O padrão estabelecido por uma banda que nem o Pink Floyd tentou alcançar
Por Bruce William
Postado em 08 de maio de 2025
Roger Waters nunca teve receio de apontar o dedo para o sistema — fosse ele corporativo, educacional ou musical. Com o Pink Floyd, transformou angústias internas e críticas sociais em álbuns conceituais que marcaram gerações. Mas nem toda essa ousadia impediu Waters de reconhecer quando outro grupo havia feito algo que, para ele, era simplesmente inalcançável.
No começo da carreira, os rumos do Pink Floyd eram ditados por Syd Barrett. Quando o vocalista e guitarrista original se afastou por conta do uso de drogas, coube a Waters assumir o leme. Foram anos tateando no escuro até encontrar o próprio caminho como letrista e arquiteto conceitual. E quando finalmente encontrou, entregou discos como "Animals", "The Wall" e "The Dark Side of the Moon", todos com um olhar brutalmente honesto sobre a realidade.

Enquanto "The Wall" era um mergulho na mente de um artista fragmentado, e "Animals" escancarava o lado podre da sociedade, "Dark Side" tratava de algo ainda mais universal: o tempo, a morte, a loucura, o medo e a fragilidade da vida comum. Waters entendia que era possível se conectar com o ouvinte sem precisar soar esperançoso ou comercial. Mas mesmo ao criar obras tão densas, ele sabia que existia uma referência que pairava acima de todos.
Em entrevista, Waters reconheceu em declaração publicada na revista Rolling Stone e replicada pela Far Out: "Sentíamos que os Beatles eram bons demais para competir, honestamente. 'Sgt. Pepper's' era outro álbum impecável, talvez tenha sido até um incentivo, porque estabeleceu um padrão muito elevado". Ao mesmo tempo em que admitia a influência, deixava claro que não havia como tentar ultrapassá-los. Para ele, os Beatles haviam chegado a um nível técnico e criativo que simplesmente não dava para igualar.
Ainda assim, Waters se permitia ser inspirado. Em especial pelo disco "Plastic Ono Band", de John Lennon, cuja abordagem crua e confessional lhe mostrou que a música podia ser um veículo direto para expor traumas e críticas. Se Lennon havia destruído a mística dos Beatles com um grito de dor pessoal, Waters resolveu mostrar o mundo desmoronando do lado de fora - e o resultado foram obras que escancaravam o caos com frieza quase científica.
Curiosamente, apesar da imagem pessimista que muitos atribuem ao Pink Floyd, há faíscas de esperança no final de "The Dark Side of the Moon". A jornada emocional construída faixa a faixa não termina em resignação. Waters não pede que o ouvinte se renda ao desespero — ele propõe que se reconheça a dor e, mesmo assim, siga em frente.
É difícil negar que os Beatles tenham uma trajetória mais variada e acessível, mas Waters encontrou outro caminho: usou a escuridão como matéria-prima e construiu pontes com milhões de pessoas que também se sentiam à margem. Se a barra foi colocada lá no alto por "Sgt. Pepper", Waters não tentou pular: preferiu cavar fundo e achar outro ponto de partida.
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