que sai pela culatra."
O sucesso de "Zé Ninguém"
A recepção foi imediata. "Zé Ninguém" voltou a colocar o Biquíni Cavadão nas rádios e consolidou o disco "Depois da Civilização" como um dos grandes trabalhos da banda. O sucesso abriu caminho para outro hit, Vento Ventania, lançado logo depois, e marcou a retomada criativa de um grupo que sobreviveria ao tempo, reinventando-se diversas vezes nas décadas seguintes.
Mais de 30 anos depois, a faixa permanece como uma das poucas manifestações diretas do rock brasileiro contra a política econômica de Collor. Num momento em que o país ainda buscava curar as feridas da ditadura e construir uma democracia sólida, "Zé Ninguém" foi a voz de quem não tinha voz. Como bem conclui Julio Ettore em seu vídeo: "Enquanto quase todos calaram, o Biquíni Cavadão cantou. E cantou alto."
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



System of a Down puxa coro contra o Oasis durante show em Londres
O melhor livro de todos os tempos, segundo Robert Smith do The Cure
Slash elege os 10 maiores riffs de guitarra de todos os tempos
Slipknot confirma produtor com o qual está trabalhando em novas músicas
Como foi gravar músicas do Rainbow com o Dio, segundo James Hetfield do Metallica
O melhor disco do Scorpions, segundo a Classic Rock
A melhor música de todos os tempos, na opinião de Tarja Turunen
Mick Jagger revela quem deveria interpretá-lo em um filme sobre os Rolling Stones
A música "numero 1" do AC/DC, na opinião de Angus Young
Guitarrista do Kiss, Tommy Thayer lança nova banda, Shogun Mojo
Pophouse adquire parte dos direitos musicais, de imagem e nome do Iron Maiden
A música romântica do AC/DC que Angus Young se arrepende de ter gravado
5 músicas que fazem o metaleiro olhar para o amigo e dizer: "Agora ficou sério"
Os dois Beatles que poderiam ter entrado nos Rolling Stones segundo Keith Richards
O melhor timbre de guitarra de todos os tempos para Slash; "pesado pra caramba"
A vingança de Janis Joplin contra os Rolling Stones por prática que não concordava
Lista: 10 bandas que acabaram e nunca mais retomarão as atividades
A música do Genesis que virou hit, mas Phil Collins não cantava; "Não sei do que ela fala"

Biquíni aos 40 (41): entre reinvenção e estrada, a banda mantém relevância no rock nacional
As coincidências entre trajetória de altos e baixos de Nenhum de Nós e Biquini Cavadão
